Confissão #67

Capítulo 9 – Parte V

Os segredos que me deram para guardar


Sobre os tabuleiros armados no descampado em frente à praça central, estavam bolos de milho verde, de tapioca e de fubá, pamonha, curau, cuscuz, pé-de-moleque. Além de duas iguarias típicas do santo, bem-casado e bolo de Santo Antônio. Havia também barraquinhas de tiro-ao-alvo, de ler a sorte e de fazer promessas. Estas vendiam pequenas imagens de Santo Antônio e muitas fitas brancas e vermelhas, sob o letreiro: “Tudo Virge. Até a Dona.” A dona eu conhecia, era a Salustiana, prima da dona Isabel, uma senhora brincalhona e toda sorrisos do alto de seus sessenta anos, ou mais. Eu sempre gostei desta familiaridade com que Santo Antônio é tratado, quase maldade mesmo. Ao lado da barraca da dona Salustiana já estavam vários deles, amarrados de cabeça para baixo, presos pelos braços sob os quais passavam uma fita de cada cor. Era a chamada corda das encalhadas.

- Dona Ana! A Isabel mandou eu guardar um especial aqui para senhora, olha! – era dona Salustiana, acenando os braços de dentro da barraca, quase gritando, chamando a atenção de todos que estavam por perto. – Pedi para o padre caprichar na benzedura!

Ainda bem que àquela hora ainda não tinha muita gente por ali. Era um povoado pequeno chamado Redes de Santo Antônio, a três praias de onde eu morava. A festa estava acontecendo no largo da capela, uma construção simples de parede caiada e linhas retas, tendo no alto o nicho de onde o santo tinha sido tirado. Trouxeram-no para a rua, perto do povo, para que todos pudessem ficar olho a olho com o santo quando fizessem os pedidos. Eu não sabia que os pescadores também eram seus devotos, mas como santo das coisas difíceis, a Santo Antônio tudo era possível, até encher as redes de peixes. Até arrumar marido para mim.

- Mas a dona Isabel cismou que eu preciso de um marido. A senhora acha que eu preciso da ajuda do santo, dona Salustiana? – eu gostava muito dela, às vezes ia até lá em casa visitar dona Isabel; sempre sorrindo.

- Precisar, acho que não precisa. Mas é sempre um ajudatório, né? – respondeu-me ela, já passando para minhas mãos o pequeno santo talhado em madeira.

Era um trabalho muito bonito. A dona Salustiana explicou-me sobre as fitas, a branca e a vermelha, que eu deveria amarrar uma em cada braço, pedindo que o santo me trouxesse o moço que eu quero, nem que fosse no laço. E depois que o pendurasse na corda, de cabeça para baixo, rezando meia Ave-Maria e meio Padre-Nosso.

- Quando o santo trouxer o moço, a senhora reza a outra metade.

Achei divertida esta idéia de pagar em prestações, quitando só depois de receber o bem. Será que o santo não poderia achar que era desconfiança não?

- Que nada, minha filha. Esse santo é muito ocupado, o que tem de gente encalhada fazendo promessa... Se pagar antes, já viu, né?! Ele vai deixando para depois, para depois...

Não custava nada pedir uma ajuda a Santo Antônio. Se ele também ajuda a encontrar coisas perdidas, haveria de ser útil em ajudar-me a encontrar o que eu tinha vindo procurar ali. Amarrei a imagem na corda e a dona Salustiana disse que eu poderia deixar bilhetinhos também, dizendo que tipo de moço eu queria encontrar.

- Hum... não sei! Posso ler alguns que estão lá?

Alguns deles eram quase impossíveis de se ler, a letra tremida, muitos erros. Mas um deles chamou a minha atenção, principalmente porque a moça tinha o mesmo nome que eu. Resolvi assinar embaixo.

- Pode, dona Salustiana? Aproveitar o mesmo bilhete?

- Com Santo Antônio tudo pode.

Li o bilhete:“O meu amor maior será assim, encantado, vindo de muitas eras, e eu o reconhecerei de pronto, e recomeçarei com ele toda a arte do encontro, da descoberta, e me sentirei de novo fazendo parte do sagrado, do elo festejado dos deuses com os homens, do cosmos, unindo magicamente o presente, o futuro e o passado. Ana" E então escrevi “e Ana”, bem a seguir ao nome da moça. Ana e Ana; o santo com certeza haveria de compreender o meu abuso e a dupla intenção do pedido.

Eu tinha ido mais cedo para ver a chegada dos capoeiras, a uma hora em que ainda fazia um calor enorme. O chão era de terra batida, que já tinha sido molhada várias vezes, embora nem isso o refrescasse; mesmo estando todo sombreado por folhas de coqueiro e de bambus, que serviam de sustentação para tiras e mais tiras de bandeirinhas de papel colorido. No centro do terreno, um mastro envergava uma bandeira com a figura do santo, e logo em frente a ele, a imagem tirada do nicho. Uma linda imagem de madeira com Santo Antônio de braços vazios, sem o Menino Jesus, emoldurada com flores de papel crepom, daquelas que ficam bem cheias e crespinhas. À sua frente, velas protegidas do vento por envoltórios feitos de garrafas plásticas recortadas. Um pouco mais adiante, uma enorme fogueira, já adiantando o que seria a festa de São João.

Fiquei conversando com a dona Salustiana, enquanto a praça ia sendo tomada por uma multidão de fiéis, a maioria trazendo as suas próprias imagens de Santo Antônios. Havia santos pendurados nos pescoços das mulheres, nas algibeiras das calças dos homens, pendendo de fitas amarradas nas cinturas de crianças. Enquanto atendia moças e rapazes à procura de pretendentes, a dona Salustiana me dizia que era tanta a procura pela corda que muitos já achavam por ali mesmo os seus pares. Contava-me também as histórias dos milagres, as tradições, as simpatias e as graças alcançadas pela fé em Santo Antônio. Na falta de riacho ali por perto, naquela madrugada, à meia-noite, o santo tinha sido lavado no mar mesmo, para “despregnar” e pegar melhor os pedidos deste ano.

- E a senhora sabe por que é que tem tanto moço chamado Antônio aqui na vila? As mães colocam esse nome porque eles podem feriar o dia de hoje; e têm a preferência das moças nas danças de mais tarde.

Havia uma movimentação vinda do lado da praia. Imaginei que fossem a banda e os capoeiras a chegarem. Despedi-me da dona Salustiana e fui arrumar um bom lugar para vê-los melhor.

- Até mais, filha. Boa sorte! – ela se despediu, piscando como se também estivesse me desejando boa sorte, para então acrescentar:

– E não esquece de pegar seu pãozinho de Santo Antônio depois da missa, dá fartura. Mas não é de homem não, é do de-comer mesmo – e riu a se fartar.
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Confissão #66

Para ele, que (me)sabe o segredo das estações, das chegadas e das partidas, que (me) sabe alegrar como ninguém, que (me) sabe sempre, e que acaba de chegar, de volta à blogosfera:


Unidade

Manuel Bandeira

Minh'alma estava naquele instante
Fora de mim longe muito longe

Chegaste
E desde logo foi verão
O verão com as suas palmas os seus mormaços e os seus ventos de sôfrega mocidade

Debalde os teus afagos insinuavam quebranto e molície
O instinto de panetração já despertado
Era como uma seta de fogo
Foi então que minh'alma veio vindo
Veio vindo de muito longe
Veio vindo
Para de súbito entrar-se violenta e sacudir-me toda*
No momento fugaz da unidade.

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*no original: "todo", mas aqui, com a licença poética do poeta.
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Confissão #65

Capítulo 9 – Parte IV

Os segredos que me deram para guardar


- Zé, você não acha que mar deveria ser palavra feminina? “A” mar não fica muito mais bonito?

Eu gostava de conversar com o Zé porque entrávamos logo na mesma sintonia, por mais que jogássemos os pensamentos um para o outro, sem prévia explicação.
- Com esta imensidão toda? Ficava bem sim. A mar azul. A mar vazante. A mar tranquila. A mar é imenso. Ou melhor, imensa...
E ficamos um bom tempo buscando adjetivos e frases para a mar. O Zé se lembrou do quanto a língua portuguesa é rica, por se dar a este tipo de inversão. Se falássemos inglês, estaríamos presos a um só artigo, mesmo nos referindo a todas “as” mares da Terra.
- Acho que vou passar a chamá-lo assim: a mar. Posso roubar essa sua idéia? – perguntou o Zé.
- Só se me der aquela frase.
- Qual?
- Aquela... Mas agora pensando bem, “a mar oxida os sentimentos”?
O Zé pensou por alguns minutos e respondeu que não, que tinha perdido aquele sentido, mas que ganhava um outro mais bonito ainda.
- Qual? – eu quis saber.
- Do que você precisa para viver? – perguntou o Zé.
Não entendi o que isto tinha a ver com a frase, e disse:
- Não sei... Comer, beber, ser feliz, amar...
O Zé me interrompeu e falou para me prender ao básico. Ao básico dos básicos.
- Respirar?! – arrisquei.
Ele parecia cada vez mais ansioso. Mal me deixava dar as respostas, mordendo os lábios para não falar antes de mim, já fazia outra pergunta.
- Isto! E você respira o que?
- Ar... Oxigênio!
- Bingo! Agora, por que é que acontece a oxidação? – o Zé fazia um movimento girando simultaneamente as mãos no ar, que poderia ser traduzido como um “e então, continua...”
Entendi onde ele queria chegar. Dois processos que se davam pela presença do oxigênio. Sim, para alguns amar é como respirar. Para mim, pelo menos, é quase isso. E respirar é superior a qualquer outra necessidade do corpo, suporta-se dias sem satisfazê-las desde que se respire. Amando-se também é possível suspender vários outros sentimentos, enferrujá-los por falta de uso. O Zé me olhava como quem tinha feito uma grande descoberta. Os olhos brilhavam postos em um ponto distante no mar. Um navio cargueiro que apitava, como se, mesmo com aquele tamanho todo, precisasse anunciar sua chegada ao cais. O Zé o imitou e saiu correndo em direção à água, com os búzios presos à barba batendo com estardalhaço contra o peito.
O Zé parece fazer parte desta ilha; é tão natural sua presença aqui quanto a dos coqueiros, da areia, das pedras, do mar. Agora mesmo brinca na água feito criança, de roupa e tudo. Lança o chapéu no ar para que acompanhe o vôo de duas gaivotas perdidas pela costa. Como será que se descobre o sexo das gaivotas? Eu acho que aquelas formam um casal, desgarrado do bando para poder namorar em paz. Acontece o mesmo com os recém-apaixonados, não suportam a presença de intrusos que, por não compartilharem do que estão sentindo, fazem parte de uma raça inferior, ou tenham algum tipo de doença contagiosa que é melhor evitar, mesmo que o amor os torne imunes.
Eu me lembro de um dia dos namorados que passei sozinha e reparei nos casais que encontrava pela rua, com presentes debaixo do braço e de mãos dadas, fortes e parceiros na ostentação. Era impossível não me sentir mesmo inferior, ou pelo menos diferente. Quando sozinhos com seus presentes, os homens são mais discretos. Pelo menos comigo foram, mas talvez tenham comportamento diferente em relação aos outros homens. Mas as mulheres, principalmente as que carregavam flores, estas eram cúmplices ao se portarem como se levassem nos braços um passaporte para algo chamado “aceitação”. Quando passavam umas pelas outras, sorriam e se cumprimentavam como se fossem velhas amigas ou se fizessem parte de um clube restrito de onde estavam definitivamente excluídas as de mãos vazias. Eu quase parei na primeira floricultura e comprei um ramalhete para mim; e teria feito se soubesse que ao chegar ao trabalho seria ainda pior. Andavam pelos cantos com risos e confidências, e cartões e embrulhos, que tratavam de esconder assim que eu me aproximava. Como se eu não pudesse entender o que significavam.
As gaivotas, sempre juntas e na mais perfeita sincronia, afastam-se mar adentro, como se também negassem ao Zé a participação na brincadeira. Ele então vem se sentar novamente ao meu lado.
- Entendeu mesmo aquilo que eu quis dizer? – ele parecia precisar de uma confirmação sobre a maravilha do pensamento.
- Entendi sim, Zé, e é brilhante. Mas ainda é meu?
- Só se me der outra palavra inventada.
- Uma palavra inventada? – eu tinha tantas, mas não me lembrava de nenhuma. Arrisquei:
– Desnamorados!
O Zé quis saber o que significava. Então contei para ele a história do dia dos namorados. Os que não tinham nada nem ninguém a comemorar, eram os desnamorados. Ele gostou, fizemos a troca e estabelecemos o câmbio: duas despalavras por uma frase-pensamento. Aberto a negociações, caso tivessem um grande valor sentimental para qualquer das partes. As duas gaivotas voltaram ao balé sobre as águas.
- Sabe onde vi as gaivotas mais lindas do mundo? – perguntou o Zé, e já respondeu sem me dar tempo para arriscar:
– Em Portugal, com Lorelei.
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Confissão #64

Capítulo 9 - Parte III


Os segredos que me deram para guardar


Hoje abri a porta-balcão e tudo o que era natureza saltou quarto adentro. Eu nunca tive animais de estimação, mas penso que deve ser assim. Abre-se a porta e eles saltam para dentro, com saudades do dono. Mas há uma diferença que ainda me faz preferir a natureza: é uma saudade mais gratuita. Voltei para a cama e fiquei no mais completo abandono. Não era vontade de não viver, mas sim de compartilhar a vida. Pretensão da minha parte, eu sei, afinal a natureza tinha muito mais a oferecer. Só por um momento, já conseguiu sentir o mesmo que as plantas depois da chuva? Elas ficam assim, abandonadas, escorrendo em gotas de tempo. Gotas de tempo puro – acho que isso faz parte da letra de uma música; é bonito, não é? Dá vontade de ficar repetindo e imaginando o tempo pingar dentro de uma ampulheta.

Alguns dias a gente deveria viver como se fossem o último. Eu disse alguns dias, para dar esta sensação de continuidade e intensidade, não de morte. Gosto da palavra “último”, muito mais do que da palavra “primeiro”. Mas, por outro lado, gosto mais de “começo” do que de “final”. Se eu pudesse estaria sempre começando as últimas coisas que quero fazer na vida. O último gole de vinho é sempre mais gostoso; o que fica na boca é o gosto do último beijo; o que ecoa é a última palavra. Tenho a mania, mais uma, de guardar as melhores coisas para o final. Sabe aquelas caixas de bombons sortidos? Como primeiro os que eu não gosto muito, e vou guardando os melhores, até que restem apenas eles, que como com prazer redobrado, um prêmio pela minha paciência. E aos poucos, para que durem mais. Mas acho que isto não serve para todas as coisas, principalmente para as mais urgentes ou importantes, aquelas das quais depende a felicidade da gente. Se as adiamos demais, elas podem extrapolar o prazo de validade. Quem dera que a vida fosse uma caixinha de bombons sortidos, não acha? A vida e o amor.

Você já viu alguém amando pela primeira vez? Mas é ver mesmo, porque sentir não vale; quando somos nós que estamos amando, estamos sempre fora do nosso ponto de observação, perto demais para ajustar o foco. Além disso, não admitimos que essas coisas também acontecem conosco, que estes novos traços que trazemos nos olhos, quais persianas semi-veladas, são traços de loucura. Não acha que o amor é loucura? Pois então me diga quem, em sã consciência e sabendo dos riscos, vai dar o coração às flechadas? Nem os incautos; eles apenas se deixam iludir mais facilmente. Mas sempre nós estamos pedindo aos céus a nossa dose diária de loucura, de amor, para que o mundo, pelo menos o interior, torne-se governável no caos. Aqui estou eu, e achando a coisa mais normal do mundo. É por isso que sinto muita compaixão pelas pessoas que estão amando pela primeira vez. Há que se ter sorte, porque neste primeiro contato fica decidida a inclinação para se viver ou se morrer de amor.

É por isso que peço que você me ame na medida certa, meu amor, do tamanho que eu posso suportar e compatível com a minha loucura. Que você me traga um amor contaminado de amores do passado, dos quais às vezes até sente saudade, para logo em seguida dar graças pelo que sente por mim. Dar graças por o sentimento ser maior do que a saudade. Dê graças por você, porque é capaz de tal felicidade, e não por mim. Cuide de mim como se eu fosse a sua última chance de ser feliz. A última, aquela que te será concedida dia após dia, e não de uma vez por todas; pois se fosse assim, você também teria que me amar tudo de uma vez por todas. E um amor assim, definitivo, em estado puro, ninguém aguenta por muito tempo. Ele se acaba é na sua infinitude.

Eu não te amo com um amor-extrato, um amor-matriz. Você não aguentaria as egoístas mordaças que um amor assim poderia tentar colocar. Os homens que vieram antes de você trataram de me abrandar. Não souberam que faziam isso, mas fizeram. E não por você, mas por mim. E por isso, principalmente por isso, porque lhes sou grata, você vai ter que aprender a conviver com o que ficou deles em mim. Como também conviverei com o que você me traz das suas mulheres. Vou gostar de saber que você foi vulnerável ao amor delas. Preciso ter a humildade de reconhecer que, pelo menos em alguma coisa, todas elas foram melhores do que eu sou; e deixar que continuem sendo.
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Confissão #63

Capítulo 9 - Parte II


Os segredos que me deram para guardar


Fiquei sem graça, pois ele percebeu que eu, enquanto preparava o café, tentava conferir a imagem mal refletida no vidro da tampa do fogão. Eu queria estar bonita para ele, mas sei que tinha os olhos inchados e vermelhos pela noite maldormida, e meu cabelo ficava imprestável de manhã. Mas ele disse de um jeito que até acreditei; assim como o gesto de carinho não foi nada forçado, o elogio talvez não tenha sido também. Eu me sentia à vontade com ele, como se não fosse novidade ou inusitado ele estar ali. Como se tomássemos café juntos todas as manhãs, antes de sairmos para o trabalho, na mesa da cozinha mesmo – enfeitada de margaridas -, e de pijamas. Repetindo a familiaridade da noite anterior, conversávamos feito velhos conhecidos, sobre coisas corriqueiras, e eu tinha a impressão de que a qualquer momento ele poderia perguntar “você se lembra daquele dia?”, como se naquele dia, muito antes de conhecê-lo, já o conhecesse mesmo.Eu ainda não sabia o motivo de ele estar ali, mas não achava normal perguntar.

Eu tinha ido a um bar com alguns amigos para comemorar a minha última noite no apartamento com as meninas. O ambiente era pequeno e por isso fomos cedo para conseguirmos algumas mesas; muita gente tinha prometido dar uma passadinha quando saísse do trabalho. Eu não gostava muito de falar em público, mas era mais constrangedor o coro de “Discurso! Discurso!”, e resolvi pelo menos agradecer os presentes que ganhei para a casa nova e fazer um brinde. Foi quando o vi.

R. estava encostado ao balcão, sozinho, lindo, alto, sorrindo e olhando para mim. Retribuí o sorriso e o brinde que ele também ergueu, enquanto na minha mesa era uma bagunça só, todos querendo brindar com todos, derrubando vinho e cerveja na toalha. Fiquei com vontade de convidá-lo para se sentar conosco, mas não tive coragem, achei que ele destoaria. Éramos uma turma de jovens bagunceiros e ele era um homem. Devia ter entre trinta e trinta e cinco anos, charmoso, muito bem vestido em um terno cinza, camisa num tom de amarelo bem clarinho, gravata estampada. Flertamos a noite inteira.

Mais tarde, depois que algumas pessoas tinham ido embora e a mesa ficou quase vazia, ele foi perguntar se era meu aniversário. Eu contei sobre a mudança e ele disse que também tinha se mudado havia pouco tempo, e então ficamos conversando sobre a imensidão de providências a tomar antes, todas as coisas a colocar nos lugares depois. Quando reparamos na hora, já era quase madrugada, o bar estava fechando e ainda queríamos conversar mais, sobre qualquer coisa. O tempo, o trânsito, futebol, política, trabalho, cinema, viagens, livros. Tínhamos gostos muito parecidos em algumas coisas e totalmente opostos em outras, mas com uma característica em comum: vontade de discutir e entender os diferentes pontos de vista. E ele era muito bom nisto. Mesmo nas coisas corriqueiras, como argumentar comigo porque não deveria ter deixado a água do café ferver antes de coar o pó.

- Está bem, você me convenceu – tive que concordar. – E está convidado para tomar um café, sem água fervida, no meu novo apartamento.

- Aceito! Sabe que eu fiz questão de acompanhá-las ontem à noite, porque queria ficar sabendo onde te procurar, caso você tivesse me dado o telefone errado?

- E veio agora conferir se o endereço também era certo?

Arrependi-me depois de dizer isto. Acho que estava acostumada a me manter na defensiva.

– Desculpa, eu não quis ser indelicada... – apressei-me em dizer.

- Do que você tem medo? R. perguntou, segurando as minhas mãos entre as dele, sem apertar.

Aquele contato me fez bem. Ele me passava uma tranquilidade e uma confiança que até então eu não tinha experimentado com mais ninguém. As mãos, eu poderia puxá-las se quisesse, mas não queria. Na verdade queria um abraço, se ele pudesse ser tão doce quanto aquele afago dos dedos. Ele continuou:

- Eu só queria ter a oportunidade de conversar muitas outras vezes com você.

- Eu também quero – eu disse, com toda sinceridade. - Desculpa de novo, tá?

- Desculpe-me também, eu não deveria ter vindo assim, te acordar. Mas gostei muito de você.

Eu não sabia o que dizer. Nós apenas tínhamos conversado, mas eu nunca senti uma vontade tão grande de ter alguém por perto, como acontecia com ele. Fiz um carinho em seu rosto e disse que eu também tinha gostado. E gostado mais ainda que ele tivesse vindo. Olhando para os meus pés, ele disse:

- E eu voltei para ajudar você e estas lindas pantufas de joaninha a se mudarem.

Contou-me que depois de nos escoltar até em casa, porque “quatro mocinhas indefesas não podiam andar sozinhas pela madrugada de São Paulo”, foi para casa, mas não conseguiu dormir. Tinha realmente ficado com vontade de conversar mais e disse que se deixasse para o dia seguinte, um sábado, eu não aceitaria, pois estaria fazendo a mudança. E depois, no domingo, estaria cansada. Então resolveu me ajudar. Como eu disse que ainda não tinha providenciado transporte, foi atrás de um caminhão que já devia estar chegando. E que, se eu quisesse, pediria à empregada dele que fosse lá para o meu apartamento novo, colocar tudo no lugar. Eu não estava acreditando naquilo tudo, e bem que as meninas diziam que ultimamente eu exalava mel, atraindo todos os homens que passassem ao redor. E ele ainda me olhava com aquela cara de preocupado, perguntando se tinha feito mal. E quando eu respondi que não, que tinha adorado a surpresa, que se dependesse de mim e da minha preguiça eu provavelmente adiaria em mais um dia meu sonho de morar sozinha, ele sorriu e disse que seria melhor assim, pois ainda não tinha me contado a pior parte.

- Tenho uma casinha na praia, a duas horas de viagem. Se você confiar em mim, e juro que sou de confiança, deixamos as coisas no seu novo apartamento e vamos pra lá. A minha empregada cuida de tudo e, quando a gente voltar, amanhã à tarde, estará tudo arrumadinho. O que você acha?
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Confissão #62

Duas semanas de notinhas escolhidas via Publishnews:

14/03
Histórias do samba
O Globo - 14/3/2006 - por Joaquim Ferreira dos Santos
Joaquim Ferreira dos Santos informa que Nei Lopes está escrevendo, para a Record, as histórias de Vinte contos e uns trocados, um volume de drama, tragédia, farsa e comédia, ambientado todo no mundo do samba. Numa das histórias, Nei ficciona a morte do compositor Geraldo Pereira e trata ainda das lendas e assombrações envolvendo um vizinho seu, sambista de Irajá, que teria sido enterrado vivo.

Impressões do sertão
Jornal do Brasil - 14/3/2006 - por Sergio Martins
O novo romance de Ariano Suassuna ainda não está terminado nem tem nome. Mas já tem, digamos, uma cara. É que suas ilustrações estão prontas. Elas são o resultado de um trabalho desenvolvido desde a última década pelo escritor paraibano radicado em Pernambuco e estarão à disposição do público a partir de hoje, às 19h, na Galeria Manuel Bandeira da Academia Brasileira de Letras, no Centro, quando será inaugurada a exposição Do reino encantado: iluminogravuras de Ariano Suassuna e fotografias de Gustavo Moura. Também hoje o escritor abre o ano acadêmico da ABL às 17h30, com a aula-espetáculo Raízes populares da cultura brasileira. É um senhor ato do compadecido


15/03
O raro guia de livros raros
O Estado de S. Paulo - 15/3/2006 - por Ubiratan Brasil
São mais de 31 mil títulos que, em alguns casos, se multiplicam cada um em vários volumes, o que dificulta totalizar o número de livros - no mínimo, deve chegar a 80 mil. Cultivada há quase oito décadas, a biblioteca particular do casal de bibliófilos Guita e José Mindlin tornou-se uma das mais importantes do Brasil, além de referência internacional na área. Seu acervo de manuscritos, primeiras edições, publicações ilustradas e outras raridades representa um verdadeiro tesouro que muito poucos conhecem. Pensando nisso, Mindlin e a mulher elaboraram, com as fiéis secretárias que trabalham na biblioteca, os dois volumes que compõem a coleção Destaques da Biblioteca InDisciplinada de Guita e José Mindlin (544 pp., R$ 260), que será lançada hoje às 20h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional [SP]. Além de encantador, Mindlin é um homem desprovido de interesses pessoais, a ponto de ter acertado com os filhos a doação de 15 mil títulos para a USP. "Sempre gostei de inocular o vírus da leitura nas pessoas


17/03
Livraria Cultura recompra livro de cliente
PublishNews - 17/3/2006
Um novo serviço acaba de ser criado pela Livraria Cultura: o Programa Mais Leitores. Através dele, os livros adquiridos pelo cliente nos últimos 180 dias em qualquer das lojas ou pelo site da Cultura podem ser recomprados pela livraria por 25% de seu valor. Este valor será creditado imediatamente para o cliente, que pode utilizá-lo para comprar qualquer produto disponivel nas lojas. Os livros "usados" adquiridos pela Livraria serão colocados à venda apenas na Internet pela metade do preço inicial. Eles deverão estar em bom estado de conservação e terem sido adquiridos por participantes do programa de fidelização Mais Cultura. Por enquanto, o programa Mais Leitores só está em funcionamento nas lojas da cidade de São Paulo. Seu regulamento está disponivel nas lojas e também no site www.livrariacultura.com.br.


Odebrecht lança 3ª Edição do Prêmio Clarival do Prado Valladares
PublishNews - 17/3/2006
A terceira edição do Prêmio Clarival do Prado Valladares, criado pela Organização Odebrecht em 2003, está com as inscrições abertas para 2006. Podem se inscrever pesquisadores com projetos de pesquisa inéditos e relevantes nas áreas de história econômica, evolução sociopolítica e criação artística brasileira, com ênfase prioritária no estado da Bahia. O regulamento do concurso está disponível no site www.odebrecht.com.br, no qual poderão ser feitas as inscrições até o dia 31 de março de 2006. Os projetos não precisam ter nenhum formato pré-determinado, pois todo o planejamento será definido depois dos resultados, em conjunto com o autor e o Comitê Cultural da Odebrecht

Livros, digitais e identidade
Jornal do Brasil - 17/3/2006 - por Sergio Martins
Assim como outros diretores de grandes acervos de livros de outros países do mundo, Muniz Sodré, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, está dividido entre o maravilhamento e o receio diante da proposta do site de busca Google de criar um sistema de busca internacional unindo acervos de várias instituições, unindo, em tese, 15 milhões de volumes. Hoje, a ferramenta Google Book Search já permite acesso a milhões de volumes na rede, a partir de buscas simples. O projeto da empresa é ampliar esse acesso incessantemente. Ao Brasil, o Google acenou com um investimento de US$ 10 milhões (cerca de R$ 22 milhões) para a digitalização de dois milhões de volumes da FBN, sem nenhum centavo de custo para a instituição. “A proposta é tentadora, mas tememos que ela seja mal interpretada aqui no Brasil, que se pense que poderá haver um monopólio mundial de uma empresa privada sobre o conhecimento”, diz Sodré, também professor da Escola de Comunicação da UFRJ. Ele lida com o assunto com tanto cuidado que parece preferir não pensar nele sozinho. Tanto que vai discuti-lo com colegas da França e da Alemanha (que têm, segundo ele, a mesma preocupação) no Colóquio Internacional sobre Bibliotecas Digitais, que a FBN promove em 3 e 4 de abril, no Consulado da França, no Rio


20/03
A casa da língua
Folha de S. Paulo - 19/3/2006 - por Eduardo Simões
Com sua abertura nesta segunda, para convidados, e na terça-feira, para o público, na Estação da Luz, em São Paulo, o Museu da Língua dará ao português um abrigo "high-tech" e com fôlego. Projeto orçado em R$ 37 milhões, realizado pela Fundação Roberto Marinho e pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, com investimentos da iniciativa pública e privada, o Museu da Língua tem boa parte de seu acervo renovável. A exposição permanente (em sua forma) permite que o idioma (seu conteúdo vivo) seja "biografado" de seus primórdios até o dias de hoje. E deixa espaço para, no futuro, ser uma matriz "recarregável". É um museu vivo, com variados recursos audiovisuais e de informática. Não é um mausoléu, mas um museu na acepção moderna do termo", diz Isa Ferraz, diretora de conteúdo do museu. "A idéia é que, pela natureza "virtual", o acervo possa ser renovado e atualizado. É um processo complexo e caro, mas que, mais adiante, poderá e deverá acontecer." >>

Obras emulam linguagem da web
Folha de S. Paulo - 18/3/2006 - por Marcelo Pen
Um fenômeno de dupla face, relacionado à produção e recepção de textos pela internet, vem afetando as esferas da criação e da autoria no cenário das letras. Faz algum tempo nossos novos e nem tão novos autores resolveram investir nos blogs, onde colocam biografia, bibliografia, idéias e textos. Alguns, a exemplo do gaúcho Carpinejar, fazem a ponte entre a via eletrônica e a impressa, publicando livros com base nos textos dos blogs, como O Amor Esquece de Começar (Bertrand Brasil, 288 pp., R$ 35). Carpinejar chama suas pequenas criações em prosa de "crônicas". As frases se pautam por esse caráter de definição geral, às vezes resvalando para a platitude: "Dar um tempo é um tchau que não teve a convicção de um adeus", "solidão não é prejudicial à saúde". Os internautas parecem gostar desse tipo de abordagem, tanto que prestigiam não só os blogs quanto as colunas em sites de relacionamentos, como a da escritora Martha Medeiros. Mas, como no reino difuso da web nem tudo é o que parece ser, Martha é vítima de ladrões de textos, que os surrupiam e os veiculam sob alcunha alheia, como mostra Caiu na Rede (Agir, 128 pp., R$ 24,90), de Cora Rónai. Martha tem textos seus atribuídos a Mario Quintana, Arnaldo Jabor e Luis Fernando Verissimo. O último parece ser o campeão de textos difundidos com seu nome. A lógica está em imputar a um autor mais conhecido frutos de seara bem diversa.


21/03
Abeu lança a Verbo - Revista Brasileira do Livro Universitário
PublishNews - 21/3/2006
O primeiro número da publicação da Associação Brasileira de Editoras Universitárias trata do projeto VivaLeitura, destacando suas principais ações no ano passado e as mudanças ocorridas em 2006. Em outra reportagem, explica o Programa Interuniversitário para Distribuição de Livro (PIDL), que ajuda na distribuição de obras das associadas da Abeu no Brasil. A revista Verbo também é um espaço para discutir temas polêmicos ligado ao livro. A questão da reprodução de obras nas universidades é tratado em dois artigos. A revista também traz artigo de Carlos Gianotti, diretor da Editora Unisinos, sobre a política editorial das editoras universitárias. Além disso, as professoras Gleisy Fachin e Araci Hillesheim analisam a importância do artigo científico. A primeira edição da Verbo está sendo enviada para cerca de 1.400 pessoas por e-mail via pdf. A edição também está disponível no endereço www.abeu.org.br/imprensa.php.

Cronopinhos: ‘...para filhos conectados e pais amolecados...’
PublishNews - 21/3/2006
Talvez você não tenha percebido, mas se seu filho fosse o piloto desse teclado ele já teria notado que o Cronopinhos está no ar. E como todo filhote que se preza ele é completo e independente do Cronópios. As únicas áreas em comum são o Café Literário e o formulário para contatos. É espaço de criação tanto quanto o Cronópios. É um desafio para quem não escreve para o público infanto-juvenil. Por que não tentar? Para quem já está criando textos e traquitanas de olho nesse público (e são muitos, acreditem...) o espaço é esse. Há, de quebra, espaço para mini portfólios de ilustradores, oportunidade rara de mostrar sua arte para o mercado ou mesmo para outros autores. Seria um colosso se acontecessem dobradinhas espontâneas entre escritores e ilustradores, apresentando os resultados no ar. Iremos valorizar toda proposta criativa. O site não é para crianças, só. É muito mais espaço dos criadores para crianças. Acesse: www.cronopios.com.br/cronopinhos.


22/03
Quem escreveu esse texto?
PublishNews - 22/3/2006
Já dizia Lavoisier, "na natureza nada se cria". Mas, em tempos de banda larga, a novidade é encaminhar. Caiu na Rede (Agir, 128 pp., R$ 24,90) da jornalista Cora Rónai, é um divertido esclarecimento sobre 'autoria' e 'plágio' em tempos de tecnologia digital. Como manter para si, egoisticamente, o melhor texto sobre palavrões escrito por Millôr Fernandes? Ou o bizarro conselho sobre uso de filtro solar de Vonnegut, durante a colação de grau no MIT? Mas há um probleminha: estabelecer a autoria destes surtos de sabedoria popular soltos na rede. Afinal, não, Millôr não é o idealizador da tal missiva eletrônica. E, na verdade, Kofi Annan era o paraninfo, e em seu discurso não estava preocupado com as emissões solares. Nessa obra, Cora leva o leitor para um mundo de textos apócrifos - aqueles muito em moda desde os tempos da Bíblia (se bem que a conexão daquela época não era das melhores...) -, e nos mostra como qualquer coisa, escrita por qualquer um, com qualquer nome na etiqueta, pode ser lançada no ciberespaço e, em questão de horas, ser lida por multidões ao redor do mundo.


24/03
Cultura em revista
Gazeta Mercantil - 24/3/2006 - por Alexandre Staut
Periódicos culturais disponíveis no mercado nacional saem, em média, com tiragem entre 25 mil a 50 mil por mês. A "Diapason" chegou às bancas com 25 mil exemplares. A Duetto, responsável pela publicação, chega a distribuir 134 mil exemplares de revistas voltadas aos temas culturais mensalmente. Deste montante, a editora consegue vender de 60% a 70%. O periódico cultural de maior tiragem no País é a "Nossa História", com distribuição de 76 mil exemplares por mês. "Os números são animadores. Mostram que há interesse no Brasil pelo segmento", confere Adalmir Sampaio Gomes, diretor do periódico. Daysi Bregantini, da "Cult", assim como outros editores, diz que a receita de tais revistas provém de vendas em bancas e assinaturas. "Trata-se de um caso de paixão do editor. Quase que não há anúncios. Sobrevivemos com orçamento mínimo", observa. "Agências de propaganda têm apresentado uma visão antiquada em relação às revistas culturais. Publicitários simplesmente desprezam tais publicações, acreditam que quem consome cultura é nerd, que leitor intelectual não tem cartão de crédito", diz Alfredo Nastari, da Duetto. Até mesmo a "Bravo!", que se apresenta consolidada no mercado e é editada pela mais importante editora de revistas do Brasil, encontra dificuldades em arrumar anunciantes. A saída utilizada pela editora Escala Educacional para aumentar sua receita foi propor assinaturas a escolas do ensino médio e bibliotecas de todo o País. Carlos Alexandre de Carvalho Moreno, da Uerj, acredita que, mesmo com este boom de revistas culturais no Brasil, ainda estamos longe de possuir uma cobertura de produção intelectual satisfatória. Ele cita, por exemplo, "Magazine Littéraire" [França]. "Não temos nada que se assemelhe a esta revista por aqui", diz. Quando olhamos para a tiragem de algumas das publicações, podemos ver que houve sim um boom no mercado nacional de revistas de cultura, mas as vendas poderiam ser melhores. O guia cultural "Pariscope", por exemplo, vende em média 250 mil exemplares por semana, de acordo com dados publicados em seu site na internet. Um número que, por ora, parece ainda muito distante da realidade nacional, mas, se depender do ânimo dos editores, não é impossível.
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Confissão #61

Capítulo 9 - Parte I


Os segredos que me deram para guardar


Adormeci sabendo que provavelmente ainda estaria chovendo quando acordasse, dentro de poucas horas. Mas já tinha encaixotado todas as minhas coisas encaixotadas e faria a mudança de qualquer jeito. Os móveis que eu tinha comprado para o apartamento novo também estavam ali, empilhados num canto da sala. Eu precisava levantar e ir atrás de algum caminhão; vários deles sempre faziam ponto em uma praça a uns dez quarteirões de onde eu morava. A uma distância bem maior estava a minha coragem, o olho mal abria com o sono atrasado, e além do tempo chuvoso ainda estava fazendo frio. Deu vontade de ficar mais um tempo na cama, ou mais um dia com as meninas, e eu já ajeitava o cobertor e me preparava para virar para o lado quando o interfone tocou.
- Dona Ana, o senhor R. está aqui para falar com a senhora. Posso deixar subir? – era o porteiro novo, e deu vontade de esbravejar quando imaginei que ele tinha se enganado de Ana.
- Raimundo, não é para a Ana do oitavo andar não?
- Não senhora. Ele falou que era uma moça morena e novinha. A dona do oitocentos e dois a senhora conhece, né?
Realmente éramos bem diferentes, tanto na idade quanto na aparência. Mas eu não me lembrava de nenhum R., pelo menos não àquela hora da manhã. Sempre precisava de um tempo para acordar direito.
- Deixa eu falar com ele, por favor, Raimundo.
Morri de vergonha quando ele se identificou como o rapaz do bar.
- Costuma esquecer as pessoas tão rápido assim?
- Não – tentei consertar -, é que eu estava dormindo.
Acho que a resposta não foi das mais simpáticas, mas era a mais honesta.
– Quer subir?
- Posso?
- Se não se importar em ser recebido de pijama...
- Olha que eu ainda não dormi. É um belo convite.
- Não foi bem isso que eu quis dizer.
Gostei do senso de humor dele. Aliás, foi uma das coisas que mais me chamou a atenção. Não que eu acorde mal humorada, mas não é fácil me arrancar um sorriso de manhã. Ainda mais numa manhã chuvosa e fria de um dia de mudança.
- Sobe, vai. Senão daqui a pouco vou ficar mal falada no prédio, justo no meu último dia aqui...
Deu tempo de correr até o banheiro para tentar ajeitar um pouco o cabelo e fazer um bochecho com água e pasta de dente. Eu devia estar com uma aparência horrível, mas pelo menos vestia um pijama novo. Era uma das coisas que eu tinha comprado para estrear na casa nova, e que as meninas já chamavam de enxoval. Diziam que nem noiva levava tanta coisa. E talvez pudesse ser chamado de enxoval mesmo, um casamento às avessas, comigo mesma.
Ele já deveria ter chegado. Interfonei para a portaria.
- Raimundo, o moço já subiu? – perguntei.
- Já sim, dona Ana, naquele minutinho.
Por que será que ainda não tinha chegado? Eu toda nervosa e vai ver era engano. Mas seria muita coincidência, R., o mesmo nome do rapaz do bar.
- Dá uma olhada aí em que andar o elevador parou, Raimundo. Não está no oitavo andar não?
O porteiro confirmou que ele tinha subido para o meu andar mesmo, e eu comecei a ficar desconfiada. E se não fosse ele? E se fosse algum ladrão que, por acaso, tinha me visto conversando com ele e gravado nossos nomes? Eu ainda não era capaz de reconhecê-lo pela a voz, principalmente pelo interfone. Mas, mesmo se fosse ele, era muita irresponsabilidade minha ter deixado subir. Eu mal o conhecia, ou melhor, eu não o conhecia. Tínhamos passado a noite conversando, mas tudo o que ele me disse podia bem ser mentira. Eu não tinha certeza de quem era, o que fazia, onde trabalhava, onde morava. Era um homem lindo, inteligente, bem humorado, bem vestido, educado. Mas quem disse que um ladrão, ou coisa pior, um estuprador, não poderia ser assim? Eu podia ter me enganado com ele. Não me enganei com C., que julgava conhecer tão bem?
C.! - era ele! Gelei com o pensamento e a certeza. Ele me seguiu, me viu conversando com R., e ficou com ciúmes. A esta hora o sono já tinha ido embora, os neurônios já estavam todos a postos e o resto do corpo paralisado. Por que não perguntei ao porteiro como ele era? Agora já não dava mais, ele provavelmente só estava esperando que eu abrisse a porta para atirar em mim. Eu já não conseguia pensar em mais nada, a não ser na hora em que ele se cansasse de esperar do lado de fora e arrombasse a porta. Resolvi acordar as meninas para decidir o que faríamos, e foi um tempo enorme até que eu conseguisse explicar tudo.
- Você tem certeza?
- Tenho, Fê, só pode ser ele. O que a gente faz?
Já estávamos as quatro trancadas em um dos quartos, elas não acreditando, tentando me acalmar, dizendo que se fosse ele e tivesse vindo mesmo para me matar, já teria entrado. Ou melhor, teria me pego na rua, sem deixar que ninguém o visse. Mas eu achava que alguém que também planeja se matar, como ele disse que faria, não se importaria em ser visto ou não. Até pelo contrário, um último ato de coragem.
- Mas você tem certeza mesmo? A gente tem que ligar para a polícia então.
- Tenho, Fê, pode ligar. É ele.
- Você viu pelo olho-mágico? – perguntou ela, ainda não acreditando.
- Não, mas eu sinto que é ele.
Fernanda resolveu olhar antes que ligássemos para a polícia. E quando voltou para o quarto, não sei se estava mais brava ou mais aliviada.
- Eu não conheço o C., mas ele deve ser a cara daquele moço de ontem, do bar.
E o moço do bar estava lá do outro lado da porta, aquele tempo todo. Quando abrimos, as quatro, porque estavam todas curiosas para conhecer o “perigoso assassino”, ele estava armado com um lindo buquê de margaridas, que me entregou:
- Bem, trouxe flores só para uma, mas se você não se importar em dividir...
Ele não entendeu porque não conseguíamos parar de rir. As meninas voltaram para a cama e eu preparei um café para nós dois.
- Um dia te conto a história toda. Mas por que não tocou a campainha?
- Achei que você precisava de um tempo para se arrumar.
Parou de falar e ficou me olhando, brincou de enrolar um dos cachos do meu cabelo ao redor do próprio dedo e continuou:
– E está muito mais bonita do que eu me lembrava.
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Confissão #60

Capítulo 8 - Parte VI


Sobre as águas

Não sei se me arrependo de verdade. Talvez em relação a alguns sim, mas sempre avisei para não me levarem a sério. Eu tinha decidido que, dentro de quatro meses, para coincidir com o fim do semestre na faculdade, estaria de mudança para um apartamento só meu. Eu adorava as meninas, mas começava a me incomodar eu não conseguir participar do dia-a-dia de uma verdadeira república de estudantes, e antes que isto começasse a incomodá-las também, antes que eu virasse a chata, seria melhor ter um canto só meu. Eu era mal acostumada, sempre tive um quarto só para mim, e este espaço era bastante respeitado. Mesmo não tendo chave, se a porta estivesse fechada meus pais e irmãos entendiam que eu não queria ser incomodada. Um tipo de liberdade que não era possível ali, onde dividia o quarto com uma das amigas. O espaço era tão meu quanto dela, isso eu sabia bem.

Resolvi então que nestes quatro meses eu tentaria levar uma vida própria de alguém com dezoito anos. O estágio que eu fazia não era remunerado, mas mesmo assim resolvi abandonar as aulas de inglês e português que dava à noite e ter este tempo livre para aproveitar. Além do mais eu tinha algumas economias e meus pais faziam questão de pagar a faculdade e o aluguel. Os planos, os sonhos e a carreira profissional poderiam esperar um pouquinho, enquanto que a vida nem sempre fazia o mesmo. Eu sabia que parte daquela minha dedicação era para não ter muito tempo de pensar em namoros. Eu tinha receios quanto à minha capacidade de julgamento, já que, no início, C. parecia o homem perfeito, uma pessoa normal e, no entanto, queria comprar meu amor pelo preço de uma bala.

Você é capaz de imaginar o estrago que isto faz na cabeça de uma pessoa de dezessete anos? E ainda mais de uma que se julgava esperta, madura, segura? Lembro-me de uma vez em que estava aprendendo a saltar do trampolim e caí de barriga na piscina. Assim que parei de chorar, meu pai disse que a dor também pararia imediatamente se eu subisse até uma plataforma mais alta do que aquela na qual tinha me machucado, e saltasse novamente. Foi o que fiz. A dor não passou, mas também não me machuquei outra vez e perdi o medo de plataformas altas. Naqueles quatro meses, posso não ter aprendido a me relacionar, mas aprendi muito sobre homens e sobre como esconder o medo. Até perdê-lo por completo.

Eu não queria um namorado, não queria nada sério. Sabe, os homens ficam perdidos quando se vêem roubados do seu papel de predadores. Eu nada tinha a perder e nem esperava ganhar; então, quando saía com as meninas, escolhia o mais bonito, o mais paquerado, o mais charmoso ou com fama de mais difícil. E acabava provando que eram muito mais fáceis do que imaginavam. Ninguém entendeu esta minha mudança; e eu até tinha vontade de conhecer alguém legal, mas não tinha paciência de esperar que me provassem ser assim. Sei que esta é uma atitude desesperada de quem não sabe o que quer, ou de quem tem medo do que vai descobrir. Mas era a única possível. Não me pergunte pois não me lembro dos nomes, do que faziam, do que pensavam. Talvez eu ainda me lembre do gosto de um beijo ou outro, mas é só, porque para a cama eu também não fui com nenhum deles. O que estava em jogo era mesmo a sedução, a conquista.

Acha que fui desleal? Mas todos sabiam, eu já avisava que provavelmente não passaríamos daquele primeiro e único encontro. A maioria não acreditava, achava que era charme, que eu estava me fazendo de difícil. Pediam telefone, procuravam saber os lugares que eu frequentava, ficavam amigos das minhas amigas. Eu não imaginava, mas foi bom também para eu aprender a dizer não.

Sabe o que penso agora? E me desculpa, se isto aconteceu? Pode ser... Pode ser sim que você estivesse no meio deles. Será que saberíamos? Será que não tivemos tempo para perceber? Vai ser muito difícil eu me perdoar se isto tiver acontecido. Talvez já fosse isto o que eu procurava também: uma pista sobre você. Um traço seu que me acalmasse, que me fizesse voltar a confiar, que me trouxesse a certeza de poder interromper a busca.
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Confissão #59

Capítulo 8 - Parte V

Sobre as águas


- Pela graça de Deus, chegamos!

Mal entramos em casa, dona Isabel foi correndo cumprir a promessa: uma vela para Iemanjá e outra para Nossa Senhora da Conceição. Bem podia ser uma só, mas ela prometeu duas, para garantir. Iemanjá é a rainha dos mares e dos oceanos, segundo o Candomblé, associada na religião católica a Nossa Senhora da Conceição.

Tínhamos ido a Salvador fazer as compras do mês, aproveitando para trazer de lá também os ingredientes para as comidas da festa de São João. Mal o ferry-boat deixou o atracadouro, começou a cair uma chuva forte, o suficiente para atrapalhar os nossos planos de tirar os sapatos e esticar as pernas cansadas, fazendo a travessia dentro do carro mesmo. Quando chove, o mar fica mexido e a balsa joga muito, de um lado para o outro, ao sabor das marolas.

- Acho melhor subir e sentar lá em cima. A senhora não está acostumada, pode enjoar. Aqui embaixo balança mais – sugeriu a dona Isabel.

Mas logo percebemos que era mesmo necessário; o serviço de som solicitava que ninguém permanecesse dentro dos carros e que todos prestassem atenção ao filme de procedimentos em caso de emergência.

Eu já estava começando a ficar com medo, mas dona Isabel dizia que não haveria de ser nada, que era só por precaução. Já tinha feito a travessia com chuvas bem piores, e de saveiro, que era muito mais perigoso. Mas ao chegarmos ao salão, àquela altura já bastante cheio, corremos os olhos à procura de duas cadeiras vazias para nos sentarmos; e ela precisou segurar com força no meu braço para não cair.

- Valha-me, Deus!!!

- O que foi, dona Isabel? – assustei-me. - A senhora está passando mal?

Ela estava lívida, apertando meu braço com mais força ainda.

– A senhora quer falar com o padre? - perguntei, ao perceber que ela olhava na direção de onde estavam sentados um padre e duas freiras.

- Um padre e duas freiras! Virgem Santíssima! Odoyá, minha mãe Iemenjá!!

- O que foi? A senhora quer falar com eles? - insisti.

Ela parecia rezar, e, sempre agarrada ao meu braço, beijava a medalhinha de Nossa Senhora que trazia ao pescoço. Fez o sinal da cruz e então me contou sobre uma antiga surperstição.

- Não, minha filha, é mau agrouro. Se eu soubesse, não tinha entrado aqui de jeito nenhum.

A dona Isabel não parava de falar, atropelava as palavras e eu quase não conseguia entender mais nada mesmo.

– Nem sei como isto aqui está tão cheio. O povo desce quando vê que vai viajar junto com padre ou freira. Vai ver eles estavam dentro do carro também, escondidinhos, e só subiram agora, depois que não tinha mais jeito de ninguém descer.

- Dona Isabel, eu não estou entendo nada.

Ela tinha voltado a rezar. O mesmo faziam os três religiosos, as cabeças baixas, as mãos correndo os rosários, os olhos ignorando centenas de rostos apavorados voltados na direção deles.

A chuva parecia piorar e eu quase já não aguentava mais me equilibrar em pé, o chão ora pendendo para a direita, ora para a esquerda. Já estava quase entrando em pânico também, muitas crianças chorando, as pessoas de pé se apoiando como desse, desviando-se dos pacotes que, no chão, iam de um lado para outro, derrubando quem encontrassem pelo caminho. Por sorte, ainda não tinha ninguém passando mal e vomitando. Vai ver o medo era maior... Cadeiras vazias apenas perto dos religiosos, que as pessoas pareciam evitar. Consegui arrastar a dona Isabel para lá; ela se sentou contrariada e só depois de algum tempo conseguiu voltar a falar, baixinho, no meu ouvido:

- Dá azar, minha filha, muito azar. Atravessar o mar desse jeito, com padre e freira, é quase certeza de afundar. A gente só se salva se tiver muito santo de plantão – e logo retirou um terço da bolsa e começou a rezar.

Acho que esta história me acalmou um pouco, nem sei se era de nervoso a enorme vontade de rir. Fiquei tentando imaginar a origem daquela profecia. Será que era porque iam rezando assim a viagem inteira, constrangidos com os olhares acusadores? Vai ver todo mundo pensava que rezavam porque, como estavam mais próximos de Deus, deviam saber de algo que nós, os simples mortais, ignorávamos. Só podia ser. Mas o mar também parecia acreditar nisso e, quanto mais avançávamos, lentos e pesados, mais ele se enfurecia e ficava indeciso entre ir para um lado ou para outro. Quando a balsa estava no máximo de inclinação, ao invés de vermos o horizonte através das janelas, víamos apenas a agitação frenética da espuma em que a água tinha se transformado.

A bravura do mar parecia ser inversamente proporcional à calma das pessoas, pois já se formavam rodinhas de onde se podia ouvir alguns risos. Contavam piadas e histórias de naufrágios acontecidos por ali, uma região bastante propícia a tragédias, pela enorme quantidade de arrecifes e corais. Quase sempre acontecia do mesmo modo: o mar atirava os barcos para cima e saía de baixo. Eles então voltavam com toda a força e cravavam os cascos nas pedras; os tripulantes não tinham nem tempo de dizer amém, antes de serem engolidos por uma enorme onda. Já inventavam várias versões para as histórias, e sempre havia pelo menos um padre ou uma freira entre mortos e desaparecidos. Até que alguém comentou:

- Gente, vocês se lembram do naufrágio do Dois de Julho?

Quase todos se lembravam. Era um ferry-boat pequeno, que tinha afundado bem na metade do caminho, e poucos se salvaram. Foi num dia de chuva como este, há uns vinte anos.

- Exatamente vinte anos! – continuou o homem que tinha se lembrado do naufrágio do Dois de Julho.

Fez uma pausa para aumentar o suspense e seguiu com a revelação, acentuando cada palavra:

– Foi no dia onze de junho de mil novecentos e oitenta e dois!

Instalou-se novamente o pânico, muitos voltaram a rezar, enquanto outros contavam mais histórias. Todos ali conheciam alguém ou tinham parentes mortos no Dois de Julho, e também todos se lembravam de que os sobreviventes contaram que havia um padre e duas freiras a bordo. E assim seguia a viagem, cada qual se lembrando de um detalhe que parecia anunciar que a tragédia se repetiria. Falavam também dos invernos antigos, quando se formavam ondas tão grandes, que passavam por cima dos carros, lá embaixo. Só então me lembrei do meu carro, mas eu nada podia fazer, já estava até esperando encontrá-lo todo amassado, do choque com os outros.

Pelo menos as histórias me distraíram um pouco. Diziam que aquele inverno, o de oitenta e dois, foi um dos piores que já tinham acontecido por aqui. Depois do naufrágio do Dois de Julho, e também porque a chuva não dava tréguas, nenhum outro barco ousou ir até a ilha. Quando começou a faltar comida, espalhou-se a notícia de que era mesmo o fim do mundo, que Deus ia acabar com todo mundo pela água e pela fome. E que a ilha não tardaria a afundar; fato confirmado pela maré que não se contentava mais em ir até os muros. A água já tinha entrado dentro das casas à beira-mar.

Pelo menos, se saíssemos vivos daquela travessia, eu tinha o porta-malas cheio de comida, as compras do mês e mais o extra para a festa. Comecei a achar que aquilo era até pecado; pensar no tanto de comida que tinha, só para mim, enquanto o restante da população poderia passar fome. Será que a gente fica egoísta na hora da morte? Comecei a me lembrar também dos outros pecados pelos quais tinha que me arrepender, e tive muito tempo para isso. A viagem depois foi se acalmando, mas o percurso que normalmente é feito em quarenta, quarenta e cinco minutos, daquela vez precisou de quase duas horas e meia.
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Confissão #58

Estamos muitos felizes hoje, pois ele foi ver seus mais de 3.000 livros que estavam guardados em um depósito, desde antes de o furacão passar, e estão todos intactos, em perfeito estado. Quem gosta de livros e, principalmente, vive de e por eles, sabe o que isso significa. Como brinde, fica o texto do Nelson Ascher na Folha de São Paulo (Ilustrada) de hoje, que também me foi dica dele, que copio aqui para quem não tem acesso:

Crítica (não só) literária
Nelson Ascher
Já caminharam sobre a Terra, gravando caracteres em algum tipo de material, pelo menos 150 gerações de escritores. Dizem que tudo começou 5.000 ou 6.000 anos atrás no sul do Iraque atual, a antiga terra dos sumérios. Foi lá que se teria inventado pela primeira vez um modo de, às emissões sonoras chamadas de linguagem verbal, fazer corresponder sinais visíveis, transmissíveis sem o auxílio de memórias individuais e, conseqüentemente, duráveis.
Os mortos se tornaram, desde então, capazes de falar com os vivos. "Escucho com mis ojos a los muertos", constatou o poeta espanhol Quevedo. E, com o passar do tempo, multiplica-se o total de mortos falantes (Quevedo entre eles) que competem com os vivos que, por seu turno, competem entre si pela atenção de um número limitado de olhos ouvintes.
Por isso existe a crítica literária: porque nem mesmo a vida de um leitor voraz, dedicado e longevo bastaria para dar conta sequer dos romances publicados ano passado no mundo. Talvez uma existência inteira não seja mesmo suficiente para ler quanto há para ser lido em, digamos, "A Montanha Mágica". E, no entanto, o desejo de ler tudo é, para os verdadeiros leitores, tão natural como o da imortalidade para quem, após compreender os tempos verbais, não ignore mais a ameaça presente no futuro da primeira pessoa do singular.
A crítica literária existe, sobretudo, para triar obras recentes, apontando quais merecem atenção, e para retriar, a cada geração, aquelas previamente avaliadas, de modo a questionar juízos passados. Chamar a atenção para certa obra, uma atividade generosa, envolve a crueldade necessária de pôr outras de lado. A vida é curta, a paciência dos leitores, mais ainda -e "triagem" é um galicismo de origem sinistra. Durante a Primeira Guerra, a escala industrial da sangueira (decorrente da fartura combinada de soldados e metralhadoras) sobrecarregou os serviços médicos nas frentes de batalha. O Exército francês se viu então forçado a "triar", ou seja, repartir seus feridos em três categorias: os que podiam ser medicados no local, os que valia a pena levar aos hospitais na retaguarda e os que estariam tirando o lugar de gente com chances melhores. Estes eram entregues aos sedativos e sacerdotes.
Se a atividade crítica parece impiedosa, talvez seja o caso de lembrar que, diferentemente dos seres humanos, obras literárias não têm direito automático nem sequer à vida (ao de serem lidas). Nenhum livro é obrigatório, exceto para estudantes, professores e críticos profissionais que, geralmente, são os que não os lêem. O público não tem deveres para com escritores vivos, mortos ou mortos-vivos e, quando lê, está lhes fazendo um favor, uma gentileza. É aos autores que cabe estar à altura de tal deferência, pois toda obra é culpada até prova em contrário. O crítico, assim, também pode ser considerado seu advogado. Mesmo que esteja disposto a mentir ou trapacear, o processo é tão aberto que alguma verdade acaba se estabelecendo. Daí a dificuldade, em qualquer arte, de alterar os cânones vigentes e colocar, por exemplo, Salieri no lugar de Mozart.
Um advogado é tanto melhor quanto mais a fundo conhecer seu caso, e, como a literatura diz respeito a tudo, não resta ao crítico outra opção que a de buscar se familiarizar com tudo, algo impossível. Bom, existe outra opção, que esteve em moda por anos e anos. Trata-se, no sentido tacanho do termo, da abordagem estritamente "literária" para a qual um poema, um conto, um romance se reduzem a um amontoado organizado de palavras. Discorrer sobre "Guerra e Paz" ou "A Cartuxa de Parma" ignorando os detalhes das guerras napoleônicas e os tipos de armamentos à disposição dos contendores, examinar "Os Lusíadas" sem pensar na expansão do império português ou na arte da navegação ou analisar "Ulisses" sem refletir sobre as relações entre Irlanda e Inglaterra equivalem a perder de vista muito da razão de ser desses livros -se bem que julgá-los somente através de um desses prismas tampouco seja inteligente.
Em outras palavras, quem escrevesse algo intitulado "Auschwitz: Uma Abordagem Contábil" e concluísse que o comandante Rudolf Höss era inocente, pois administrou direito seu campo, ou (o que dá na mesma) culpado, porque revendeu, sem registrar a transação, várias latas de Zyklon B a seu colega Franz Stangl, de Treblinka, quem chegasse a tais conclusões sem se perguntar para que serviam as latas seria antes parte do problema do que da solução. Mas quem quer que ostente indignação moral sem dominar os dados e fatos relevantes nada acrescenta à discussão, pois, caso queira que seus sentimentos prevaleçam, convém-lhe saber tudo o que o contador acima sabe e mais.
O interesse pela literatura ou é onívoro ou não é. O leitor autêntico deseja saber de tudo, truísmo que se aplica dupla ou triplamente aos críticos de verdade. Autores de best-sellers, atentos à curiosidade da audiência, estão cientes disso e, coerentemente, recheiam seus calhamaços com informações variadas sobre como se desmonta uma bomba, o que é que socialites comem, bebem ou cheiram, como se pilota um Spitfire, quais as posições sexuais favoritas de um samurai do século 16.
Quando Mallarmé observou que o mundo existe para acabar num livro, ele não estava aviltando o primeiro, mas, sim, afirmando quão abrangente e ambicioso era seu programa para o segundo. Seu discípulo, Paul Valéry, disse que um homem que nunca quis ser um deus é menos do que um homem. Um crítico que seja apenas literário é, portanto, menos do que um crítico literário. E não há meio termo.
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Confissão #57

Capítulo 8 - Parte IV


Sobre as águas


Chovia. Foi assim que o mundo me tocou: abafado e aquoso. O táxi, um velho Opala branco, deixou a Santa Casa chacoalhando sobre o chão de paralelepípedos. Apertada contra o peito de minha mãe e protegida da luz excessiva pela velada transparência dos vidros embaçados, eu finalmente voltava para casa.
Íamos devagar e em silêncio, o que aumentava ainda mais o ruído da luta quase invencível do limpador de pára-brisa contra aquele mundaréu de água. Um ou outro clarão rasgava o céu de alto a baixo, indo cair onde nossos olhos não alcançavam. Eu pedia para aquela chuva não parar nunca, para o caminho ser longo, para a vida ser sempre assim, confortável, quentinha e liquefeita. Desnecessária de palavras.

Por onde passávamos, via as casas debruçadas sobre as ruas estreitas. Fechadas e molhadamente coloridas, as janelas de se conversar da calçada. Portas que, quando parasse de chover, se abririam para a hospitalidade barrada por um único degrau. Corredores laterais delimitados por paredes cobertas de musgo, e garagens que abrigavam pássaros presos e tristes, ou cães respingando água e pulgas. Penduradas, samambaias choronas e avencas. Em vasos, protegendo as entradas, espada-de-São-Jorge e comigo-ninguém-pode. As ruas estavam quase vazias, uma ou outra pessoa sob inúteis guarda-chuvas desviavam das poças de água nas calçadas esburacadas, saltando os sulcos abertos nos cruzamentos das ruas de terra. Terra vermelha, dissolvida e pegajosa.

De dentro dos botecos, sem pressa, os homens esperavam a chuva parar. Mas nem se importariam se chovesse o dia inteiro, pois a vida passava devagar por ali. Entre um gole e outro de pinga e nacos de torresmo, destrinchavam conversas e fumo de rolo. Às vezes, algum deles, impacientemente bêbado, protegia e cabeça com o chapéu de palha e desafiava “quem é que tem medo daquela chuvinha besta?”. Ia lavar a bebedeira.

Nas casas, entre gritos de “passa para dentro, moleque!”, as mulheres acendiam velas e rezavam para Santa Clara. Afastavam móveis e trocavam as latas de óleo de nove litros transformadas em vasilhames aparadores de goteiras. Um sinal da cruz a cada trovão. No fogão, as panelas areadas esperavam o preparo do almoço.

Ao longe, o apito avisava da chegada de um trem, o som mais ou menos nítido por causa do serpentear entre as montanhas.

- Chegamos!
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Confissão #56

Capítulo 8 - Parte III


Sobre as águas


És vários. Tem um aqui ao meu lado e já contei pelo menos dez passeando pela praia. É por isso que eu ando vazia, para que todos os seus “você” caibam em mim. Acho que a palavra certa não é bem “vazia”, talvez “espaçosa” seja melhor. Sabe quando vamos receber visitas e então arrumamos os armários, apertando as próprias roupas em um canto e esvaziando algumas gavetas? E nesta arrumação muitas vezes até aproveitamos para jogar fora algumas coisas que não usamos mais? E também podemos encontrar outras que tínhamos dado como perdidas? É assim que me sinto: arrumando a casa da alma para te receber. Deixando-a mais espaçosa.

Ainda estranho esta vontade de dividir meus espaços com você. Antes de saber que você vinha, eu diria que não, que preciso de cada canto da casa e de todas as gavetas dos armários; que durmo metade da noite no lado direito e a outra metade no lado esquerdo da cama. E agora anseio que você venha, que roube meu travesseiro, que, nas noites bem frias, enrole-se sozinho no meu cobertor inteiro; e quando eu reclamar, ao invés de devolver a parte que me cabe, que você me puxe de encontro ao peito e me abrace tão forte que eu me agasalhe no seu corpo. Talvez eu nem fique brava se você trocar as capas dos meus Cds, mas vou querer cem beijos por cada orelha que fizer nas páginas dos meus livros. E de pirraça e propósito é assim que você separa todos os trechos interessantes, com a desculpa de ler para mim mais tarde. E nunca lê até o fim porque está sempre pagando dívidas que não quer acumular para o dia seguinte. E nisto concordamos, não sabemos se o amor vai nascer de novo com o sol de amanhã. Por aqui o tempo anda instável; ainda há pouco tinha sol, agora chove, e espero daqui da varanda o arco-íris que vai preceder o sol, que não tarda a aparecer novamente.

A não ser pela história das serenatas, nunca te falei da minha família. E não é por não me dar bem com ela, muito pelo contrário. A gente nunca fala muito do que vai bem, não é mesmo? Será que é um tipo de superstição? Mas hoje estou com saudade, tanta quanto tenho de você. E por causa dela, da saudade, assim como o tempo, eu tenho vontade de chover também. Não é apenas chorar, é chover. Mesmo chorando por tudo o que der vontade, quase sempre fica um motivo oculto, incomodando, formando novas nuvens escuras. Quando chovemos, não, aí limpamos tudo de uma vez, e então vem o sol.

Já te disse que sou chorona? Em algumas épocas muito mais, sou capaz de chorar assistindo novela, ouvindo música, olhando o mar, devorando um prato de brigadeiro. Sou capaz de chorar até pelo que me faria sorrir em outras ocasiões. Não se assuste com isso, está bem? Meu choro é mais sentido quando estou feliz; sou capaz de chorar horas e horas até conseguir assimilar este avesso de tristeza.

A felicidade não foi dos sentimentos mais constantes na minha vida ultimamente, e preciso me acostumar a viver com ela novamente. Quando a percebo, não sei o que me dá, não consigo explicar o que sinto. Mas tente imaginar como você reagiria nesta situação: você dá um abraço em alguém porque está com vontade, porque te faz bem, e nem espera que esta pessoa te dê outro em troca. E então uma cortina qualquer se abre e esta pessoa está lá do outro lado, te esperando. Antes mesmo de saber que ganharia seu abraço, tinha preparado um jantar com seu prato preferido, escolhido o melhor vinho da adega e contratado uma orquestra de violinos. Depois do jantar ela te convida para dançar e, quando você se cansa, deita sua cabeça no colo e te cobre de beijos e cafuné. E ainda te belisca para você saber que não está sonhando. Entende?! É assim que hoje eu vejo as pequenas coisas que me fazem feliz; e por isso me dou o direito de chorar.

Mas agora eu choro é de solidão. Ela parece cada vez maior quanto mais perto fico do dia em que você vai chegar. Talvez seja aquilo de apurar o sentido dos contrastes. De me esvaziar, limpar o caminho ao redor, não deixar que nada nem ninguém se aproxime, exceto você. Para que então eu te sinta como um sol das doze horas de um dia de verão, da mesma maneira que o sente alguém que esteve meses e meses sem ver a luz.
Ainda não te falei do sentido dos contrastes. É que há algum tempo já estive mais triste do que pude suportar. E nestes casos, para nos proteger, é como se aquele anjo que nos amortece a queda acudisse com uma película de insensibilidade. E depois ficasse apenas olhando lá do alto, atento, dizendo que precisamos aprender a nos virar sozinhos. É uma briga estranha, injusta, porque a vontade é de permanecer lá dentro da tristeza, envolvida, sem ouvir, sem falar, sem tocar, sem comer, sem ver, sem correr riscos. Até abrir a janela é um risco enorme. Estar viva era um susto mais aterrorizante a cada respiração. E eu precisava me dar sustos maiores ainda, para ir me acostumando. É isso que chamo de sentido dos contrastes. Coisas banais, como fechar toda a casa e ligar o som no volume máximo, esperar alguns segundos e desligar. Era só assim que eu percebia o silêncio, que deixava de ouvir todas aquelas vozes berrando sem parar inacreditáveis impropérios dentro de mim. Ou então abrir a água quente do chuveiro até o limite do suportável e fechar de repente, passando para a água gelada.

Mas não quero mais falar disto agora, já passou. É que um pouco depois desta época eu pretendia escrever um livro. Achava-me tão vitoriosa por ter saído dela que queria indicar o caminho das pedras. Desisti no meio, passou o estado de euforia e percebi que não fiz nada mais do que poderia esperar de mim. Há quase sempre um estado de euforia após a depressão, e eu nunca experimentei, mas dizem que é como estar sob o efeito de cocaína, por exemplo. Sentindo-se o máximo, aquele que tudo pode, que tudo faz, e foi por isso que eu imaginei que a minha vida dava um livro. Não dá. Nenhuma vida dá um livro, a não ser as que são interrompidas ou estão próximas da morte. Caso contrário, onde se colocaria o ponto final?

Lembrei-me disto agora porque chove. A chuva sempre esteve presente nos acontecimentos mais importantes da minha vida. Aqui eu já começo a distinguir os dias em que vai chover, pelo vento, pela maré, pelos pássaros que surgem voando expulsos de algum lugar. Há inclusive uma espécie, não consigo me lembrar do nome, que anda sempre aos pares e anuncia tempestades. São pássaros enormes que, quando abrem as asas, devem alcançar mais de dois metros de uma ponta à outra. São robustos, e se vêm para terra firme é porque a chuva já castiga forte algum ponto do mar. Sabe por que me interesso por isso? Porque sei que vai chover no dia em que você chegar. Antes, durante, depois, não importa. Mas vai chover. E a seguir vai ter arco-íris, e vai ter sol de novo.

Aquele livro que comecei a escrever, tenho-o aqui comigo. De vez em quando, leio para matar as saudades. Eu, que queria falar da vida toda, mal cheguei ao meio da infância. E queria ler um trecho dela para você; posso? Deita a cabeça aqui no meu peito e faz de conta que conto histórias para te fazer dormir. Até a chuva passar.
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Confissão #55

Capítulo 8 - Parte II


Sobre as águas


- Mas já pensou se eu topasse?

Eu tinha acabado de, pela terceira ou quarta vez, convidar o Zé para a festa de São João. Já tínhamos começado a ensaiar a quadrilha, mas, se ele quisesse, poderia ser o noivo.

- Queria só ver a cara de todo mundo...

- Então, não seria uma ótima oportunidade para você debutar?! Nada de valsa, um debut – caprichei na pronúncia – com muito forró e com direito ao papel principal, o de noivo.

- E quem está ocupando tão nobre lugar, ó, madamoiselle? – perguntou o Zé; e depois disse que esta nossa brincadeira era bem adequada, pois as quadrilhas brasileiras eram adaptações das danças de salão da corte francesa.

- Monsier Tonhô, o dono daquele saveiro azul ali – apontei. - Sabe quem é?

- Sei.

Senti que o Zé estava com vontade de aceitar, e continuei falando do quanto nos divertíamos nos ensaios, dos preparativos, do jeito que eu queria enfeitar o jardim. Algumas mulheres se ofereceram para fazer, em tecidos floridos, pequenos balões que penduraríamos entre os coqueiros, intercalando com as bandeirinhas.

- O seu Wilson, aquele que é eletricista lá na pousada, vem aqui amanhã pra ver se dá para a gente colocar iluminação nos balõezinhos também.

- E o tecido não vai pegar fogo?

- Acho que não. Pelo menos ele já está fazendo um teste. Tem um balãozinho aceso lá na casa dele desde ontem de manhã. Acho que não aconteceu nada de errado.

- E a fogueira?

- Um primo do Zé Borges, o caseiro aí do lado, está secando lá na olaria alguns troncos que o pessoal achou por aí, depois de trazidos pela maré. Amanhecem muitos na praia, todos os dias, e eu não queria que cortassem nenhuma árvore.

- É, pelo jeito vai ser um festão mesmo...

- Vai, Zé. Você tem que ir.

- E por que é que você convidou o Tonho para ser o noivo?

- Porque fiquei com medo de que você me abandonasse ao pé do altar.

O Zé soltou uma sonora gargalhada. Nunca o tinha visto sorrindo daquele jeito, com o corpo todo. Eu também ri, tentando disfarçar para que ele não soubesse o verdadeiro motivo. No mínimo, era inusitado o chacoalhar dos búzios que ele trazia na barba, batendo contra o peito que subia e descia com a gargalhada.

- Está vendo?! E ainda ri antecipadamente da minha desgraça!...

Na verdade, eu convidei o Tonho porque ele é viúvo e foi o único homem que apareceu para ensaiar sem trazer uma parceira. Não quero criar problemas com ninguém, sei que as mulheres daqui são um tanto valentes, bem capazes de puxar a peixeira quando se sentem ameaçadas. Claro que eu nunca paqueraria os maridos, os noivos ou os namorados delas, mas sei que não posso garantir o mesmo em relação a eles. Em festa que tem bebida, e sei que eles gostam de uma cachaça, é melhor não facilitar. Além do mais eu já conhecia o Tonho, já tinha ido muitas vezes até a praia, quando o via chegar de madrugada, para comprar peixe fresquinho, recém tirado do mar.

- Mas o Tonho não queria ser o noivo, disse que nesta altura da vida está mais é com vocação para padre.

Percebi que Zé ia dizer que sim, e acrescentei:

– Se você topar, tenho certeza de que ele não vai se importar nem um pouquinho.

- E quem é que está fazendo o papel de padre agora?

- Não é bem um padre. Como não tinha mais homem sobrando, quem faz o casamento é a mãe da noiva, a dona Isabel.

Só depois que pronunciei o nome de dona Isabel percebi que havia perdido todos os
argumentos anteriores.

- Não vem mais, né?! - perguntei, mesmo já sabendo a resposta.

O Zé apenas balançou a cabeça, confirmando que não. E também já seria demais pedir que dona Isabel não viesse à festa por causa dele.

- Zé, eu tentei perguntar para ela sobre aquilo que você me falou, e ela desconversou.

- Acho que vou ver sua festa de longe – foi só o que ele disse, evasivo.

De longe também ficaria o seu Niquinho, que disse não saber estar no meio de muita gente. Pensando bem, até que eu já estava bastante adaptada à ilha, e adorando conhecer algumas figuras bem pitorescas. Seu Niquinho era uma delas, um treinador de galos de briga. Todos os sábados pela manhã, a praça da vila virava uma grande arena para a disputa de ferrenhas rinhas de galo, embora fossem proibidas. Mas ninguém se importava, e esta parecia ser mais uma das tradições que o pessoal daqui faz questão de manter. Sob a sombra de enormes amendoeiras, monta-se um rinque ao redor do qual são colocados bancos e cadeiras, que a torcida e os apostadores levam de casa. Alguns ainda se espalham por dois ou três bares nas proximidades e ficam tomando cerveja, enquanto ouvem a narração da briga, que tem locutor oficial, pódio e até entrega de troféus. Algumas brigas, as mais importantes, são até transmitidas por uma estação de rádio local.

Fui assistir apenas uma vez, por curiosidade, pois me dava verdadeira aflição ver os pobres animais se baterem até a morte. Ou quase até a morte, quando o dono se compadece e resolve parar a luta, mesmo que isto atente contra a moral do galo. Um galo que foge da briga fica desmoralizado, o que não atrai apostas e torna a luta desinteressante para o dono do oponente. Muitas vezes, ao escapar de morrer pelos golpes do adversário, o perdedor que fica muito machucado é sacrificado pelo próprio dono, com uma torção no pescoço.

Os galos são tratados como verdadeiros artistas, a começar pela aparência, sempre muito bem cuidada; são submetidos a banhos e treinamentos diários para que fiquem vistosos e atléticos. Durante o banho também aproveitam para esfregá-los com escova e sabão de coco, o que deixa a pele mais resistente às bicadas do adversário.

Tudo isto aprendi com seu Niquinho, em uma manhã que acordei mais cedo saí para dar uma volta na praia, quando o vi cuidando de Valente, seu galo preferido. Ele o levava para caminhar amarrado por uma cordinha no pescoço, e andavam em círculos pela areia. Depois eu soube que isto serve para fortalecer a musculatura das coxas. Mas quando passei por eles achei a cena engraçada, pensei que fosse um louco imaginando levar o cachorro para passear. Na volta da caminhada não me contive e parei para conversar, como quem não quer nada, mas morrendo de curiosidade para saber do que se tratava. Ele me disse que, todas as manhãs, antes de o sol esquentar muito, levava Valente para se exercitar na praia; e me convidou para ir ver o restante do treinamento na casa dele.

No quintal devia ter mais uns vinte animais, de idades e tamanhos variados, presos em gaiolas individuais para que não gastassem energia brigando entre si. Todos tinham o pescoço, as coxas e boa parte das asas com as penas aparadas, para dificultar a pegada do oponente e para que ficassem mais leves e ágeis, o que facilitava quando precisavam se esquivar dos ataques. Para que se machucassem menos, seu Niquinho me mostrou que lhes cortava as barbelas - as peles que ficam embaixo dos olhos - e as pálpebras.

Ajudei-o com alguns exercícios simples, morrendo de dó dos animais, mas querendo saber como eles se comportavam. Alguns já deviam estar tão acostumados que eu tive a impressão de que já sabiam de cor toda a seqüência de exercícios. Para enrijecer a musculatura das coxas, primeiro, segura-se o galo pelo rabo e pelo pescoço e joga-o para o alto, deixando que caia. Depois, um velho toca-discos de vinil faz as vezes de esteira. Seu Niquinho regulava a rotação e lá ia o galo correndo contra o disco. Se não fosse uma crueldade muito grande com o animal, que fazia um esforço enorme para se equilibrar sobre aquela engenhoca, seria uma cena engraçada.

No sábado seguinte, fui até a praça ver o Valente ser campeão, como tinha plena certeza o seu Niquinho. Mas não consegui assistir nem a cinco minutos da briga, programada para durar uma hora ou até que um dos oponentes se desse por vencido. Mas consegui perceber como tudo é realmente bem organizado. Escolhe-se os oponentes pelo tamanho e pelo peso, procurando um equilíbrio, e então começam as apostas. Primeiro o “topo”, que é como eles chamam a quantia que o dono do galo perdedor vai pagar ao dono do vencedor. E só depois que eles chegam a um acordo é que as outras pessoas podem fazer suas apostas, sem que tenha ninguém para anotar. É tudo apalavrado; seu Niquinho disse que nunca deixam de cumprir, sob pena de nunca mais poderem participar. É disso que seu Niquinho vive, dos “topos”, principalmente dos que ganha com Valente, que é famoso em toda a redondeza por atrair muita gente de longe para desafiá-lo.

- Já veio gente até de São Paulo. E voltou só o dono; o galo, o Valente fez ficar por aqui.

O seu Niquinho ria, alisando com carinho a nuca pelada do galo. Aquele era o seu mundo, vivia em função dele, o dia inteiro treinando e preparando os galos para as rinhas.

– E a senhora que me desculpe, é muita bondade convidar, mas não sei ir a festa não. Só sei mesmo é lidar com meus galos.
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Confissão #54

Capítulo 8 - Parte I


Sobre as águas

Sempre tive medo de ciganas. Hoje fico pensando se não é, na verdade, medo do futuro. Eu trabalhava em uma agência de publicidade no centro antigo de São Paulo, perto de uma praça por onde se espalhavam dezenas de ciganas. Você já notou como andam em grupos? Nunca menos do três para fazerem uma abordagem, duas de cada lado e a outra já se colocando no seu caminho com uma frase para causar impacto, ou pelo menos para te fazer diminuir o passo. Quando não faz isto com o próprio corpo, enquanto, olhando nos seus olhos, diz que aquele é seu dia de sorte, que a cigana foi colocada no seu caminho para te fazer uma grande revelação, um segredo que vai mudar sua vida e que está escrito na sua mão, mas que só ela sabe interpretar.

Da primeira vez que me abordaram foi assim, e parecia que as três, juntas, tinham pelo menos dez mãos. Duas delas querendo pegar a minha mão esquerda, enquanto outras tantas buscavam a mão direita, que segurava forte a alça da bolsa. E ainda mais algumas mãos que quase arrancaram meus brincos, dizendo “que ricos, a cigana gostou, dá para a cigana este regalo que a cigana revela o futuro”. E ainda outras mãos, que me puxavam pelo braço enquanto eu tentava fugir. Eu apertava o passo e elas atrás, falando sem parar, elogiando meus brincos, meus anéis, meu relógio, meu colar, dizendo que seriam até de pequeno valor para pagar pelo futuro. Quando perceberam que eu não ia mesmo parar, partiram para a próxima abordagem. Mas vi que a que me pareceu ser a mais insistente delas se abaixou para falar com outra bem idosa, que estava sentada sob a marquise de uma loja fechada. Lembro-me até hoje das feições da velha, dos cabelos já quase totalmente brancos, presos numa trança rala, que ela jogava por sobre os ombros, para a frente do corpo, indo até quase a cintura. O rosto tinha tantas rugas quantas podia comportar, salvando-se apenas a região dos olhos e do nariz. Duas argolas enormes pendiam das orelhas murchas e esticadas. As mãos manchadas e com unhas muito grandes e sujas, que ela colocou em concha no ouvido da jovem cigana, que depois veio falar comigo:

- Minha avó disse que a moça tem uma sina de amor muito triste. Mas que pode mudar se
for do seu conhecimento.

Por que sina de amor triste? Por que é que ela não dizia que eu tinha escolhido a profissão errada, que o prédio onde um morava ia desabar, que alguém de quem eu gostava muito estava precisando da minha ajuda? Porque, com certeza, não impressionaria tanto. As coisas de amor acabam prevalecendo sobre todas as outras, não é mesmo? Apesar de já terem me avisado que eram grandes charlatãs, que da tradição das grandes ciganas ledoras de sorte não tinham nem conhecimento, que num descuido elas arrancariam tudo o que já tinham elogiado e ainda todo o dinheiro que eu tivesse na carteira, apesar de tudo, fiquei curiosa.

Que triste sina seria aquela que o destino me reservava, mas que a velha poderia mudar? Perguntei à jovem cigana se ela poderia me dizer se meu namorado me traía, e ela disse que sim, que a revelação tinha a ver com isso. Perguntei se ela sabia se ele era um moço moreno ou loiro e ela falou que a imagem estava confusa, que se eu parasse de andar, poderia ver melhor. Eu, que nem namorado tinha, apressei o passo e ela continuou ao meu lado, arriscando cinquenta por cento da chance que teria para acertar com um “é moreno, não é”? Não respondi, as duas mãos procurando o apoio da alça da bolsa, os olhos fixos no chão. Então vi os pés da ciganinha. Descalços, imundos, as unhas crescidas como garras, nas quais se viam resquícios de esmalte cor de rosa. Senti o corpo bambear, um nojo enorme, uma vertigem que me levou para longe daquela voz irritante que me parecia adquirir um tom diabólico. O desmaio foi um alívio, e acordei sentada na cadeira de medir pressão de uma farmácia, as duas mãos ainda fechadas ao redor da alça da bolsa.

Que me desculpem as sérias e verdadeiras, as que têm o dom, mas, desde então, além da desconfiança, tenho muito medo de ciganas, de quem nunca olho os pés. Entre as minhas supertições, esta é uma das mais fortes. Quando as vejo em determinado local pelo qual preciso passar, fico à espera de que todas estejam ocupadas para então seguir meu caminho, sempre olhando para o alto, o mais possível. Medo de quem mente tão descaradamente e inventa verdades que podem se tornar o ponto de apoio, manco, mas o ponto de apoio de corações desavisados.

Mas foi depois destas ciganas que passei a observar pés, e tenho uma enorme curiosidade de colocar meus olhos nos seus pés. Eu mesma não tenho pés bonitos, gosto do tamanho deles, são pequenos, mas não têm um formato bonito. E nem é isso o que espero, beleza, quando, logo depois de olhar nos olhos de quem acabo de conhecer, dou um jeito de olhar os pés. Calçados ou não, eles me dizem muito sobre seus donos. Os tímidos quase sempre usam sapatos fechados, e o inverso também é verdadeiro. O mesmo serve para os falsos. Os vaidosos trazem as unhas bem cuidadas, e as mulheres ainda realçam a personalidade através das cores. Eu gosto das minhas unhas pintadas de vermelho; o que você acha que isto quer dizer?
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Confissão #53

Estou meio compulsiva hoje. Vejo quantas confissões ainda tenho para fazer e dá vontade de fazer várias de uma vez... ;-)
Aí abaixo tem cinco novas confissões, e para encabeçar o final de semana deixo um poema da Adélia Prado:

Corridinho

Adélia Prado


O amor quer abraçar e não pode.

A multidão em volta,

com seus olhos cediços,

põe caco de vidro no muro

para o amor desistir.

O amor usa o correio,

o correio trapaceia,

a carta não chega,

o amor fica sem saber se é ou não é.

O amor pega o cavalo,

desembarca do trem,

chega na porta cansado

de tanto caminhar a pé.

Fala a palavra açucena,

pede água, bebe café,

dorme na sua presença,

chupa bala de hortelã.

Tudo manha, truque, engenho:

é descuidar, o amor te pega,

te come, te molha todo.

Mas água o amor não é.
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Confissão #52

Capítulo 7 – Parte V

Uma ilha a setecentos metros acima do nível do mar


Arrumar um moço bom e casar. Até parece prêmio pra bom comportamento, você não acha? Bem, nem sempre eu fui uma boa menina, mas acredito que é isto que também faz com que eu te mereça. Aquilo que já te falei sobre ter uma alma antiga e um coração que a acompanha.

Vamos primeiro à pior parte? Ou a melhor; acho que há sempre mais de um ponto de vista. Já tive três namorados ao mesmo tempo. C. era o oficial, mas já te contei como eu aprontava para ver se ele me deixava terminar o namoro, ou se terminava ele. Hoje eu não faria isso, sofre quem trai e quem é traído, mas eu não sabia como lidar com a situação.

Durante algum tempo, depois que me mudei de Ibiá, sempre voltava para passar as férias na casa dos meus avós. Meu avô Paulo comprou um carro enorme, um Veraneio - acho que era esse o nome -, e todo início de férias escolares colocava para rodar o que nós batizamos de “Caravana do Vovô”. Ele ia de cidade em cidade recolhendo todos os netos que tinham idade suficiente para ficarem sem as mães. Como neta mais velha, participei desde o início, faltando em algumas destas viagens apenas já na adolescência, quando queria viajar com as amigas. Mas quase sempre me arrependia, embora não admitisse, pois aquelas eram as melhores férias que alguém poderia ter. Rever as amizades, não ter hora para chegar em casa, ir para as fazendas da região, tomar banho de cachoeira, dar festas no porão da casa de meus avós. Eles adoravam a presença dos netos e faziam de tudo para nos agradar, além de, muito mais do que nossos pais, confiarem no nosso senso de responsabilidade. Férias sempre significavam território livre, nenhuma obrigação a cumprir, e já eram divertidas só por estarmos todos juntos, os primos.

Eu seria capaz de ficar horas te contando histórias daquela época, das coisas que aprontávamos, mas as melhores mesmo eram as histórias dos namoros. Éramos adolescentes e, muito mais do que primos, verdadeiros cúmplices. Se gostávamos da paquera uns dos outros fazíamos de tudo para ajudar. Se não gostávamos, tudo para atrapalhar. Sabe que aprendemos isto com nossos tios? Quando estavam todos juntos, solteiros e casados, para as comemorações de Natal e Ano Novo, nós os chamávamos de “A Gangue”. Unidos e invencíveis. Naquela época, fazíamos muitas serenatas para o restante da família, os amigos e os ou as pretendentes. Não se recusava uma indicação de casa sequer, valia a farra da família inteira pelas ruas, com violões, pandeiros e cavaquinhos debaixo dos braços. Mas o grau de afinação era sempre proporcional à afeição por quem estava sendo homenageado com a serenata.

Você já fez serenatas? Ou já recebeu alguma? Se eu pudesse, te faria uma. Uma não, várias. Mas não sei tocar instrumento algum, tenho um sério problema de coordenação motora. E sou desafinada. Aliás, acho que neste aspecto sou a ovelha negra da família. Meus dotes musicais foram regiamente distribuídos entre todos os outros. Ou puxei a meu pai. Sabe o que ele fazia na época do namoro com a minha mãe? Começaram a namorar em um velório. Cidade pequena, hábitos antigos, as moças não podiam sair de casa sem a companhia de alguém “responsável”, a não ser que fossem para velórios. Então havia na cidade, entre os jovens em idade de namorar, um eficiente sistema para descobrir velórios onde quer que acontecessem. Não importando se conheciam ou não o morto, iam todos passar a madrugada sob sua tutela. Se isto ainda acontecesse nos dias de hoje, eu ia achar bonito que minha morte servisse de cupido.

Minha mãe me contou que alguns velórios se transformavam em verdadeiras festas. A família enlutada às vezes lançava alguns olhares reprovadores, mas como com certeza alguém deles já tinha usado do mesmo artifício, havia uma grande tolerância, e fingiam não ver os copos de martini com guaraná, alguém chegando com uma galinha roubada que logo ia para a panela, as rodas de piadas de salão e mesmo de música que se espalhavam pelo escurinho do quintal. Foi assim que um dia meus pais começaram a namorar. Já se olhavam havia um bom tempo, mas nunca tinham tido a oportunidade de estarem a sós.

Na noite seguinte, meu pai foi falar com meu avô, falar das intenções, estas coisas. E quando ele estava indo embora, começou a chover. Mas estava tão feliz que mesmo a chuva deu motivos para comemorar. Ajudado por meu tio, que segurava o guarda-chuva, ele, de vitrola na mão, fazia a primeira serenata embaixo da janela da minha mãe. Desde então a música dos dois ficou sendo “Serenata na Chuva”. Já ouviu? Meu pai quase nunca perde a oportunidade de tocá-la novamente. Muitas e muitas vezes eu e meus irmãos já fomos acordados por esta música, em noites chuvosas. Quando não estávamos doentes e a noite era quente, apesar da chuva, nos juntávamos ao meu pai, sob a janela do quarto deles. Minha mãe, lá de dentro, nem se lembrava de pedir que tirássemos os sapatos enlameados antes de entrarmos em casa.

São tantas histórias que eu até me distraio e tenho vontade de emendar uma na outra. Mas eu ia te falar dos três namorados e acabei me lembrando das serenatas; é que para um deles nós fizemos. Quando eu comecei a namorar o C., apaixonada, falando em casar, mesmo que não tão breve, minha avó ficou indignada. Dizia que eu precisava era namorar, muito, com muitos, aproveitar a vida para só então mais tarde saber escolher. Para ela, casar com o primeiro que aparece, em raríssimos casos não é escolha, é condenação. Ela tinha um casamento feliz, deu sorte. Mas tantas eram as histórias de casamentos arranjados, ou nos quais os noivos só se conheciam no dia ou bem próximo ao dia da cerimônia, e viviam infelizes, que eu entendo o medo dela.
Eu não concordo plenamente com isto. Eu queria muito já ter te encontrado e tê-lo como meu único amor. Pouparíamos anos de busca, de enganos, de desacertos. Será que não? Eu acho que sim, que com você eu já teria sido mais feliz. Mas como isso é algo que a gente nunca vai saber, é melhor nem ficar pensando muito. Talvez ainda não estivéssemos prontos um para o outro.

Quando comentei com minha avó que meu namoro com C. não estava bem, ela foi a primeira a me incentivar a terminar logo. Talvez ela já soubesse que não era ele, que eu deveria continuar me prepararando para você. Mas nada de ficar sozinha também, melhor emendar um amor no outro enquanto o coração é jovem, ama e desama e cicatriza fácil. Eu não conseguia me decidir entre W. e J., que conheci em Ibiá, numa destas férias, e minha avó disse que só experimentando. C. nunca podia ir, pois tinha que trabalhar, mas ligava todos os dias, duas ou três vezes por dia. E pode parecer o cúmulo das coincidências, mas um dia aconteceu. W. me esperava na cozinha enquanto eu falava com C. pelo telefone da sala. No portão, minha avó conversava com J. e dizia que eu tinha ido visitar uma amiga. Não, ela não sabia qual. Não, ele não deveria esperar, pois provavelmente eu não voltaria tão cedo; por que não telefonava mais tarde?
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Confissão #51

Capítulo 7 – Parte IV

Uma ilha a setecentos metros acima do nível do mar


Estou curiosa para saber direito esta história do Zé com a dona Isabel; mas todas as vezes em que toco no nome dele, ela desconversa, referindo-se a ele de uma maneira sempre hostil. Está mais do que claro que ela não gosta nem um pouco que eu converse com ele, e algumas vezes já chegou a dizer isso. Não claramente, mas disse. E sempre repete para eu tomar cuidado. Por aqui todos se conhecem, sabem da vida uns dos outros, e em relação a algumas pessoas, a dona Isabel me deu motivos convincentes para eu não me aproximar. Sempre ouvi, porque tenho o cuidado de conhecer muito bem os lugares para onde me mudo, ou onde começo a trabalhar. Existem algumas regras que só podem ser aceitas ou não depois de bem conhecidas, e a estranha aqui sou eu. Mas em relação ao Zé ela nunca me diz o verdadeiro motivo. Será que os dois já tiveram um caso? Do amor ao ódio é tão perto...

A sala está cheia de papéis coloridos que vamos recortando no formato de bandeirinhas, tiras, flores. Até parece que a festa será aqui dentro. Para facilitar a colagem dos enfeites de papel nas linhas de nylon, elas estão esticadas por todo o ambiente. Adoro este tipo de trabalho. Muito pequena ainda, aprendi a fazer crochê com minha avó, e mais tarde fiz aulas de pintura, tricô e bordado. Quando ainda nem alcançava direito o pedal da máquina, aprendi a costurar com minha mãe, o que tornou minhas bonecas as mais bem vestidas de toda a vizinhança. E também gosto de papier maché, colagens, marcheteria. Não sei se aprendi tudo isso porque realmente gostava, ou se queria mesmo era me exibir. Sempre preferi fazer quase todos os objetos de decoração dos lugares onde morei. Cortinas, luminárias, panos de prato, toalhinhas, quadros, flores de seda, porta-velas, caixas. Raramente comprava algo, para não correr o risco de alguém ter igual. Roubava uma idéia daqui, outra dali, misturava as técnicas e tinha sempre minhas criações exclusivas.

A dona Isabel não tinha muito jeito para trabalhos manuais, mas ajudava riscando e recortando sobre os moldes, passando cola, estas coisas mais simples. Na verdade, às vezes mais atrapalhava do que ajudava, mas eu queria que ela ficasse ali, precisava arrumar um jeito de falar sobre o Zé. Aliás, eu o convidei e ele disse que não vem.
- Dona Isabel, será que se eu convidar o Zé, ele vem?

Fingi indiferença, as mãos ocupadas em montar as fogueirinhas de palitos de fósforo que enfeitariam todas as mesas. Aquele enfeite estava ficando muito bonito, e no centro dele, em meio a algumas tiras de papel de seda amarelas, alaranjadas e vermelhas, fazendo as honras do fogo, ainda colocaria um minúsculo ventilador para manter a chama tremulante. Ou talvez nem precisasse, porque aqui o vento é uma constante. Olhei com o canto dos olhos e a dona Isabel também não tinha parado de recortar o papel de seda.

- Acho que não. Mas se eu fosse a senhora nem corria o risco de convidar.

- Por que não? – fingi não entender.

- Porque vai que ele aceita!

- Mas se eu estou convidando é porque quero mesmo que ele aceite.

A dona Isabel se impacientou, largou os óculos dentro da caixa onde ia colocando as tiras que papel que recortava e se levantou.

- Vou tomar um copo de água, a senhora aceita?! Nem parece inverno, esse calor – abanava-se e passava a mão sobre a testa. – Também podem ser os calores, já estou na idade.

Qual seria a idade da dona Isabel? Eu nunca perguntei, mas calculava em torno de cinqüenta e cinco anos, por aí. Talvez até mais; os negros sempre aparentam menos idade. Ela ainda era bonita, quase nenhuma ruga no rosto, os cabelos provavelmente pintados para esconder os fios brancos que já deviam ter aparecido. Eu gostava do porte dela; alta, bem mais alta do que eu, a coluna sempre ereta, o rosto erguido. Não sei muita coisa sobre sua vida, pois, se não pergunta da minha, também não me sinto à vontade para perguntar da dela. Sei que tem duas filhas, que moram no continente; “no continente”, como ela sempre diz, com muito orgulho. “Porque aqui moça não arranja futuro!”

- Dona Isabel, quantos anos a senhora tem?

- A senhora tem a idade da minha filha mais velha. Ela nasceu quando eu tinha dezesseis anos.

- Quarenta e oito?! – espantei-me.

Pela lógica, esperava mais. Minha mãe era mais velha do que ela e parecia bem mais nova.

- Pareço ter bem mais, não é?! A vida vai roubando os anos da gente...

- Não... – eu não sabia o que dizer. – É que a senhora se casou cedo, né?!

- Aqui, minha filha, quem não tem estudo não tem muita opção. Por isso que fiz questão que as minhas filhas fossem para o continente, para estudar. Marido não garante futuro de ninguém...

Ela nunca me falou do marido. Nunca falou sequer onde mora. Quando acordo, ela já tem feita a maior parte do serviço, em silêncio; nunca fui acordada por barulho algum. E do mesmo jeito que chega vai embora, um pouco antes de anoitecer. Acho que morava aqui na casa e, quando eu cheguei, ela se mudou. Foi uma das coisas que eu pedi ao proprietário, porque queria ficar sozinha.

- O que o marido da senhora faz?

- Tomava conta de uma casa lá do outro lado da ilha – fez o sinal da cruz e continuou. – Que Deus o tenha! Já se foi há tempo...

Percebi que se comoveu.

- A senhora quer alguma coisa da cozinha? – perguntou.

- Não quero nada, não. Obrigada.

Acho que vi os olhos dela se encherem de água, antes de sair apressada para a cozinha, de onde logo em seguida veio o barulho de louça se quebrando. Ela nunca tinha quebrado um copo sequer antes. Nem praguejado.

- Ô, Diacho!!! – descarregou uma grande raiva, como um desabafo.

Voltou minutos depois, trazendo os cacos em uma pá, para me mostrar.

- Foi louça ordinária, dona Ana, do dia a dia. A senhora me desculpe, e se quiser pode descontar do meu salário.

- Não vou descontar nada não, dona Isabel. Aliás, esta louça nem é minha – ela sabia disso, era louça da casa. – Além do mais a senhora nunca quebrou nada; acontece. Desculpa ter tocado naquele assunto, tá? Eu não sabia...

- Do finado?! Já me acostumei, faz muito tempo. E eu nem sei porque ainda falo que Deus o tenha.

A expressão do rosto dela contrariava as palavras. Achei melhor mudar de assunto.

- Dona Isabel, por que a senhora não joga isso no lixo e vem me ajudar a fazer a lista de convidados?

Eu estava morrendo de medo de ter todo aquele trabalho e ninguém vir.

- As pessoas que a gente não encontrar neste fim de semana, será que podemos deixar o convite com os caseiros?

A dona Isabel é nativa, conhece todo mundo pelo nome e pelo sobrenome. Aliás, esta é uma coisa a que não consigo me acostumar aqui. As pessoas se referem aos outros, e até a si mesmas, quando se apresentam, usando nomes e sobrenomes. Assim mesmo, no plural, porque quase nunca é menos de dois nomes e dois sobrenomes. Não gosto muito disso, da forma como o fazem, do tom que imprimem à voz. Até parece que foram eles próprios que fizeram estes sobrenomes que ostentam com tanta pompa e circunstância. Mas o que pode ter feito um adolescente de quinze, dezesseis anos, para honrar o sobrenome? Nada! Provavelmente apenas se gaba dos feitos de pais, avós, bisavós, tataravós e de outras gerações das quais não têm a mínima idéia de quem terão sido. Mas juro que vou tentar ser menos implicante, pois quero que esta festa dê certo, com todos os nomes e sobrenomes a que ela tem direito.

- É cada nome que não acaba mais... – comentei.

- É, aqui cada nome dá um livro. Só a gente aqui da ilha mesmo é que não tem. O da senhora também é curtinho, não é?!

- É sim, dona Isabel. Acho que estou mais pra gente aqui da ilha.

Rimos juntas, melhorando um pouco o clima pesado que tinha ficado depois de eu tocar no assunto do marido dela.

- Mas tem gente boa também entre os veranistas. Quem sabe a senhora não arranja até um namorado? Vou fazer a trezena de Santo Antônio nessa intenção.

- Faz não, dona Isabel, estou muito bem sem namorado.

Fiquei imaginando o que ela pensaria se soubesse da minha espera. Será que Santo Antônio também apressa pessoas que demoram a chegar? Quem sabe ele não te traz para a festa?

- Mas a senhora é nova, bonita, tem mais é que namorar muito.

- Ih... Até parece a minha avó falando. Mas já fui muito namoradeira, viu?

- A senhora vai ver, vai conhecer um moço bom na festa. Quem sabe até não casa e fica por aqui mesmo?
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