Confissão #100

Não sei ao certo porque demorei tanto tempo para vir fazer esse último post. Talvez tenha sido uma série de coisas, mas também talvez porque é o último. Adoro começar coisas, e geralmente stou começando várias ao mesmo tempo; mas quem disse que sei botar ponto final? Taí Um defeito de cor que não me deixa mentir. Tanto na pesquisa quanto na escrita, o mais difícil foi saber a hora de parar, e até hoje tenho dúvidas se soube mesmo.


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Quem acompanhou o finado Udigrudi talvez saiba que comecei a escrever por causa do blog. Como quase todo mundo com alguma queda para a escrita, na adolescência escrevi alguns contos e poemas, mas nada do que me orgulhasse, e por isso ninguém nunca soube. Abandoneo o hábito quando resolvi estudar Publicidade, e entrei de cabeça na profissão, estagiando em várias agências, trabalhando como revisora e redatora em tantas outras e abrindo a minha, exercia as mais variadas funções durante quase 13 anos, até que perdi o tesão, e comecei a pesquisar a internet como uma alternativa, como um fôlego novo para uma área que parece estar se renovando a cada dia, mas não é bem a verdade. Comecei a buscar na internet uma nova forma de comunicação empresarial, e em 2000 caí em uma lista de discussão da qual não me lembro o nome e nem sei se ainda existe, mas que me fez mudar de idéia. Conheci gente como o Hernani, o Bica e o Maneco e a Cris, da Novae, que já trabalhavam conceitos como inclusão digital, conhecimento livre, copyleft etc..., que me convenceram e tornaram ultrapassados e mercenários os objetivos que, como empresária, eu tinha ido buscar na web. Desencantei de vez com a Publicidade, voltei a ler por prazer e comecei a escrever por necessidade. Desengavetei meus escritos e o sonho de escrever para viver, e os leitores do Udigrudi foram os grandes responsáveis por isso. Por causa do retorno e da proximidade que eu provavelmente não teria em nenhum outro meio. Resolvi confiar nos meus intintos e tentar a sorte.

No final de 2001, já tendo um assunto que me interessava pesquisar, vendi tudo o que tinha em São Paulo e fui embora para a Bahia, onde eu nunca tinha estado. Botei meus pés nos mares daquela terra encantada como se de lá nunca os tivesse tirado, sob a proteção de Iemanjá. Encantei-me por uma casa de portas e janelas vermelhas, em Itaparica e pra lá me mudei, depois de ter me desfeito de tudo que não coubesse no meu carro.

Durante três meses me ocupei de viver, de me recompensar pelos últimos oito anos sem férias, pelos clientes chatos (nem todos, é claro, principalmente os que me lêem agora hehehe), pelos trabalhos com prazo estourado, pelas procupações em ter que cavar trabalho para pagar contas e salários. Dias de deitar na rede da varanda e ouvir o mar, de catar conchas, de andar a esmo, de ver sol nascer e se pôr, de tomar banhod e chuva morna, de aprender a ver de que lado e quando a chuva viria, de tirar o salto e andar descalça, de me acostumar à drástica mudança. E só depois comecei a pesquisar para Um defeito de cor e a escrever Ao lado e à margem..., que lencei em edição independente no final de 2002. Foi um dos primeiros livros vendidos teclado-a-teclado, ou seja, através da divulgação de blogueiros amigos, quase sem a ajuda da grande midia e sem qualquer estratégiade distribuição para as livrarias. Vendi quase toda a edição de 1000 exemplares, e tive a sorte de um deles cair nas mãos do blogueiro, jornalista, geólogo e aventureiro amigo Gravatá, que fez com que outro chegasse ao Millôr, que me levou para a Record, que agora publica Um defeito de cor.


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Contei a história acima para justificar o seguinte: devo a publicação de Um defeito de cor a algumas serendipidades, a uma boa dose de sorte, à ajuda indispensável e nunca agradecida o suficiente de alguns amigos, à coragem da Record em investir nesse catatau escito por uma escritora iniciante e desconhecida, mas, principalmente, à blogosfera. Foi o blog que me fez voltar a escrever, foi o blog que me presenteou com leitores e amigos fantásticos, que sempre me incentivaram a continuar. Isso me leva a crer que não temos a real idéia do tamanho e da importância da influência dessa fantástica ferramenta.E talvez seja até bom que não tenhamos mesmo, pois assim podemos continuar a nos divertir com nossos blogs. Os meus blogs, por exemplo, nunca passaram de uma média de 60 leitores diários, e me levaram a ser publicada por uma das maiores editoras da América Latina.

Não sei se o termo é bem esse, mas "em agradecimento" a tudo o qu os blogs me deram, a partir de certo momento desse aqui, resolvi publicar em partes "Ao lado e à margem do que sentes por mim", e não fazer mais nenhuma edição impressa dele. A que fiz se pagou e me deu muito mais do que eu poderia esperar quando resolvi fazê-la, confesso que por pura ansiedade, por não ter paciência de esperar por respostas de possíveis editoras. E, é claro, por acreditar também.


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Já fui muito mal interpretada ao contar essa minha história, pois acharam que eu estava querendo me exibir. Já fui mal interpretada também ao dar algumas dicas para quem estava querendo publicar, mas vou correr o risco de sê-lo novamente, porque acho que vale a pena. Já fui até mal interpretada por ter tido sorte, mas me tranquilizei quando um amigo disse que sorte é quando a oportunidade encontra a capacidade, e comecei a acreditar que a mereci. Dizendo assim, até parece ter sido tudo fácil, mas não foi. Mas a sorte pode sim ser fator decisivo no mercado literário, assim como em muitos outros. Acredito que há algumas maneiras de atraí-la, mesmo sabendo que não há um único caminho das pedras, pois cada um deve esncontrar o seu. Mas há alguns atalhos:

1 - Levar a sério o processo da escrita. Antes de qualquer coisa, fazer literatura é trabalhar, trabalhar e trabalhar as palavras. Muito. Acreditar em inspiração e esperar por ela é perder um tempo precioso no qual o trabalho poderia estar sendo feito. É claro que há momentos mais propícios ao insight, mas eles devem nos encontrar trabalhando. Fiz 19 versões de Um defeito de cor, e relendo-o depois de impresso vejo muitas passagens nas quais eu devereia ter trabalhado mais, e algumas gralhas que me pegaram (e às revisões) distraída. (por favor, quem o estiver lendo, encontrando mais algumas, mande pra essa que, otimista ao extremos, acredita em próximas edições ;-)). Com isso aprendo que o livro publicado nunca é o livro ideal, mas apenas o livro possível. E isso dá um tremendo alívio para continuar trabalhando.

2 - O trabalho nunca termina depois de se escrever o melhor livro possível, pois, procurar uma editora para ele também dá trabalho. tendo uma vaga noção disso, eu comecei bem antes de terminar de escrevê-lo. Como tive sorte, não precisei passar por esse processo de busca, mas eu estava preparada para ele. Quando decidi que queria escrever e publicar, ainda em 2001, listei 10 editoras das quais mais gostava e, durante dois anos, pesquisei tudo sobre elas: quando e como surgiram, quem eram os editores responsáveis por ficção nacional, assinei boletins de lançamento dessas editoras - para saber em que tipo de livros e de mercados apostavam-, comprei pesquisas sobre o mercado editorial brasileiro, li muitas dicas de escritores publicados, descrobri quais editoras apostavam em iniciantes, qual a parcela de autores nacionais publicavam em relação a traduções etc... É um trabalho que parece não ter muito a ver com as funções de um escritor, mas é significativamente importante para quem quer começar. É preciso que haja uma identificação entre a obra que vai se propor e o catálogo e a visão da editora. Sabe-se que é muito difícil lançar um livro sem Q.I., mas é possível; mas é impossível lançar um livro sem Q.I. mandado para a editora errada.

3 - A apresentação do melhor livrpossível à editora certa também é muito importante. Faz uma bela diferença um original bem preparado, bem impresso, limpo e, de preferência, acompanhado de uma carta e apresentação dirigida ao(a) editor(a) responsável. Na carta, o escritor deve falar um pouco sobre o livro, sobre o que o levou a escrevê-lo, e demonstrar que foi com conhecimento de causa que decidiu enviá-lo para aquela editora. Mostrar que conhece o catálogo da editora, o trabalho que ela vem fazendo, e, por isso, sabe que o livro se encaixa no processo em andamento. Caso contrário, o livro será apenas mais um entre tantos outros que eles recebem (e se você não diz que não, não há porque eles pensarem diferente), e não custa nada facilitar o trabalho de triagem.

4 - Se você acredita na qualidade do seu livro: trabalhe, trabalhe, trabalhe. E invista nele: tempo ou dinheiro, ou os dois. Eu já fiz isso, e não me arrependo nem um pouco.

mas como eu disse antes, cada caso é um caso. Eu estava preparada para fazer tudo isso aí acima, mas não precisei. Ou talvez, até por causa disso eu não tenha precisado. Vai entender as serendipidades da vida... ;-) Mas, levando em conta tudo o que pode acontecer, o que desejo do fundo do meu coração a quem quer tentar, é: sorte! Muita sorte!


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Acabei não falando nada da noite de autógrafos de BH, em 12/05, que foi uma delícia. é muito bom a gente saber que pode contar com a família, com os amigos, com muitas pessoas queridas que participaram daquela noite tão importante para mim. Muito obrigada aos que compareceram, aos que escreveram, aos que desejaram boa sorte, aos que divulgaram. E o meu agradecimento especial para ele, que fez tudo acontecer.


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Não posso reclamar da divulgação. A assessoria de imprensa da Record tem trabalhado bastante e tem saído várias coisas sobre o livro. Já teve resenha de página inteira e entrevista no Prosa e Verso (perdi a oportunidade de linkar, e agora não encontro nem em cache mais), nos jornais de Minas, tenho dado entrevistas para vários programas de rádio, fui a um programa da Tv Horizonte, e tenho recebido um excelente retorno de vários leitores. Pois é, essas coisas acontecem! ;-))


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Mais algumas noites de autógrafo agendadas:

Rio de Janeiro - 03 de agosto, às 19:00h, na Argumento (Rua Dias Ferreira, 407 - Leblon)

Paraty - 12 de agosto, às 19:00h, na livraria Nova Paraty (Rua da Praia, 159 - Atrás da Casa da Cultura - como parte da Programação do
Off Flip

São Paulo - 16 ed agosto, às 18:30h, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena)


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Também fui convidada para dois eventos literários:
6 Feira do Livro de Ribeirão Preto, de 15 a 24 de setembro, na qual devo falar no dia 20, no Salão de Idéias

Tardes Literárias , dentro da Segunda Festa Portuguesa de Cabo Frio, que acontecerá de 6 a 12 de outubro. Devo falar no dia 7.


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Sempre que eu tiver algo a dizer, e ele deixar,darei um jeito de me convidar para blogueira convidada no Biscoito ;-). Acompanhem o blog dele e, sobretudo, participem do Clube do Leituras, que está começando as discussões sobre Grande Sertão: Veredas. Sabendo tudo que eu sei que ele sabe sobre esse livro, é imperdível.


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Acabei fazendo várias confissões, nesta que seria apenas a última. Quanto às anteriores, muito obrigada a todos que leram, comentaram, mandaram e-mails. Adorei os novos amigos e o contato com os antigos. Talvez algum dia eu volte, com outro blog. Talvez não. Tenho três livros começados e estou pesquisando para mais três, a trilogia "A história fantástica de Minas Gerais", que pretendo contar desde a pré-história até pouco depois da Inconfidência. Como podem ver, muito trabalho, trabalho e trabalho. Amém!
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