Confissão #44

Até eu cansei de ficar ajoelhada no milho: estão aí abaixo quatro novas confissões, pois agora só volto aqui dentro de duas semanas. Comportem-se no carnaval, mas não muito, está bem?
E fiquem também com essa maravilhosa parábola da madrinha desse blog, Cora Coralina:


Conclusões de Aninha

Cora Coralina

Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.

O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?

Donde se infere que o homem ajuda sem participar
e a mulher participa sem ajudar.
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca, apontar um poço piscoso
e ensinar a paciência do pescador.
Você faria isso, Leitor?
Antes que tudo isso se fizesse
o desvalido não morreria de fome?

Conclusão:
Na prática, a teoria é outra.

****
Foto: O quarto onde dormiu Cora Coralina, tirada pelo Gravatá.
Link para este post

Confissão #43

Capítulo VI - Parte III


Ri, suspira, soluça, anseia e chora*


Respeito. É isto que, acima de tudo, os pescadores daqui dizem sentir pelo mar. E essa noite acho que o mar corresponde. Com a lua brincando de fingir que é dia, dá para ver o quanto ele está calmo. Quase dá para distinguir a linha do horizonte. Será que alguém sabe o quanto do mar nos é permitido ver até que ele se perca na curvatura da terra? Pergunta mais sem propósito, não é? Outro dos meus porquês sem porquê. Quantos acumulados até agora? Se os tivesse escrito todos, com certeza poderiam percorrer em linha reta a distância da dúvida. Talvez até cobrir também o caminho de volta.

Não acho que você vá chegar à noite, mas eu queria que fosse hoje; agora. Só queria dormir e que, quando acordasse, fosse nos seus braços. Que fosse ainda no meio da noite, a janela do quarto aberta e você acompanhando os passos da lua sobre meu corpo. Sem fazer mais nada, apenas acompanhando com os olhos, detendo-se mornamente nas reentrâncias, nas curvaturas, nos montes, nos lados ocultos. E então o meu olhar divergiria do seu, você querendo parar o tempo para se deter naquele instante e eu querendo que o instante durasse para sempre. Acho que estou ficando confusa, um gole de vinho, um trago de lua... Ah, essa lua... Parece a mesma coisa, isso que eu disse sobre os instantes? Como eles sempre foram diferentes para homens e mulheres? Mas não é. Olha só: eu queria que o tempo fluísse, que aquele momento tivesse a duração que corresponde ao para sempre. E você provavelmente estará buscando o tempo estático, querendo que tudo pare ao redor, para que você viva apenas aquele instante. Ou não, será que com você isso também será diferente?

Mas eu sei que, numa noite como esta, você vai me ver como nunca viu mulher alguma. Posso dizer que me sinto bonita? Particularmente bonita. Primeiro, porque se não me sentisse, não me habitaria um sentimento destes, o amor. E quando me sinto bonita assim, tenho urgência de que você me veja. Talvez eu dance para você, não sei... Não, eu danço para mim, esqueço que você está por perto e danço para mim. E porque o amor me habita eu danço mais, e mais, e mais, e canto, até que você me peça pra parar. Porque também começou a sentir urgência de mim.

Sabe que eu acho que o amor é para os narcisistas? Sabe que é só para eles? Eu falo do amor correspondido, porque do outro tanto faz. Mas também não é daquele narcisismo doente, desmedido. Há que se gostar do que se vê refletido no lago para se expor às necessidades do amor do outro. E hoje eu me sinto bonita assim. Lembra da descrição daquele beijo? Sobre o corpo ir existindo somente nas partes que vão sendo tocadas? Hoje me sinto antecipando o beijo, e já existo antes de ele ser dado. É como se eu tivesse captado tudo o que há de belo, todo o amor que vaga sem correspondente pelo mundo, à procura de um corpo para se abrigar. E mesmo que façam de mim morada provisória, não importa, é aqui que estão. Ora agraciando um gesto, ora um manear de ombros, a curva amortecida dos lábios, o contorno da cintura, um jogo de sombras no umbigo. Quase ninguém se detém no umbigo, já reparou? Eu gosto dessa taça cava. Mas sabe onde o sinto mais, onde eu mais tenho necessidade que você beije? Ali um beijo seria capaz de ficar guardado durante milênios. É nesse espaço na base no pescoço, na verdade nesses dois; parecem feitas para guardar seus beijos essas cavidades formadas pela saliência dos ossos do peito. Quantos caberão lá? Um após o outro, eu queria tantos, tanto.

Ah, meu amor, se você viesse agora... Chegaria a tempo de ver meu corpo verbalizar o amor; suspirar, arder, espasmar, ofegar e se abandonar...


*Castro Alves, Poesias Escolhidas, p. 69
Link para este post

Confissão #42

Capítulo VI - Parte II


Ri, suspira, soluça, anseia e chora*


C. tinha olhos muito claros, azuis, lindos. Quer dizer, tem. Por que será que a gente fala das pessoas do nosso passado como se elas não existissem mais? Eu tomo muito cuidado com isso, porque não quero me desfazer do meu passado, não quero renegá-lo. É dele as pequenas peças de que sou feita hoje. De muitas coisas me orgulho, de outras me envergonho, mas não as renego. E preciso que você me aceite assim, feita de erros e acertos. Minha mãe um dia me falou de um tipo de amor que é apesar. Há que se amar apesar. Apesar dos defeitos, apesar das discordâncias. O tipo de amor que se baseia nos porquês não sobrevive a um apesar. Entende? Eu não vou amar você porque é inteligente, bonito, carinhoso ou apaixonado. É claro que tudo isso, num primeiro momento, poderá até fazer com que nos aproximemos. Mas amar mesmo, eu vou amá-lo apesar do que não gostar em você.

A princípio, eu não gostava muito do jeito superior com que C. me olhava. Havia a diferença de quatorze anos entre nós, e que parecia ser ainda maior para ele do que para mim. Quatorze e vinte e oito, o dobro ou a metade, dependendo do ponto de vista. Números pares. Por muito tempo brinquei com estes dois números, buscando todas as combinações possíveis, achando-os cada vez mais favoráveis. Eu e todas as meninas da escola. C. era o professor de matemática, matéria que eu apenas suportava. Exata demais para quem está acostumada aos diversos significados das palavras. Mas para impressioná-lo acabei me tornando uma aluna aplicada, o que foi um bom desafio. E também comecei a escrever alguns poemas nas provas, quase sempre alusivos a amores que superavam grandes diferenças. Ele correspondia ao meu interesse, eu tinha certeza. Ele e seus olhos azuis, furtivamente me procurando pela sala de aula e pelo mesmo clube que freqüentávamos.

Acompanhada de alguns professores, entre eles C., minha classe fez uma viagem de quatro dias às cidades históricas de Minas Gerais. E lá, entre o casario colonial, as ladeiras de pedras e memórias ancestrais, as noites impregnadas de histórias e serestas, banhos de cachoeiras e caminhadas por trilhas entre montanhas, eu consegui convencê-lo de que tinha muito mais do que quatorze anos. Na viagem de volta, que durou uma noite inteira, contando com a cumplicidade de algumas amigas, trocamos nosso primeiro beijo. Mas de volta às aulas ele ainda era meu professor, ainda era quatorze anos mais velho, ainda tínhamos que manter tudo em segredo. Acredito que isto até foi um fator que ajudou para que nos tornássemos namorados. Correr riscos, namorar escondido, marcar encontro em locais onde não pudéssemos ser vistos. E assim foi até o final do ano, quando fui fazer o colegial em uma cidade vizinha, pensando na melhor preparação para o vestibular.

Eu era fascinada por C., ele representava para mim tudo o que pode querer uma adolescente. Um homem inteligente, maduro, experiente, lindo, educado, cavalheiro, romântico e, melhor de tudo, apaixonado. Ele disse que até havia tentado, mas que não conseguiu resistir ao que via em mim, uma menina muito mais mulher do que algumas da idade dele, embora negasse isto na aparência. Chamava-me de Borboleta, dizia que eu quase tinha asas, mas não se sentia falta destas por causa da beleza, da leveza e da alegria com que eu gravitava pela vida.

C. foi meu primeiro namorado oficial, depois de ter ido em casa conversar com meu pai e tudo, como manda o protocolo. Meu pai achava estranho o que um homem daquela idade, meu ex-professor, poderia querer com a filha dele, que tinha se tornado uma mocinha mas que nunca deixaria de ser sua menina. E quis dizer a ele que esta menina tinha sonhos próprios, que continuaria estudando, cursaria a faculdade, cuidaria primeiro da vida, e só então pensaria em casamento. Mas estávamos apaixonados e nada disto tinha a mínima importância, fazíamos planos para quando nos casássemos. Tínhamos a plena certeza de que ficaríamos juntos para sempre. Mas sabe quando o sempre chega mais tarde para quem tem quinze anos? E é quase urgente para quem é quatorze anos mais velho?

No início, quando C. falou em casar logo, antes que eu fosse para a capital cursar a faculdade, concordei. Seria maravilhoso ter aquele homem sempre por perto, sempre meu. E comemoramos isto no nosso aniversário de um ano de namoro, a nossa primeira noite juntos. C. duvidou que eu ainda fosse virgem, mesmo depois da prova irrefutável. Eu não sei explicar, mas foi como se eu já soubesse exatamente o que fazer, onde tocar, quando falar e quando calar, o que mostrar e o que esconder. Nada doeu, não tive medo, e da minha primeira noite tenho até hoje umas das mais prazerosas recordações. Também já tinha conversado com minha mãe sobre isso, e embora ela achasse cedo, concordava que eu deveria saber o que estava fazendo. Havia muito eu vinha me preparando, mas queria que fosse um momento especial, uma data que marcasse a passagem das brincadeiras que já fazíamos havia tempo, para a entrega de verdade.

Desde que tive a certeza de que seria com muito amor, comecei a tomar pílula, pois poderia acontecer a qualquer momento. E gravidez seria a última coisa com que eu queria me preocupar, embora fizesse planos de ter muitos filhos. Mas eu então só queria sentir e dar prazer, desfrutar do momento maravilhada com a possibilidade de me olhar no espelho logo depois e ver a transformação: mulher. Nenhuma mudança, nada que dava para se notar, mas C. me fez sentir muito especial. A mais especial de todas as mulheres do mundo.

Quando completamos dois anos de namoro, C. queria ficar noivo; mas eu ainda achava cedo. Ele disse então que me daria um presente maior do que um noivado, e como eu já era emancipada desde os quatorze anos – eu precisei, para poder ser registrada na escola onde ensinava inglês para crianças –, abriu em meu nome, e em segredo, uma loja. Eu relutei muito em dizer que havia adorado a surpresa, mas que não saberia como cuidar dela. E depois também, dentro de pouco mais de um ano estaria de mudança, para cursar a faculdade. Brigamos pela primeira vez, com C. tentando me convencer a pensar melhor se uma faculdade seria realmente necessária, se eu não tinha vontade de me casar logo e ficar com ele.

Se há o tal momento em que acontece o desencanto, quando se vê o ser amado diferente de tudo o que ele aparentava ser, aquele foi um deles. C. queria trair os nossos planos. E eu sabia o que poderia acontecer se ele tentasse podar as minhas asas. Eu perderia o viço, as cores... Eu perderia C., pois não seria mais sua Borboleta. Seriam as asas que me fariam sempre estar por perto; sem elas eu iria para um lugar longe demais, perdida até de mim. Ele não entendia que seria assim, mas eu sabia. Seria um preço alto demais a pagar para ver, e muitas vezes terminei aquele namoro. E tantas quantas voltava, mas sempre impulsionada por sentimentos que não são dignos de alguém a quem se quer por companhia. Carinho, culpa, pena. Depois do sequestro, seria por medo. E a ele não me submeti.


*Castro Alves, Poesias Escolhidas, p. 69
Link para este post

Confissão #41

Capítulo VI - Parte I


Ri, suspira, soluça, anseia e chora*


Estranha a afinidade que tenho com o Zé. Às vezes, acho que é algo maior e não apenas coincidências. Esta história do circo ligada à minha fixação por trapézios, por exemplo; e agora um codinome tcheco, sendo que um dos lugares que eu mais quero conhecer é Praga. Em algumas circunstâncias tenho medo dele sim, mas não por causa da loucura, sobre a qual todos falam. Tenho medo por causa da impressão de que ele lê meus pensamentos, de que ouve estas conversas que tenho com você. Senão, por que é que falaria da lua cheia de hoje, sendo que ontem te contei que esperava ansiosa pela nossa primeira noite de lua cheia aqui?

Talvez sejam apenas coincidências mesmo, e eu fico imaginando coisas, embalada por esse vinho, essa lua... Será que você também a vê, neste momento? Se já me ama tanto quanto te amo, eu posso afirmar que sim, que não há como fugir. Ela tem o poder de atrair os olhares dos amantes quando eles não sabem em que direção lançá-los. Olhares que buscam outros olhares. Talvez a lua até seja o maná dos guiados por Moisés. Para quem ama, ela tem o sabor dos lábios do amado, a textura da sua pele e o mesmo brilho dos olhos.

Lua abusada... Não parece ser de excitação que ela se treme inteirinha, ondeando no mar? Como um corpo molhado sendo percorrido pelo sugestivo quase-toque da mão amante. Muito de leve, à milimétrica distância do contato, uma brisa suave arrepiando a pele. De falta ou de ânsia pela pressão. E num intervalo entre uma onda e outra, a respiração suspensa, o ventre encolhido... A calmaria... E depois ela parte, toda cheia de si, cobrindo o mar com um manto de escamas prateadas. Nas noites que não têm lua, o mar simplesmente desaparece. Se não há o sobe-e-desce da luz de um barco solitário ou um farol que sirva de salva-vidas, o mundo se afoga nas trevas lá adiante, antes que céu e água se fundam.

Desculpe se divago; talvez seja a mistura de vinho e lua cheia. Será que você é capaz de imaginar o que a lua faz com as mulheres? Cheia assim, ela nos deixa tão grávidas quanto ela. A alimentar amores e a parir desejos. Mexe com nossos ciclos, confunde nossos hormônios. A lua quer transformar nossas mãos em instrumentos de navegação, indicando a direção, a força, o movimento... E eu resisto, porque quero esperar por você. E é aí que entra o vinho. Mais uma coisa sobre as pontes de Praga, a ponte Carlos: sabe que dizem que ela nunca cairá? Acrescentaram vinho à argamassa. Eu não sabia das propriedades edificantes do vinho, sei apenas deste torpor. Posso te contar um segredo bobo? Sempre que bebo vinho, além da segunda ou terceira taças, sinto vontade de passar batom. Isto não acontece com outra bebida, só o vinho me amortece os lábios, ao invés de edificá-los.

Ai, meu Deus, que alegria é essa mais sem motivos? Parece não vir de mim, mas de você. Tanto não é minha que tenho a sensação de tê-la roubado e de que a qualquer momento vai aparecer alguém pedindo-a de volta. E então esse alguém vai se colocar sob o holofote desta lua e fará sermões, e falará de punições severas, do destino reservado aos que roubam a alegria dos outros. Eu quase já posso ouvi-lo. E então vou precisar de outro alguém que me defenda, que me salve de ter alegrias sem ter motivos. Como é que vou explicar que posso ter pego a sua alegria porque a minha está com você, se nem te conheço?

Já me senti assim algumas vezes, quando eu ainda não sabia que felicidade, para que os outros a reconheçam, precisa ter identidade própria. Sabe aquilo de nome, endereço, fotografia e um número de ordem, na ordem dos motivos que fazem feliz? Agora não, já sei que precisa ser coisificada. Dê-me então um motivo, uma coisa qualquer. Eu ainda tenho comigo várias coisas que sei serem mais suas do que minhas. Clandestinidades, das quais estou apenas tomando conta. Talvez sejam estas que eu não sei prender em palavras. Por exemplo: desejo. Como dizer do desejo? Não há. Quando se fala em desejo o corpo apreende uma linguagem própria, que, mesmo não sendo do conhecimento de ambos os envolvidos por ele, um saberá exatamente o que o outro quer dizer. Não há espaço para mal entendidos entre um corpo que adere a outro corpo, o encaixe perfeito, yin&yang.


*Castro Alves, Poesias Escolhidas, p. 69
Link para este post

Confissão #40

Algumas notinhas via PublishNews, da semana passada:

14/02
A língua entra no museu
O Estado de S. Paulo - 14/2/2006 - por Antonio Gonçalves Filho
A partir de 20 de março, os usuários da Estação da Luz não vão prestar atenção só aos horários dos trens. Dos números eles vão passar às palavras na Estação da Luz da Nossa Língua, espaço eclético originalmente concebido como um museu da língua portuguesa e transformado num projeto multimídia para uso de pesquisadores da academia e também para os que nunca chegaram perto dela. Nove parceiros se juntaram para concretizar o projeto de US$ 36 milhões. Para dirigir o museu foi escolhida a cientista social e cineasta pernambucana Isa Grinspum Ferraz, autora de um elogiado documentário baseado na obra do antropólogo Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro. Essa sua experiência foi fundamental para criar o espaço em que 23 especialistas se reuniram com o desafio de atender a um público formado por pessoas de diversas idades, profissões e nível cultural. A adaptação de Darcy Ribeiro traduziu o texto do antropólogo para uma linguagem acessível ao grande público. Já o museu vai colocar a obra dos maiores escritores ao alcance de todos, além de se apresentar como um laboratório experimental da língua. A democratização literária começa com uma exposição temporária que vai celebrar os 50 anos do clássico Grande Sertão: Veredas, do escritor mineiro Guimarães Rosa (1908-1967). Para interpretar a obra foi convidada a diretora de teatro e cineasta Bia Lessa (Credeme e Maria, este último em fase de finalização). Ela armou uma instalação num dos três andares da Estação da Luz da Nossa Língua, que ocupa parte do prédio restaurado pelo arquiteto Paulo Mendes da Rocha, também autor do projeto de reforma da Pinacoteca do Estado. Em todo o mundo, 270 milhões de pessoas falam português. Graças à pesquisa coordenada pela historiadora paulista Ana Helena Curti, foi possível chegar a mapas, infografias e documentos que ajudam o visitante a descobrir não só a origem de uma palavra como onde e quando ela começou a ser usada.

Prêmio literário busca jovens escritores
MEC - 9/2/2006 - por Raquel Maranhão Sá
A Associação do Prêmio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro, de Portugal, está em busca de jovens escritores brasileiros e portugueses. Para isso, abriu inscrições para a terceira edição do prêmio realizado pela associação. Podem concorrer estudantes brasileiros e portugueses residentes no Brasil. Os trabalhos serão divididos por faixa etária (de 12 a 15 anos e de 16 a 20 anos) e por categoria (poesia e prosa). Os quatro ganhadores receberão 200 euros e obras do escritor português José Maria Ferreira de Castro. Os candidatos podem concorrer com mais de um trabalho. O único pré-requisito é que os textos sejam originais. Eles devem ser encaminhados para a Associação do Prêmio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro (R. Dr. Silva Lima - Lações de Cima, CEP 3720-298 - Oliveira de Azeméis - Portugal), até 30 de junho. Deverão ser enviadas cinco cópias dos trabalhos, assinados sob pseudônimos. Os concorrentes devem mandar também uma cópia da carteira de identidade e indicar o endereço, telefone e a escola que freqüentam. A partir de 30 de novembro será publicada a lista com o nome dos vencedores na página eletrônica do prêmio, onde também podem ser obtidas mais informações e está disponível o edital.

Fantasminha
Folha de S. Paulo - 14/2/2006 - por Mônica Bergamo
Mônica Bergamo conta que diante da revelação de que o escritor JT LeRoy não existe, o editor Luiz Fernando Emediato, da Geração Editorial, acabou retirando o convite para que ele viesse autografar seu novo livro, Maldito Coração, cujo lançamento foi confirmado no Brasil. A colunista escreve ainda que, como a verdadeira autora da obra, Savannah Knoop, ainda não aceita aparecer em público e assumir o fato, Emediato resolveu colocar um clone brasileiro para autografar o livro


15/02
Biblioteca InDisciplinada
PublishNews - 15/2/2006
A biblioteca do casal de colecionadores Guita e José Mindlin, com obras acumuladas durante quase oito décadas, é uma das mais importantes bibliotecas particulares do Brasil. A paixão pela leitura, e não exatamente o desejo de colecionar, incitou os dois a procurarem por manuscritos, primeiras edições, edições ilustradas, além de outras obras de grande beleza gráfica e importância histórica, no Brasil e no mundo. Depois de uma escolha difícil, quase mil peças, pertencentes ao extenso acervo da biblioteca, são apresentadas em Destaques da Biblioteca InDisciplinada de Guita e José Mindlin (Edusp/Fapesp/ Fundação Biblioteca Nacional, 544 pp., R$ 260), em dois volumes luxuosos: Brasiliana, dedicada a documentos e obras que dizem respeito ao Brasil, e Além da Brasiliana, com livros e documentos estrangeiros, curiosidades, encadernações, desenhos, gravuras e livros ilustrados. Como um guia, José Mindlin, faz várias observações sobre as peças selecionadas, contando suas particularidades e as histórias de suas aquisições em visitas assíduas a sebos e antiquários ou mesmo na leitura de catálogos. O lançamento do livro em São Paulo acontece no dia 15 de março, a partir das 18h30min, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2073).

Biblioteca CPTM ultrapassa os 5 mil livros
PublishNews - 15/2/2006
Com as doações realizadas na última semana, o acervo da recém-criada Biblioteca CPTM - Mário Covas, localizada em Osasco, ultrapassou o número de 5.000 livros. Em pouco mais de 40 dias, foi atingida a meta prevista para todo o ano de 2006. Antes da mobilização, em dezembro de 2005, havia por volta de 1.400 títulos. Os resultados são fruto da campanha "Faça Parte do Clube dos Amigos da Leitura", promovida pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, que tem registrado uma participação cada vez maior de estudantes, instituições e dos próprios funcionários da empresa. Para participar, basta entrar em contato com a Biblioteca CPTM - Mário Covas pelos telefones 11-3689-9107/9347 ou pelo endereço eletrônico biblioteca@cptm.sp.gov.br, e agendar a retirada do material em domicílio, dependendo da quantidade, ou entregar as doações nas chefias das estações da companhia. São aceitos todos os tipos de livros, desde que estejam em bom estado de conservação

Lançado o Rascunho 70
PublishNews - 15/2/2006
O 70.º número do jornal literário Rascunho - editado pela Letras & Livros, de Curitiba - analisa os livros de estréia de sete prosadores brasileiros. Foram resenhados os lançamentos de Alexandre Vidal Porto, Carlos Tavares de Melo, José Rezende Jr., Maurício Lara, Marcelo Rezende, Letícia Malard e Luís Augusto Fischer. Entre outras atrações, o articulista Nelson de Oliveira publica o texto "Carta ao Autor Fora do Baralho", em que discorre sobre as questões políticas do universo literário, e, no caderno Viramundo, dedicado à produção de literatura estrangeira, o jornalista Marcelo Pen assina um longo artigo em que compara, entre si, as novas obras lançadas pelo húngaro Imre Kertész (Liquidação) e pelos mexicanos David Toscana (O Último Leitor) e Ignacio Padilla (Amphitryon). O Rascunho é um jornal literário de circulação mensal e nacional, cuja assinatura semestral custa R$ 30. Mais informações: www.rascunho.com.br


16/02
Fórum vai encerrar Ano Ibero-americano da Leitura
Boletim Fome de Livro - 16/2/2006
O Fórum PNLL Vivaleitura, que será realizado nos dias 12 e 13 de março no Auditório Elis Regina, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, vai encerrar oficialmente o calendário do Ano Ibero-americano da Leitura, que teve mais de 100 mil atividades realizadas no Brasil desde janeiro de 2005. O encontro - destinado a bibliotecários, educadores, gestores de cultura, escritores, editores, livreiros, distribuidores, ONGS e voluntários que atuam na área, entre outros - vai apresentar um balanço do que foi o ano no Brasil - onde foi denominado Vivaleitura - e também nos demais 20 países da região. Já na abertura do fórum - com a presença dos realizadores que integram o Conselho Diretivo do Vivaleitura, que são o Ministério da Cultura, o Ministério da Educação, o Cerlalc (Centro de Fomento ao Livro na América Latina e Caribe), a Unesco e a OEI (Organização dos Estados Ibero-americanos) - está prevista uma conferência da professora Marisa Lajolo, da Unicamp, uma das maiores especialistas em leitura do País. Para obter detalhes da programação e fazer a inscrição (já que as vagas são limitadas), basta acessar www.vivaleitura.com.br/forum2006.

Gil e Hadad lançam bases para uma política até 2022
Boletim Fome de Livro - 16/2/2006
O lançamento do documento Diretrizes Básicas da Política Nacional do Livro (2006-2022) será feito no segundo dia do Fórum PNLL Vivaleitura, que terá a presença dos ministros Gilberto Gil, da Cultura, e Fernando Hadad, da Educação. Estão previstas várias mesas e painéis com a presença dos principais dirigentes governamentais na área durante todo o dia. No primeiro painel, que discutirá o Livro e Leitura como Política de Estado estão confirmadas, por exemplo, a presença do secretário executivo do MinC, Juca Ferreira, do presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Muniz Sodré, e do secretário de Educação Básica do MEC, Francisco das Chagas.

Cartografia Histórica
MinC - 15/2/2006 - por Marcelo Lucena
A Fundação Biblioteca Nacional (FBN), instituição vinculada ao Ministério da Cultura, disponibilizou para consulta 1.517 mapas restaurados, analisados, catalogados e digitalizados. A iniciativa faz parte do Projeto Biblioteca Virtual da Cartografia Histórica dos Séculos XVI a XVIII, desenvolvido por meio de convênio firmado entre a FBN e a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), em dezembro de 2000. Esses arquivos digitais - que já estão na Internet, em website específico hospedado pela Biblioteca Nacional - oferecem à comunidade científica nacional e internacional informações únicas, tanto para consulta como para cópia com resolução adequada. O Projeto Biblioteca Virtual objetiva a criação, manutenção e disponibilização de documentação rara, como mapas e manuscritos, da coleção da Biblioteca Nacional. A iniciativa contribui para a preservação de documentos originais à medida que evita o desgaste resultante do manuseio dos mesmos.

Grande Sertão tem edição de luxo
Folha de S. Paulo - 16/2/2006 - por Eduardo Simões
Grande Sertão: Veredas, romance do escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908-1967) completa 50 anos de seu lançamento em 2006 e ganha três novas edições da editora Nova Fronteira: uma é popular, a R$ 28; outra edição é tradicional, de R$ 60, que inaugura a coleção Biblioteca do Estudante, na Bienal de São Paulo, em março. A outra edição do título é comemorativa, com uma tiragem de 5.000 exemplares, em um projeto concebido pela diretora teatral Bia Lessa. O livro chega ao mercado em abril, acompanhado do catálogo da exposição temporária sobre a obra, que Lessa abre em março no Museu da Língua, na Estação da Luz, em SP, e de um CD multimídia, com imagens e sons do sertão descrito por Guimarães Rosa. O preço ainda não foi definido. "É uma edição de luxo", sintetiza Lessa, encarregada da conceituação e do projeto gráfico do lançamento. "O leitor vai ter acesso a essa grande obra-referência e a dados que complementam a leitura, como imagens e trilha sonora. A idéia é que o livro abra já com a obra, sem prefácio. Os acréscimos vêm como apêndices, criando elos com o romance." Guimarães Rosa ganhará outros dois lançamentos comemorativos ainda este ano: a Nova Fronteira publica, em maio, o livro Corpo de Baile, que também completa 50 anos; e Sagarana, que faz 60 anos. Os projetos serão detalhados posteriormente.


17/02
FLIP 2006 homenageará Jorge Amado
PublishNews - 17/2/2006
Adorado e aclamado internacionalmente, o inesquecível Jorge Amado será o homenageado da quarta edição da Festa Literária Internacional de Parati, que acontece entre os dias 9 e 13 de agosto de 2006. Novamente, a cidade colonial fluminense será o pano de fundo para a animada reunião entre escritores, leitores e o público em geral. Em sua tradição já consolidada, a FLIP convidará alguns dos escritores brasileiros mais representativos e algumas das mais relevantes figuras literárias do exterior. A programação detalhada será apresentada por volta do mês de junho. A FLIP é organizada pela Associação Casa Azul, uma organização não-governamental sem fins lucrativos que tem entre os seus objetivos a transformação de Parati num foco de projetos culturais e educacionais. Para tanto, as equipes da FLIP e da Casa Azul continuam a trabalhar em um extenso programa educativo. Ao longo do ano, atuam em conjunto com as escolas municipais da região, oferecem suporte prático e teórico aos professores da rede escolar de Parati, promovem oficinas da tradicional técnica de papel machê, tendo como referência personagens literários e a cultura local, realizam encontros com autores, ilustradores e alunos, conduzem a montagem de acervo de literatura infanto-juvenil e fomentam a formação de mediadores de leitura. O resultado desse trabalho pode ser visto durante a Flipinha.

O discreto Drummond
PublishNews - 17/2/2006
Foram dois anos de pesquisa - que contou com o auxílio de uma Bolsa Vitae -, durante a qual o autor entrevistou cerca de cem pessoas e pesquisou extenso volume de jornais e revistas em busca dos rastros do poeta. Os sapatos de Orfeu. Biografia de Carlos Drummond de Andrade (Globo, 368 pp., R$ 45) de José Maria Cançado, é a única biografia de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), e sua consulta é incontornável para aqueles que querem se aproximar um pouco da figura tão singular e impalpável do homem e do poeta. A primeira edição da obra foi lançada em 1993 pela editora Scritta. Foram diversas as estratégias que o biógrafo adotou para capturar a biografia de um homem que sempre fez questão de manter indevassável sua intimidade. Cançado pinçou dos próprios poemas os motes possíveis para o escortino de uma vida, sem cair em qualquer reducionismo que tornasse a biografia do poeta uma decorrência necessária de seus textos, ou vice-versa.
Link para este post

Confissão #39

Capítulo 5 - Parte IV


Os anjos não cruzam pontes


Muitas vezes eu me imagino passeando pelas pontes que cortam Praga. Indo e vindo de um lado para outro, sem motivo algum, apenas para ir e vir. Embalada pela descrição do Zé, tenho vontade que você segure minha mão e passeie comigo pela rua das casas de boneca, pelo lusco-fusco das pontes, sob os olhares petrificados dos profetas esculpidos por Aleijadinho. Eu sei que não são, mas parecem. Dão àquelas pontes um ar de familiaridade, como se eu voltasse à infância, às minhas Minas Gerais das montanhas e dos vales, dos rios e das pontes. Minas só não parece uma cidade – aliás, um estado - de bonecas, como Praga. Mas profetiza.

Acho que de tanto ficar em cima das pontes, olhando os rios da minha infância, estou acostumada a me comportar como elas. E é por isso que preciso da sua mão, para que você caminhe junto comigo e eu não corra o risco de me sentir tentada, mais uma vez, a ser ponte. Há algo de muito injusto na classificação das pontes, que para alguns servem para unir, enquanto que para outros, separam. Já prestou atenção aos noticiários, quando falam das pontes? Se vão falar algo de bom, dizem “a ponte que une tal a tal lugar”; e se é algo de ruim, a “ponte que separa isto daquilo”. E no entanto elas apenas estão lá, edificadas ao acaso dos acontecimentos.

Tenho a sensação de que muitas vezes também fui usada, ao acaso. Faz-se a travessia, chega-se onde se quer, e eu fico abandonada. Nem à terra, nem à àgua, mas no meio do caminho, mera travessia. Talvez eu tenha sido ponte até há bem pouco tempo, quando percebi que meu lugar é sob elas, fluindo, correndo ao seu encontro, juntando minhas margens às suas margens. Sempre admirei o comportamento das águas, tomando todo o espaço que podem preencher, aderindo às formas que as contêm. Conter apenas no sentido de abrigar, porque quando não querem não se dão, jorram e se derramam sem serem jamais contidas.


#


- O mais difícil era fazer desaparecer. Neste número eu sempre falhei, nem comigo eu consegui.

A voz do Zé me trouxe de volta à tona. Mergulhada nas minhas pontes, eu tinha parado de prestar atenção ao que ele dizia sobre as pontes em geral. Se é que chegou a dizer, não sei... Provavelmente sim, lembro-me de ter ouvido algo sobre a Carlos VI. E depois ele deve ter retornado às mágicas, e então passou à tentativa de suicídio. De certos assuntos eu me abstraio, como desse. Já tinha percebido as marcas; evitava mesmo olhar para elas, para que ele não se sentisse abrigado a comentar sobre o assunto, se não tivesse vontade. Deve ter percebido que naquele momento eu ia longe, e aproveitou para me inteirar do assunto. Impaciente, esfregava os pulsos um contra o outro, roçando as feias cicatrizes que acompanhavam de fora a fora a linha que separa mãos e braços. Olhava longe, e continuou falando:

– Por mais que tentasse, nunca consegui atravessar uma ponte para o além. E isto é uma das coisas que me faz pensar que ela ainda vem, que ainda está do lado de cá. Ela vem por ali.

Num gesto abrangente, o “por ali” mostrava todo o mar à nossa frente. Hoje revolto, de um azul cristalino, mas revolto. Sinal de que ainda teríamos alguns dias de tempo bom, mas em algum lugar, não muito longe, ele, o mar, já era castigado por uma tempestade.
Link para este post

Confissão #38

Capítulo 5 - Parte III


Os anjos não cruzam pontes


Sim, talvez anjo seja melhor, mais acostumado às asas. Para mim elas vão estar sempre ligadas ao sagrado, o mesmo conceito que tenho de liberdade. Queria que você chegasse usando asas, as suas asas, já gastas. Queria que nunca as guardasse, que as cultivasse como um viajante cuida do passaporte em um país estrangeiro. Para mim, o amor é assim, poder ir embora a qualquer momento; mas querer ficar. Por isso eu não me caso, negando toda a minha criação católica. Não seria capaz de jurar que o amor, que mesmo o nosso amor, é até que a morte nos separe. A morte nunca separa nada, seria pequeno demais imaginar que é um corpo que ama o outro corpo. É a vida, esta sim, que afasta as pessoas, que sabota o amor, que envelhece os sentimentos.

Sim, eu quero que você tenha longas asas, e vou te ajudar a cuidar delas. Que te levem cada dia mais longe, mais alto, a lugares e situações que eu só vou conhecer através dos seus olhos. E eu farei o mesmo por você. E quando então te ver voltando, saberei que é porque você ainda me ama, que por mais um dia ainda me ama. Há muito mais verdade e intensidade nestes amores que duram um dia só. E depois mais um. E outro. E mais outro. Eu vou querer dormir e esquecer que te amo, mesmo que meu mundo pulse inteiro no batimento do peito onde deitarei a cabeça. E no dia seguinte, que seja esta cardíaca necessidade a me lembrar, antes mesmo de abrir os olhos, que é mais um dia de festa, que é o aniversário do que sinto por você.

Às vezes tenho a impressão de sentir você me olhando e ouvindo todas essas coisas que te digo. É, você, com um certo ar de “sim, eu já sei disso, também penso assim”. E fico imaginando porquê continuo dizendo. É porque, embora eu pareça segura do seu amor, de que nos reconheceremos, tenho meus medos. E é saudável que os tenha, para que esteja sempre querendo te conquistar, sempre querendo fazer com que me admire, com que me ache digna de você. Preciso que me aceite, que saiba que posso te compreender e acompanhar. Há mais fraqueza nisso do que eu gostaria de admitir, mas sei que não tenho como escondê-la de você. Sou vulnerável ao seu amor, assim como você também deve e pode ser vulnerável ao meu. E talvez você já saiba disso também, mas preciso dizer que nunca usaria essa vulnerabilidade contra você. Mesmo que seja por egoísmo; entende que seria destruir a minha chance de ser feliz?


#


- Você será a mais linda trapezista do meu circo.

O Zé estava de bom humor. Junto com o elogio, fez-me uma mesura com um movimento de cabeça.

- São seus olhos – agradeci, segurando as pontas de uma saia imaginária, inclinando o tronco para a frente, dobrando os joelhos e levando a perna para trás, primeiro uma e depois a outra, à maneira das bailarinas.

Eu queria ser um misto de trapezista e bailarina. A coragem e a precisão de uma, com a leveza e a agilidade da outra. O Zé me confessou que sonhava com um dia ter seu circo novamente, e dar a volta ao mundo. Mas não podia partir antes que ela chegasse.

- Você também se apresentava? – perguntei.

Ele, vagarosamente, passou as mão pela camisa, ajeitou as também imaginárias mangas compridas e ajustou os botões, como se ajeitasse sobre o corpo com uma roupa de gala. Tirou o chapéu, segurou-o junto ao peito com uma das mãos e ergueu a outra, girando o corpo sobre os calcanhares para saudar a platéia. E empostou a voz para anunciar o que parecia ser sua maior atração:

- Especialmente para vocês, conchas, peixes e outros habitantes deste vasto Oceano Atlântico! Para vocês, pássaros sortudos deste céu azul!E principalmente para você, Miss Trapézio, orgulhosamente apresento, ele, o maior, o inigualável, o magnífico mágico... Franz Hanus!!!! Diretamente da República Tcheca para esta maravilhosa platéia do Grande Circo Torre de Babel!!!

Era como se ele tivesse voltado a ser criança, os olhos brilhando diante do brinquedo preferido. Ou diante do interesse recobrado por um brinquedo antigo. Trazia no sangue a herança de quatro gerações apaixonadas pelo circo.

- Zé, por quê o nome “Torre de Babel”?

- O nome surgiu meio por acaso. Meu bisavô tinha um circo na Itália; as coisas não iam bem, então ele resolveu ir para São Paulo. Só dois ou três artistas foram com ele, além da minha bisavó e de dois filhos. Meu avô, o caçula, já nasceu aqui. Eles faziam apresentações nas ruas, nas praças e na Casa do Imigrante, onde ficaram hospedados por um tempo. Foi lá que conheceram outros artistas, de vários países, que se juntaram a eles. Então, com muita gente de nacionalidades diferentes, cada um falando uma língua, a trupe ficava parecendo uma representração dos que trabalhavam na Torre de Babel.

O Zé fez uma pausa para ver se eu ainda estava prestando atenção e depois continuou:

- No início se chamava Companhia de Espetáculos Brasil, e foi o povo que começou a chamar de Torre de Babel. Então, meu bisavô deixou ficar.

- E o seu nome, como é que era mesmo? Franz ...?

- Hanus. Franz Hanus. Sabe que este nome me deu sorte? Quer dizer, pelo menos por um certo tempo – parou de falar, pensativo. - Ou a sorte vinha dela, não sei. Comecei a usá-lo no espetáculo anterior àquele no qual a conheci.

Foi aí que o Zé me contou que sempre tinha vivido no circo, e que o Torre de Babel fazia muito sucesso levando suas atrações internacionais por todo o país e até mesmo para alguns países vizinhos, como a Argentina, o Uruguai, o Paraguai, o Chile. O avô dele comprou e reformou três grandes vagões antigos, desses de trem, e os engatava nos comboios que percorriam o Brasil. No primeiro vagão moravam os artistas, instalados em confortáveis cabines. Tinham até cozinha, banheiros e uma sala que usavam para as refeições e para as conversas, a ouvir rádio. No segundo vagão transportavam a lona, as madeiras das arquibancadas, os mastros de sustentação e todos os apetrechos usados nos espetáculos. O terceiro vagão, adaptado com janelas maiores e sem divisórias, apenas com jaulas, era destinado aos animais. Naquela época, a maior parte do transporte de carga, e até mesmo de passageiros, era ferroviário. Quase não existiam estradas, nem veículos. Quando chegavam a alguma cidade maior, desengatavam os vagões, faziam alguns espetáculos e depois seguiam viagem. O Zé me contou que muitas vezes a chegada do trem com o circo a algumas estações era um espetáculo até mais grandioso do que o circo em si. De alguma maneira que no início desconheciam, mas que depois descobriram ser através dos próprios telégrafos da companhia ferroviária, a notícia de que o circo estava a caminho chegava por antecipação, e eles eram esperados por uma multidão de gente, vinda das zonas rurais e dos vilarejos vizinhos, que faziam do passeio até a cidade um grande acontecimento. E muitas vezes eram recebidos também por prefeitos, políticos e figurões importantes, repórteres de estações de rádio e de jornais, e bandas de música. Então, algum deles, algum dos artistas, fazia uma apresentação em agradecimento. Sabiam que muitas daquelas pessoas que estavam ali, com suas roupas de domingo e caras de tirar retrato, não teriam dinheiro para o ingresso.

As estações geralmente tinham só um escritório e uma plataforma de embarque e desembarque. Mas nos dias da chegada do circo, duplicavam e às vezes até triplicavam de tamanho, com muitas barracas vendendo frutas, verduras, pipoca, doces, salgados, brinquedos e roupas; e tendas de ciganas tiradoras de sorte, barbeiros, engraxates, retratistas... O avô, de coração brasileiro e expansivos modos italianos, generoso por natureza, distribuía dinheiro entre os netos e mesmo entre os funcionários, para que gastassem por ali a féria que retornaria nos espetáculos. Só assim muitos dos presentes poderiam ir ao circo.

- Zé, sabe o que minha mãe conta dos circos que chegavam a Ibiá? Que também iam esperá-los à entrada da cidade, a criançada toda atrás do palhaço, fascinada com os animais... Será que vocês não passaram por lá?

- Pode até ser, fomos a tantos lugares...

- MNinha mãe diz que por lá também apareciam muitos circos pobres, que não conseguiam dinheiro nem para ir embora. Algumas vezes um circo permanecia meses na cidade, até conseguir a quantia de que precisava para seguir viagem.

- Graças a Deus nunca passamos por situações assim; mas sabíamos de vários circos em dificuldade. Muitas vezes, meu avô também alugava alguns números deles, para apresentar no Torre de Babel. Mais por bondade mesmo, porque eram muito ruins. E isso rendia a eles um bom dinheiro, já que ficavam com uma porcentagem da bilheteria, o que significava até mais do que recebiam com vários espetáculos inteiros, só deles.

- Seu avô deve ter sido uma pessoa maravilhosa – comentei.

O Zé ficou em silêncio, e notei que seus olhos se encheram de lágrimas. Um sorriso triste foi o que tive como resposta. Eu precisava dizer alguma coisa antes que ele desistisse de me contar o resto da história. Ele parecia evitar falar de Lorelei.

- Ainda sobre os circos pobres, Zé, minha mãe contou que muitas vezes o pessoal da cidade fazia festas, bailes, rifas; e davam toda a renda para eles. E faziam a mesma coisa para os parques de diversões. Uma vez meu pai ganhou na rifa um dos leões de um circo. Imagina o que ia fazer com um leão!? Mesmo velho, desdentado... Acho que faziam de propósito; será que alguém pensaria em ficar com um leão, ou com um elefante, ganhos em uma rifa?

- Maltrata-se tanto esses animais, que talvez eles até preferissem.

- Mas e o seu nome? O Franz. Ainda não me contou de onde veio.

- Foi em um espetáculo em Praga, quando abandonamos os trens e começamos a correr mundo.

Ouvi uma palavrinha mágica: Praga. Uma das cidades que eu daria tudo para conhecer. Depois precisava me lembrar de mostrar ao Zé minha coleção de revistas de turismo, mapas e guias sobre Praga. Interessei-me ainda mais pela história.

- Gostávamos de manter a tradição do Torre de Babel, de termos pelo menos um artista de cada país por onde passávamos. Na França, onde fomos participar de um festival de circo, o mágico preferiu ficar por lá com a família e nos abandonou. E logo em seguida fomos convidados para umas apresentações na República Tcheca, na abertura do Festival da Primavera, que naquele ano ia reunir circos do mundo inteiro. Como o convite foi feito em cima da hora, não tivemos tempo de contratar ninguém, e eu resolvi adotar um nome tcheco e substituir o mágico, aproveitando uns truques que tinha aprendido com meu avó. Ele era um grande mágico, substituído pelo francês quando resolveu que era hora de parar.

- Eu tenho muita vontade de conhecer Praga; acho que deve ser uma cidade linda. Já li tantas vezes “O Castelo”, que sou capaz de andar por lá de olhos fechados.

Isso é verdade. Uma vez eu até sonhei ter marcado um encontro com Kafka em um dos salões do Castelo, onde Chopin tocava piano apenas para nós dois.

- Então, sobre o meu nome artístico, Franz é em homenagem a Franz Kafka. E Hanus em homenagem ao Mestre Hanus, o do relógio astronômico.

Este relógio tem uma história linda, além da aparência, é claro. De hora em hora os doze apóstolos anunciam o correr do tempo, surgindo em suas janelinhas. O rei o encomendou a um artesão chamado Mestre Hanus, que acabou sendo punido por sua competência. Fez um trabalho tão perfeito, o mecanismo funcionando tão bem e tão exato que, depois da encomenda entregue, os membros do conselho municipal mandaram que lhe furassem os olhos com uma espada incandescente, para que ele nunca mais fosse capaz de fazer outro igual. Quase nunca é igual também a roupa do Menino Jesus de Praga. Em cerimônias que já viraram atração turística, suas guardiãs, as freiras carmelitas, vestem-no alternadamente com uma de suas trinta e nove vestes. Por que trinta e nove, e não quarenta?

Para falar a verdade, gosto mais dos números ímpares do que dos pares. Quando ímpares e primos, são de uma imperfeição que dá vontade de continuar contando. Com o número dez, por exemplo, não é assim. Conta-se até dez e pronto, pode-se descansar, parar por ali com a sensação de dever cumprido, de conta fechada. O número dez é de um conformismo irritante. Trinta e nove não. E treze, menos ainda. Trinta e nove é três vezes divisível por treze. E as pontes de Praga, quantas eram mesmo?

- E as pontes, Zé, são bonitas mesmo?

Eu provavelmente já sabia tudo sobre elas, mas adoraria que ele me surpreendesse com uma novidade.
Link para este post

Confissão #37

Capítulo 5 - Parte II


Os anjos não cruzam pontes


Sabe quando eu acho que acontece a quebra do pacto? Quando um quer se tornar dono dos sonhos do outro. Ninguém é feliz sem os próprios sonhos, vira anjo de uma asa só. Há uma representação do amor como sendo a união de dois seres, tendo um deles apenas a asa direita e o outro, a asa esquerda. Você concorda com isso? Eu não, e trato de cuidar muito bem das minhas duas asas, pois quero poder contar com você, sem depender de você.

Eu tenho uma coleção de anjos que carrego sempre comigo. Hoje são quarenta e três e estão aqui pela casa; você vai ver. Escolhi esta casa por causa da varanda que a abraça por todos os lados. Mas sabe quando tive certeza de que era mesmo aqui que eu deveria te esperar? Quando vi um anjo enorme que estava lá na sala quando cheguei. Foi como se ele tivesse chegado antes para guardá-la para mim. Ontem vieram buscá-lo. A dona Isabel me explicou que já é tradição; há anos os donos da casa o emprestam para enfeitar a igreja na cerimônia de coroação de Nossa Senhora. Acompanhei-o e aproveitei para rezar por você, por mim, pelo amor. As crianças estavam ensaiando, e não é que eu ainda sei todas as músicas? Na verdade eu também já fui anjo. Quero dizer, de verdade, de verdade mesmo, não. Mas muitas vezes eu já fiz papel de anjo. A primeira delas, que eu me lembre, foi neste mesmo mês de maio, para coroar Nossa Senhora. Mas eu também já fui Nossa Senhora, e acho que com o consentimento dela.

Eu já estava cansada de ser apenas anjo. Comecei no cortejo, aquele que acompanha a procissão, e nas primeiras vezes gostava muito. Adorava olhar no espelho e me ver linda na túnica branca que minha mãe cuidadosamente bordava com miçangas prateadas; e com a auréola feita de plumas que pareciam mesmo flutuar sobre a minha cabeça. Eu sempre tive o cabelo assim, enrolado, e para o grande dia os cachos eram domados e enfeitados com minúsculas flores de tecido branco. Mas o que mais me impressionavam eram as asas, de penas muito brancas recolhidas durante todo o ano entre os patos e as galinhas do quintal da minha avó. Somente as brancas imaculadas eram usadas nas asas enormes, que depois eram decoradas com purpurina. Eu gostava quando as procissões eram à noite, à luz de velas. As pontas das penas, carregadas daquele pó mágico, pareciam adquirir vida própria e voar para um mundo misterioso feito de suaves nuances de prata e fogo. Um mundo revelado apenas pelo jogo de luz e sombra das velas envoltas em papel manteiga ou celofane colorido, que evitavam que a cera derretida queimasse as mãos. Eu quase nem respirava, impulso necessário no plano dos homens, mas não no dos anjos. Aos anjos cabia apenas flutuar, cantar e balançar as asas que faziam chover prateado.

Quando me achei suficientemente escolada em ser anjo, quis ascender a Nossa Senhora. Mas tinha a Elzinha, com quem até eu mesma ficava comovida durante a representação. A procissão entrava na igreja e a imagem da santa era levada até o altar, escoltada pelo séquito de anjos. A Elzinha, então, aparecia por detrás da Virgem, como se esta tivesse criado vida, e tomava seu lugar no trono ricamente guarnecido de rosas; onde era coroada senhora e mãe dos céus. Eu sentia uma inveja enorme dela, e rezava para que a santa de verdade não descobrisse isso. E procurava mil defeitos na Elzinha, como estar grande demais para o papel. Sim, era isso, e no ano seguinte estaria maior ainda, e então seria a hora de abandonar o trono.

Passado um ano, quando começaram os ensaios, eu falei com o padre, com ares de grande conhecedora, acrescentando que tinha sido Jesus a dizer “vinde a mim as criancinhas”. A Elzinha, do alto de sua loirice, de dentro de sua pele clara, feito santa de porcelana, fixou em mim os olhos azuis de Nossa Senhora e disparou:

- Quem é que já viu Nossa Senhora quase preta?! Tem graça...

Não, não tinha graça nenhuma. Uma raiva imensa fez com que eu desatasse a chorar e nem conseguisse dizer que não era preta, que era apenas morena. E que tinha os olhos verdes, e que ao nascer eles eram azuis. Não me lembrei de pecado, nem da presença de todos aqueles santos e anjos na igreja, e saí correndo depois de rogar uma praga, em voz baixa, mas bem de frente para o altar e com toda a raiva que me era permitido sentir. Eu não ia ser mais anjo, nem santa, nem nada. E a Elzinha que morresse sozinha, seca e esturricada que nem carvão.

#


- Pois é, dona Nola. Não é que a menina adoeceu? Será que sua neta não quer entrar no lugar dela?

Eu ouvia detrás da porta. Vi quando o padre entrou na casa de minha avó e imaginei que só podia ser para perguntar a razão de eu não estar indo aos ensaios de anjo.

- Mas é grave, padre Pedrinho? – perguntou minha avó.

- É sim, dona Nola. Meningite.

- Minha Nossa Senhora! Que coisa mais triste! Uma menina tão bonita...

Senti-me traída por minha avó também; até ela achava bonita a branquela da Elzinha. Mas Deus era justo e ela estava doente, bem feito. E nem adiantaria minha avó ir falar comigo como prometera ao padre, pois quem não queria mais era eu. A Elzinha que desse um jeito. E mesmo que ela, em pessoa, fosse falar comigo, eu não aceitaria, e ainda aproveitaria a oportunidade para dizer:

- Quem é que já viu Nossa Senhora de meningite? Tem graça...

Fiquei imaginando se conseguiria imitar a voz esganiçada dela. Coisa mais triste que nada; bem feito para ela! Não havia dito que Nossa Senhora tinha que ser loira, ter a pele clara e os olhos azuis? Então! Não havia mais ninguém por ali daquele jeito; pois ela que fosse, de meningite e tudo. Eu torcia para que meningite fosse uma daquelas doenças que fazia a pele ficar toda cheia de feridas, marcada para sempre com cicatrizes bem feias e escuras. E que mudasse a cor dos olhos também. E que fizesse cair cabelo. Isso! Queria ver a cara dela quando soubesse que não podia mais ser Nossa Senhora, toda marcada de cicatrizes e manchas e sem cabelos. Que assim fosse! E minha mãe, será que ela saberia me dizer se meningite causava tudo isso? Minha avó parecia saber, e fui perguntar a ela, como se não tivesse ouvido nada da conversa com o padre.

Primeiro fiquei com pena. Depois, desesperada, quando soube que a Elzinha podia morrer, que era quase certo que isso acontecesse. E a culpa era minha. Eu tinha pedido que ela morresse, na igreja, bem em frente ao altar. Com a mesma fé que pedia para tirar nota alta nas provas, e tirava; que a minha tia me levasse presentes de São Paulo, e ela levava. Eu deveria saber, minha avó sempre dizia que pedido de criança, ainda mais de criança-anjo, nem entrava na fila. Ia direto aos ouvidos de Nosso Senhor. Será que Ele me ouviria de novo? Será que Ele poderia entender que eu não tinha querido dizer morrer, morrer mesmo, que tinha sido apenas de mentirinha? Minha avó disse que sim, que a culpa não era minha, que a Elzinha já devia estar doente, se eu não tinha reparado que estava até mais pálida ultimamente. Mas eu não me conformava, sabia que a culpa era minha.

Aceitei ser Nossa Senhora e pedi que me fizessem o manto mais bonito que pudessem imaginar, mais parecido com o da imagem dela. Minha mãe, minhas avós e minhas tias, todas trabalharam até que não ficasse um só espaço daquele manto sem estar coberto de lindos bordados, pedras, brilhos e flores. E sei que mesmo não me parecendo com Nossa Senhora, eu estava linda. Tão linda que até Jesus Cristo me confundiu com ela, com a sua mãe, e atendeu meu pedido, que era não deixar a Elzinha morrer. Alguns dias depois, fui eu mesma ao hospital levar o manto de presente para ela.

Sabe que depois que me mudei de Ibiá nunca mais falei com a Elzinha? A vida acabou fazendo com que tomássemos caminhos diferentes, deixando aquela sensação de não se ter mais o que conversar. Mas quero te mostrar uma foto que ela me mandou há uns quatro ou cinco anos, da filha mais velha usando o mesmo manto em uma cerimônia de coroação. Se algum dia eu tiver uma filha, talvez o peça emprestado. Eu gostaria de passar adiante estas tradições, os rituais destas festas e as histórias que fizeram parte da minha infância. Eu adoraria saber que você algum dia já foi coroinha. Ou, quem sabe, anjo de procissão.
Link para este post

Confissão #36

Capítulo 5 - Parte I


Os anjos não cruzam pontes


Sempre fiz perguntas demais, e receio que um dia comece a me importar demasiadamente com as respostas. Não por preguiça de ir buscá-las, mas porque elas se tornam mais e mais complexas com o passar do tempo. Algumas das dúvidas que tenho hoje nem sei como classificar. Não sei a que campo pertencem, em que tempo foram adquiridas, ou mesmo se são daquele tipo quase genético. Será que você também tem as suas? Será que pelo menos consegue me entender, quando digo que acho que existem algumas perguntas que preciso ir respondendo ao longo da vida? Nada de grandes questões filosóficas, mas um teste mesmo, como se as respostas fizessem parte de um entendimento maior pelo qual um dia serei cobrada. A qualquer momento, sem aviso prévio, só serei presenteada com a etapa seguinte se puder olhar nos olhos do oráculo de igual para igual e tendo a resposta como um escudo. Só assim acho que não serei decifrada. Nunca tive medo de ser devorada, mas tenho verdadeiro pavor de que me decifrem. No primeiro caso, acaba-se tudo e pronto. No segundo, seria cruel demais continuar vivendo sem os segredos que são só meus, sem ter o direito de, ao menos, me surpreender.

Quando criança era muito fácil separar as dúvidas em três assuntos: sobre a natureza, sobre as coisas e sobre as pessoas. Nunca imaginei que mais adiante, em alguma fase da minha vida, quase não haveria mais divisão alguma. Ou várias outras, dependendo do ponto de vista, e que eu poderia relutar em colocá-las em um dos nichos da minha “Caixinha dos Porquês”. Eu tinha uma caixinhas dessas, antes mesmo de aprender a ler ou a escrever, e gostava de enchê-la com objetos e papéis relacionados a tudo que eu ainda queria descobrir. Para onde corriam os rios; que gosto teriam as nuvens; quanto tempo uma flor levava para se abrir; se as formigas tinham nomes; se os cachorros sonhavam; qual o motivo de a cadeira ser chamada de cadeira; se os sapos eram mesmo feitos de gelatina; ou porquê as pessoas não eram todas do mesmo tamanho. Não sei onde foi parar essa caixinha, mas eu queria tê-la agora comigo só para te provar que era mesmo verdade.

Sabe que um dos meus maiores sustos foi descobrir que ninguém mais tinha uma “Caixinha de Porquês”? Parecia-me óbvio que todos tivessem. Minha mãe disse que eu daria uma boa psicóloga, no dia em que tive que explicar do que se tratava, depois de ser flagrada revirando seus armários à procura da caixinha dela. Mas eu queria mesmo era ser trapezista.

#


- Mas por quê? Por que não?

C. tinha o rosto escondido entre as mãos, as costas curvadas e os cotovelos apoiados nos meus joelhos. Sentados em duas cadeiras colocadas frente a frente, já estávamos havia quase três dias sem sair da casa. Não sei quantas vezes ouvi aquela pergunta, a mesma que eu também vinha me fazendo havia muito tempo, sem obter resposta. Não há um porquê no desamor.

- Eu não sei.

Era a minha única resposta possível. Não havia um fator preponderante, mas a soma de vários. Já tínhamos conversado muito sobre isso, C. não entendia e eu não conseguia mais raciocinar direito para tentar explicar de outra maneira. Estava exausta pelas duas noites sem dormir, os músculos doídos pela constante tensão.

– Vamos embora agora? – tentei apressá-lo, antes que ele mudasse de idéia.

Permanecemos mais alguns minutos em um abraço que não queria ser desfeito. Apesar de tudo, eu ainda sentia um carinho enorme por ele. Mas era só o que restava: carinho, e talvez gratidão. Mas nenhum destes sentimentos, e nem mesmo os dois juntos, seriam suficientes para manter o namoro. E muito menos para justificar um casamento, como ele queria. Eu devia muito a C., e ele sabia disso. Aliás, ultimamente, fazia sempre questão de me lembrar. Mas quanto valia? Quanto será que vale o que damos por amor e depois queremos cobrar? Eu não sabia, apenas pensava que não podia continuar pagando para sempre. Seria um preço alto demais por algo que eu nunca havia pedido, e que enquanto pude, enquanto senti o mesmo, retribuí.

Eu só queria ir embora daquele lugar, já não agüentava as paredes, cada vez mais próximas, reduzindo o espaço onde ainda poderia restar alguma lucidez. Vivia um pesadelo, uma situação que me transformava em um ser autômato, dotado de percepção mas sem a mínima capacidade de reagir. Eu nunca poderia imaginar que C. fosse capaz de um sequestro, uma ameaça de morte e outra de suicídio.Em alguns momentos, achei que ele teria coragem, que puxaria mesmo o gatilho. O olhar era quase um prenúncio, um aviso, o estampido que antecede a bala. E logo depois, sim, o clarão, o olhar me ferindo de quase-morte, o choro suplicante e adorativo, como quem implora por um milagre. E eu sabia que milagre era aquele, que eu voltasse a amá-lo, a querê-lo. Logo ele, um ateu.

Os olhos de C. sempre me impressionaram. Lindos, de um azul que nunca mais vi igual, cristalinos. Quando saímos da casa, à luz natural, pude perceber o quanto se desgastaram, a vivacidade congelada por uma rigidez fria, como nos olhos das estátuas. Ele não chorava mais desde que concordara em ir embora, e então pude ouvir a festa egoísta que passou a acontecer dentro de mim. A caminho de casa, a arma deixada na chácara que era da tia dele, as duas mãos de C. no volante. Era como se eu pudesse novamente estar só, sem pensar no desespero dos meus pais por eu ter sumido, nos fantasmas que povoavam as lembranças e os planos de C., no casal que ele insistia em enxergar e que para mim não existia mais. Havia muito tempo que não existia mais.

Comovia-me o homem ao meu lado. Não fosse a alegria de estar viva – e a possibilidade de continuar vivendo bem longe dele - eu teria percebido ali, antes que me acontecesse de novo, que é muito maior a dor de quem é amado e não consegue retribuir, do que a de quem ama. É ingrata a culpa de possuir algo que o outro tanto quer, e ter que negar. Mas eu não poderia ceder, não de novo. Já tinha terminado o namoro inúmeras vezes e outras tantas acabava voltando. Não suportava vê-lo chorar e fazer promessas que eu sempre soube que não ia cumprir, aceitando esquecer o que eu tinha feito para afastá-lo de mim. Tudo isso, essa submissão, esse querer viver o amor a qualquer custo, fazia com que eu me afastasse ainda mais. Não era uma atitude digna do homem pelo qual eu tinha me apaixonado. Não era mais alguém que merecia o meu amor, era alguém que o exigia. Um amor sobre o qual nem eu tinha controle; eu não escolhi deixar de amá-lo, e nenhum de nós dois tinha culpa disto. Não merecíamos prolongar mais o sofrimento.

Fiz muita coisa errada sim, mas quem não tem o direito de errar aos dezesseis, dezessete anos? Muitas vezes menti e fiz questão de que ele descobrisse. Saí com outros homens e deixei que chegasse aos ouvidos dele. Algumas vezes C. me questionou, eu falava sobre o desamor e ele insistia que era uma fase, que ia passar, que estaria sempre ao meu lado e tudo ia ficar bem. Outras vezes fingia não saber de nada. Hoje sei que agi errado, que queria transferir para ele uma responsabilidade que era minha, a de querer terminar. Ou melhor, terminar eu até terminava, mas não conseguia manter a decisão. E não tinha coragem de dizer que era por dó que eu sempre voltava atrás, dó daquele homem que eu já havia admirado e amado tanto; e que ainda há pouco estava ali na minha frente, frágil, humilhando-se, querendo se agarrar a uma situação passada, sem volta. Muitas vezes pensava que eu também não merecia não poder fazer com que minha vontade prevalecesse, e traía-o até sem vontade, por pura vingança. E ele não reagia.

Até aquele momento não tinha reagido, porque bem ali estava a reação desesperada. Depois de abandonar o emprego C. me seguia o tempo todo. Dirigia atrás do ônibus que me levava ao colégio, ficava até altas horas dentro do carro estacionado na esquina da minha casa, até ter certeza de que eu não sairia mais. Até então eu achava que era só dar um tempo e tudo aquilo ia passar, ele se conformava e cada um seguia sua vida. Ele arrumaria novo emprego e ia tratar de se feliz. Eu passaria no vestibular e mudaria de cidade. Nunca mais nos veríamos.
Link para este post

Confissão #35

Capítulo 4

A revolta margem dos sentimentos interiores


“A maresia oxida os sentimentos”. Se eu pudesse, roubava esta frase do Zé.
- Sangria! Nunca ouviu falar?
O Zé olhava para o próprio peito, de onde escorria um filete de sangue. Tinha acabado de passar um caco de vidro sobre a pele lisa e repuxada da cicatriz - ou tatuagem, como ele a chamava - bem em cima da letra L. Devia fazer isto várias vezes, pois, observando melhor, dava para perceber a marca antiga recortada por inúmeras linhas avermelhadas, como um relevo ainda mais saliente. Eu sentia uma grande aflição ao olhar para o peito do Zé, mas não conseguia deixar de fazê-lo. Era como se fosse o prenúncio de algo que estava para acontecer, qualquer coisa que eu não sabia bem o que podia ser, como a pele se romper sozinha, por exemplo. A minha amorragia era interna, e, de certa forma, eu traçava um paralelo com aquela do Zé, cravada no peito, tão à mostra, cruelmente natural e ostensiva. E não gostava das semelhanças.
Ele passava o dedo com força sobre as marcas. Com força e lentamente, sem esquecer uma letra, como quem quer dar cores novas a um desenho desbotado. As marcas eram saltadas e a pele muito fina, esticada, como se debaixo dela tivesse sido injetado algo gelatinoso que a mantinha despregada do resto do corpo. Formavam-se rugas logo à frente do ponto pressionado, rugas que iam se movendo em cadeia, como dunas empurradas pelo vento e se empurrando umas às outras até alcançarem a extremidade de cada letra, o ponto onde só então a pele voltava a fazer parte do corpo do Zé.
- Quando ela chegar, isso tudo aqui vai sangrar sozinho. Mas não de dor, entende?
O Zé disse isso precedido de um sorriso, o que me causou ainda mais mal estar. Definitivamente não estávamos em sintonia, apesar da saudade e da vontade de conversar que eu sentia. Eu queria fazer da espera algo suave, alegre até, e às vezes o Zé era amargo demais. Será que a maresia oxida mesmo alguns sentimentos?
Tenho certeza de que o Zé percebeu o meu desconforto e talvez esse fosse seu jeito de dizer, sem precisar dizer, que queria ficar sozinho. Respeitei, embora eu precisasse de companhia, nem que fosse para ficar em silêncio. Talvez principalmente para ficar em silêncio.
Acho que há um tipo muito especial de sentimento entre pessoas que não têm a necessidade de quebrar silêncios. Um pacto com a presença, apenas com a presença, sem precisar justificá-la. Embriaga-se e farta-se da presença do outro, e fica-se tão satisfeito dela que tudo mais, que todos os outros sentidos e todas as outras necessidades, tudo é adiado. Tudo cede forças para que flua melhor a dança invisível e prazerosa, quase erótica, que faz com que duas almas troquem de lugar, silenciosamente. A ponto de não saberem mais se pertencem a um corpo ou a outro. Isso acontece em silêncio e é tão natural entre duas pessoas que se amam que elas quase não percebem. Captam no ar um mistério e de vez em quando se olham, e sorriem, e fazem um carinho descuidado e se perdem um no outro. Dizem que algumas almas nunca mais encontram o caminho de volta. Acho que a minha já nasceu contigo, e às vezes eu quase não agüento mais a solidão que isto me causa, a urgência em revê-la.
Você já pensou se a explicação para o amor for essa mesma? Se por engano, castigo, desígnio, brincadeira, ou seja lá o que for, a alma de um vai morar no corpo do outro? Eu parto do princípio de que você acredita em almas. Mas, se não acredita, como se explica isso que eu trago aqui dentro do meu corpo e que parece não me caber? Nos dois sentidos, não caber nos dois sentidos. Primeiro, porque parece não ser minha. Às vezes maior, às vezes menor, e nunca um encaixe perfeito, há sempre frestas ou encolhimentos, a necessidade de calços ou a sensação sufocante de falta de espaço. Há um desencaixe, uma insatisfação, uma vontade de sair buscando algo que deve morar contigo. E eu só queria ter sido sempre feliz, muito mais feliz – digo muito mais no sentido qualitativo -, para, quando te encontrar, poder dizer:
- Toma, essa daqui é sua. Olha só como cuidei bem dela...
Eu nem consigo imaginar a hipótese de você não ter feito o mesmo por mim; e de talvez não vir porque não quer me devolver uma alma capenga. Involuída, despreparada, imberbe demais para saber o que a faz feliz. E você sabe que eu não agüentaria ter que fazê-la andar por todos os caminhos nos quais já fui com a sua. Quando você chegar eu gostaria de receber uma alma velha e malandra, uma alma experimentada e testada quase à exaustão. Daquelas que correm riscos, que aceitam desafios porque se sabem superiores a eles.
Lembra de que já te falei sobre querer que o nosso encontro seja uma grande estréia? Agora isto faz ainda mais sentido: estaremos estreando as almas que estivemos tecendo um para o outro. A minha alma já conhece seu corpo e vai saltar confiando que você vai segurar a minha mão. E eu nem quero pensar no medo que tenho de não ser assim, porque eu preciso muito que seja. E você precisa confiar em mim, confiar que serei leve, muito leve.
Eu tenho o dom do trapézio desde muito cedo. Nos circos da minha infância sempre foram para os trapezistas os meus aplausos mais efusivos. E talvez hoje, apenas hoje, eu entenda porque os trapezistas quase sempre eram da mesma família. Para que saltassem com mais segurança haveriam de estar presos por laços mais fortes do que os dos braços que se procuravam no ar. Precisavam confiar um no outro, mortalmente. Saltava-se com a plena confiança de que o outro estaria lá, naquele lugar, com a necessária força e o impulso certo para amparar o salto no escuro. Nenhum segundo a mais, nenhum segundo a menos. Eu penso que o amor é assim, e há muito tempo tenho aumentado a velocidade do balanço, aproximando-me mais e mais de você. E chegada a hora, frente a frente, para que o espetáculo continue tendo graça, vamos ter que saltar. Sem hesitação. Primeiro um, e logo em seguida o outro. Eu saltaria na frente, como já fiz tantas vezes antes.
Tenho a sensação de que sempre salto primeiro. Sou quem ama mais, quem ama primeiro, quem dá o salto no escuro sem saber se o outro vai enxergar. Você já percebeu quanto tempo dura um “ainda não”? Um “tirar a mão”? O tempo de uma hesitação, um segundo sequer em que o outro não confia no salto, é longo demais para um coração que já saiu do peito e não tem mais como voltar antes de se consumir. Ele faz um barulho imenso, e sangra, e grita, até implodir. Eu trago no peito um coração assim, que carrega o estrago de ser amado atrasado, sempre um compasso à frente, batendo desafinado. Prenhe que sempre esteve da necessidade de um novo amor.
Talvez a culpa seja dele mesmo, desse meu coração, pois sempre me impulsionou a ter pressa em viver. Como se algo urgente e derradeiro fosse acontecer e antes disso eu tivesse todos os prazos a cumprir. As horas a correr num relógio que não obedece à contagem de tempo a que estamos acostumados, mas que o atropela com saltos perigosos, com grandes recuos, como um exímio acrobata sobre uma corda bamba. Um relógio de corda. E para quê? Para que tudo se passasse rapidamente e eu pudesse finalmente estar aqui para cumprir meu destino: você. O mesmo que, de certo modo, me ensina a arte da espera. E eu só preciso que essa espera faça tudo valer a pena.
Link para este post

Confissão #34

Capítulo III – Parte III

Amorragia


Aos doze anos, quase treze, eu era uma das poucas na turma que ainda não tinha dado beijo na boca; não queria beijar qualquer um só por beijar. Queria um daqueles beijos dos livros da minha mãe, os livros que ela não sabia - ou fingia não saber - que eu lia às escondidas. Daqueles sim, valia a pena, não um beijo bobo como o de M., sem graça, sem jeito, com gosto de saliva. Vai ver era tudo mentira dele, que nunca tinha beijado alguém, senão saberia como é que se faz. E eu precisava dizer isso para ele, precisava mostrar que a “carola” entendia muito mais de beijos do que ele que fazia questão de sair espalhando para todo mundo que já tinha perdido a conta de quantas meninas havia beijado. Todas mais velhas do que ele, inclusive uma amiga da mãe. Será que nenhuma fora capaz de ensiná-lo a beijar?
Eu seria. E para isso reli todas as cenas de beijo dos tais livros escondidos; treinava diante do espelho o que fazer com as mãos, com a cabeça, com os lábios. E se ele ficasse quieto, até com a língua eu beijaria, bastava não pensar no gosto da saliva. Afinal era uma lição, e eu não ficaria com nojo. Comecei beijando o espelho, de olhos abertos para ver como é que eu ficava beijando. Depois, na mão, de olhos fechados. E, finalmente, em uma boneca. Até pude sentir M. ali, quieto, admirado, gostando de receber o melhor beijo da vida dele e reconhecendo que realmente nunca tinha beijado antes.
- Elisa, aperta os meus olhos quando for o M.? – segredei, enquanto brincávamos de “beijo-abraço-aperto-de-mão”.
Era minha vez, o que raras vezes acontecia, porque eu achava aquela brincadeira uma criancice. Com os olhos vendados pelas mãos de Elisa, eu teria que escolher alguém ao acaso enquanto ela ia apontando todos os que estavam sentados em círculo ao nosso redor. Perguntava “É esse?”, “É esse?”, até que eu dissesse que sim. Então perguntava se seria beijo, abraço ou aperto de mão. Era M., se é que eu podia confiar em Elisa. Confiei.
- Beijo!
Ignorei comentários como “Quer repetir, einh?”, “Falou que não gostou, mas quer de novo” e mais outros gracejos. M. não dizia nada, apenas parecia nervoso e sem entender direito o que estava acontecendo. Eu não fingi surpresa, não fiz cara de nojo, nem dei risinhos histéricos esperando por “Escolheu, agora vai ter que beijar”. Eu beijei de língua e tudo, um longo beijo tantas vezes ensaiado, e retribuído por M..
Anos depois, quando passei umas férias na cidade onde ele preferiu permanecer, confessou-me que aquele ainda era o melhor beijo que tinha recebido na vida. Rimos muito quando ele disse que eu não tinha me saído nada mal para uma carola.
Mas M. não soube e nunca saberá o quanto eu chorei depois daquele dia. O quanto fazia falta até mesmo a sua prepotência, as suas infantilidades, a sua burrice. O quanto eu me odiava por sentir essa falta e como era difícil fingir que não percebia, ou que não ligava a mínima para os olhares dele, para as outras pequenas gentilezas que eu fazia questão de ignorar. E até o quanto eu me esforçava para não achá-lo cada vez mais imaturo. Mas nunca me arrependi, M. roubou meu primeiro beijo e eu retribuí com o último que ele gostaria de receber. Doía em mim também essa segunda amorragia. E quando estancou já havia uma barreira própria da idade, aquela que separa os moleques de treze anos das mocinhas da mesma idade. Aquela que faz com que uma mulher ensaie poses diante do espelho enquanto os meninos ainda brigam por nada num jogo de figurinhas.

#

Sinto falta do Zé, mas a chuva não dá tréguas para que eu o encontre na praia. Apenas a companhia do mar, o mar agoniado que também se bate de um lado para outro, açoitado por milhões, bilhões, trilhões de pingos d’água. O mar que desconta sua fúria nos barcos de pescadores, colocando à prova a força das amarras. Nestas horas penso no quanto a solidão é monocromática nas suas variantes de um cinza sem graça, a mais perfeita moldura para a sua ausência.
Foi num dia assim, não sei se cinza por fora, se por dentro, sentindo a ausência de M., que dei de cara com a poesia. Digo “dar de cara” porque foi mesmo esta a sensação, de estar andando distraída, virar uma esquina e esbarrar em alguém desconhecido: a poesia. Nos olhamos por um instante e eu me senti incomodada com a familiaridade que ela parecia ter comigo. Era irônica, altiva, dona de um segredo meu que nem eu sabia existir. Houve então uma breve hesitação, eu não sabia se podia confiar, se ela insinuava verdades, com que palavras explicaria aquele seu jeito de saber de mim. E ela sabia o que me faltava, o que não existia em mim antes de ser traduzido por suas palavras. Agarrei-me à poesia tal qual criança com medo do escuro, para que ela me pegasse pelas mãos e me apresentasse a quem já tinha vivido o bastante para poder dizer o que eu apenas pressentia.
Há algo sobre poesia que eu só descobri quando ela me consumiu tanto que quase desapareci. Deixei que me descascasse uma a uma todas as máscaras, todas as peles, até chegar a um oco tão fundo dentro de mim que nem eu sabia que seria capaz de possuí-lo. Um oco, um núcleo, um ponto que a nada resistiu, pois em sua selvagem existência, a nada sabia resistir, como uma mata tão fechada que nunca tinha sido atravessada por um raio de sol. E a poesia foi esse raio, que ele não tentou compreender, pois seria como explicar a uma criança que as estrelas não estão coladas ao céu, ou covardemente dizer a dois amantes que a lua não se importa com eles. Vai-se ao encontro da poesia como quem voa com asas de cera rumo ao sol. Ou não se vai. E quando a cera começa a derreter e sentimos que para nos amparar há apenas os braços da morte, a poesia gentilmente nos recolhe, e vai nos recompondo em camadas que se sobrepõem, como as daquelas bonecas russas, e deixa do lado de fora, preso pelas sucessivas frinchas, o desejo de voltar a ela, de se mudar frágil e inconseqüente para dentro dela. Acho que assim também é o amor.
E quando você chegar eu vou chamar de poesia a vontade de morar no seu abraço.
Link para este post

Confissão #33

Capítulo III – Parte II

Amorragia


- Seu porco! Nojento!
Senti muita raiva de M., enquanto esfregava o dorso da mão com toda força sobre a boca. Ele tinha acabado de me beijar. Um beijo que eu tentava apagar da pele, já que da memória sabia ser impossível. Ele tinha estragado tudo, estragado meu primeiro beijo.
– Vai beijar o Martin Luther King, seu idiota!
Acho que ele também se assustou; não esperava pela minha reação. Talvez até esperasse um tapa, mas não um tapa dado com as palavras. Corri para casa e chorei por horas. De raiva, muita raiva, sentindo-me roubada em algo que eu guardava com carinho para dar a alguém de quem realmente gostasse. E M. o tinha pego assim, do nada, por pura vingança, para sair dizendo que já tinha beijado a “carola”. E nem beijar direito ele sabia, era uma coisa sem graça, babada, mole... Nojenta!
O pior era que eu sabia que tinha me beijado não por gostar de mim, mas para se vingar mesmo. Só por causa da redação, queria descontar só porque tinham rido dele. Fiquei com muita raiva de mim também, que deveria ter ignorado o bilhete, amassado e jogado de volta para ele. Ou ter feito um barquinho e atirado para as crianças empurrarem ladeira abaixo, na enxurrada. Mas não, eu li e acreditei que M. realmente queria se desculpar, ser meu amigo, parar com aquelas brincadeiras, que ele realmente não ia nunca mais me chamar de “carola”. Acreditei que isso estivesse mesmo preocupando-o a ponto de ele não conseguir escrever nada sobre “Eu tenho um sonho”, e como prova de que eu o desculpava, pedia minha ajuda. E eu acreditei. Fiz para ele a redação, caprichei mais do que na minha e mandei de volta no momento em que a professora não estava olhando. O mais rápido que pude, para que ele tivesse tempo de passar a limpo com calma, antes de entregar. E o cínico ainda me olhou, com a cara mais agradecida do mundo, um olhar que guardei por um bom tempo, como se nele houvesse gratidão, ou mesmo alguma ternura.
Não tínhamos ficado amigos, mas demos uma trégua. De vez em quando eu imaginava perceber até algum carinho nas poucas palavras que trocávamos. E ele tinha uns olhos azuis muito lindos, nos quais eu nunca tinha reparado de perto, e me olhava de uma maneira diferente; pelo menos eu achava que sim, como se aquele insensível fosse capaz disso. Um falso: é o que ele era. Mas um falso muito mais burro do que eu poderia imaginar.
- M., fale-nos um pouco mais sobre Martin Luther King – era a professora, dias depois, pedindo a ele que falasse do que eu tinha escrito na redação.
- Sobre quem? – ele se levantou, tentando colocar na pergunta o tom jocoso e desafiador que fazia toda a classe ficar do lado dele, quando enfrentava os professores.
- Sobre Martin Luther King – ela repetiu, com um tom de ironia que não era habitual.
Tenho quase certeza de que naquele momento a professora olhou para mim. Gelei. Ela sabia.
- Quem é esse? Algum cantor de rock ?
A classe inteira caiu na gargalhada, e mais ainda quando M. subiu na cadeira e imitou os trejeitos de Elvis.
- A senhora gosta de rock, irmã Lúcia? Elvis, the pelvis...
Esta última frase M. acrescentou baixinho, de costas para a professora, fazendo delirar a fiel platéia. Irmã Lúcia, tentando controlar a bagunça, batia nervosamente com as costas do apagador sobre a mesa. M. fez então um gesto para que todos se calassem e prestassem atenção à irmã “Lucy... in the sky...”. Ela esperou que a classe saísse da histeria coletiva, enquanto procurava pela redação de M. entre os textos corrigidos. Com a folha nas mãos se aproximou dele e disse em um fôlego só, sem esperar respostas:
- Senhor M., essa letra é do senhor, não é?! Esse nome é do senhor, não é?! Eu só esperava que o senhor pudesse nos falar um pouco mais sobre Martin Luther King, já que no dia da redação demonstrou conhecer tão bem um famoso discurso dele!
Eu deveria ter imaginado que o idiota tinha passado a redação a limpo sem ao menos prestar atenção ao que estava escrito nela.
- Quer que eu leia sua redação para refrescar a sua memória, senhor M.? – continuou irmã Lúcia, enquanto a classe se perdia no habitual silêncio dos vencidos, dos idiotas como M.. – Quer que eu leia ou o senhor agora já é capaz de se lembrar sozinho quem foi Martin Luther King?
Cheguei até a sentir alguma pena, percebendo os olhares sobre ele perderem quase toda a admiração. Se M. olhasse para mim naquele momento eu seria capaz de confessar, mas ele manteve a cabeça baixa. Irmã Lúcia não se calava:
- Vai me dizer quem escreveu isso, que o senhor teve a displicência de copiar sem ao menos prestar atenção? Ou vai me dizer que o próprio Martin Luther King – frisava bem o nome, saboreando cada sílaba, no mesmo tom em que ele tinha dito “Lucy in the sky” –, o próprio Mar-tin Lu-ther King foi quem a ditou para o senhor?!
Nas mãos de irmã Lúcia, a poucos centímetros do rosto de M., estava a redação, sem merecer sequer um comentário, maculada apenas por um enorme zero em tinta vermelha. Ela então a colocou sobre a carteira dele e, com a caneta, circulava todas as vezes que ele tinha escrito “Mar-tin Lu-ther King”, repetindo-o numa voz monótona e irritante.
Eu achei que M. me entregaria naquele momento. Mas olhando melhor para ele percebi que se abrisse a boca seria para chorar. Devia sentir muita raiva por estar sendo tão humilhado na frente de todo mundo; não estava gostando nem um pouco de provar do próprio veneno. Irmã Lúcia não parava de falar, agitando as mãos miúdas, arrastando os pés em volta da carteira de M.:
- Onze vezes! Onze vezes ele aparece aqui e o senhor ainda vem me dizer que não sabe quem é Martin Luther King? Diga-me, senhor M., devo mandá-lo à diretoria ou ao confessionário?
Eu não sabia o que fazer, tinha certeza de que irmã Lúcia sabia quem tinha feito a redação, mas eu não tinha coragem de confessar. Pensava que se me acusasse logo o castigo poderia ser mais brando; mas não era justo, pois eu me sentia tão enganada quanto ela. Só que, ao contrário de mim, ela tinha percebido. Eu não, não percebi que M. estava apenas fingindo a trégua para se aproveitar de mim, e a decepção já era castigo suficiente. Eu não merecia mais um que, com certeza, seria dado pela irmã Lúcia caso eu me acusasse. Além do mais, eu nunca poderia imaginar que M. não soubesse quem era Martin Luther King. E muito menos que, mesmo não sabendo, deixaria de se inteirar do assunto depois de entregar a redação. Eu mesma poderia ter dito muitas coisas a ele, coisas que aprendi nas inúmeras horas de leitura na biblioteca das freiras. Mas não, ele preferiu assinar calado o próprio atestado de burrice, então achei melhor não falar nada e ser solidária à ignorância dele.
- Pense um pouquinho, senhor M., e talvez até o final da aula o senhor consiga se lembrar de quem foi Mar-tin Lu-ther King - irmã Lúcia estava transtornada.
Ainda tentei brincar comigo, que aquilo sim devia ser a ira divina, quando ela me olhou e pareceu ler meus pensamentos. Ela sabia, e a próxima vítima seria eu. Já estava me preparando para mudar de idéia e contar toda a história, quando ela foi caminhando na minha direção. As sapatilhas arrastadas no assoalho de madeira, minha redação nas mãos. Colocou a folha sem um comentário sequer sobre a minha carteira. Deve ter percebido o meu pavor e tomado consciência do quanto já tinha sido cruel com M.. Tenho certeza de que se ele não a tivesse irritado tanto, sobraria para mim também. Ela descarregou sobre ele todas as palavras e todas as ironias que tinha escolhido para repartir entre nós dois.
- Senhor M., se o senhor quiser ir se lembrar lá fora, esteja à vontade. Mas o quero de volta antes do fim da aula, all right? A classe quer saber quem é, ou melhor, quem foi Mar-tin Lu-ther King. Olha só que dica preciosa, senhor M., o senhor já sabia da morte dele? Sabia?!
Irmã Lúcia distribuiu todas as redações junto com um ou outro comentário para algum aluno, e depois me mandou ir perguntar algo à Madre Superiora. Nem me lembro mais o quê, nem sei se prestei atenção; provavelmente teria que voltar para perguntar caso tivesse encontrado a Madre.
- Mas a irmã Lúcia sabe que a Madre Superiora nunca está aqui de manhã... – foi a resposta que recebi na diretoria.
Sim, ela sabia. Procurei M. e o encontrei sentado sob a escada que subia do pátio para o primeiro andar. Com a cabeça escondida entre os joelhos, ele não se mexeu, não disse uma palavra, não deu um sinal sequer de que estava ouvindo tudo que eu lhe dizia sobre Martin Luther King. Minutos depois estava frente à classe, falando do que se lembrava. A irmã Lúcia disse que na redação ganhara nota zero, mas que ele podia tentar recuperar fazendo um trabalho sobre grandes líderes da história da humanidade. Fizemos juntos. Eu, agradecida por ele não ter me entregado; ele, embora um pouco estranho comigo, agradecido pela minha solidariedade, enquanto recuperava aos poucos a popularidade abalada. Estivemos muito juntos naqueles dias, até que ele voltou a ser o mesmo M. de sempre, cercado de fiéis admiradores. Um tonto!
Até o dia do beijo, no intervalo entre as aulas e na frente de todo mundo. Ele se aproximou e, sem uma palavra sequer, passou uma das mãos por trás da minha cabeça, segurou-me com força e me beijou. Estragou tudo, tudo, tudo. Um lindo idiota, foi o que achei que ele era! Na atrapalhação de me soltar da pressão que ele fazia com a boca sobre a minha, ainda cortei o lábio inferior pelo lado de dentro. Aquele corte latejou por horas, ardendo ainda por mais alguns dias ao contato com alimentos muito ácidos, ou muito frios, ou muito quentes. As gracinhas dos colegas de escola, os curiosos querendo saber como era beijar, tudo isso fazia crescer ainda mais minha raiva por ele. Justo quando eu começava a achar que ele nem era tão idiota assim. Mais idiota era eu por ter me deixado enganar por aquela carinha de anjo. Tinha até pensado em namorá-lo, talvez, quando crescêssemos mais, é claro. Sim, ele poderia ter sido um bom namorado, às vezes até me tratava como se já fosse. Mas um beijo assim?! Roubado na frente de todo mundo? Se eu soubesse o que ia acontecer, talvez acabasse até gostando. Um beijo na boca...
Link para este post

Confissão #32

Algumas notícias recebecidas via PublishNews durante a semana. Confesso que acompanho com muito interesse a do J.T.Leroy, é incrível a farsa que conseguiram montar. Vocês têm acompanhado? O início está aqui, mas há vários desdobramentos. No blog do Santiago Nazarian, que traduziu as obras do/a autor/a para o português, e que o/a encontrou pessoalmente, há alguns posts antigos sobre isso. Há muito tempo estou querendo fazer um post sobre isso, sobre a ficcionalização da persona do escritor, mas não sei se vai sair. Nesta semana estourou o caso do James Frey, que tem mexido com a credibilidade da Random House.


06/02
A verdade em um milhão de pedacinhos
O Globo - 4/2/2006 - por Helena Celestino
Já tinha acontecido nos jornais, nos reality shows das televisões e agora chegou ao mundo dos livros, semeando o pânico entre as editoras americanas. História semelhante à de Jayson Blair, o repórter que abalou a credibilidade do "New York Times" ao ser desmascarado inventando reportagens, acaba de se repetir na Random House, a gigante editorial de Nova York. O site Smoking Gun descobriu que o livro de memórias Um milhão de pedacinhos (editado no Brasil pela Objetiva em 2003) estava longe de ser o relato fiel do passado do seu autor James Frey como a editora afiançara, ao etiquetá-lo como obra de não-ficção. Carro-chefe da Random House, o livro vendeu 3,5 milhões de exemplares desde que há três meses a apresentadora de televisão Oprah Winfrey o recomendou a seus leitores como um inspirador exemplo de redenção após uma descida ao inferno do mundo das drogas, com trágicas passagens por prisões e clínicas de reabilitação. Só que muitas das bombásticas histórias, que comoveram os leitores, eram inventadas. "Eu queria que as histórias no livro fluíssem, tivessem um arco dramático, a tensão que todas as grandes histórias requerem. Alterei os eventos ao longo de todo o livro", reconheceu o autor numa nota divulgada na quinta-feira, que passará a acompanhar as edições futuras. As livrarias foram rápidas e já colocaram o livro na companhia do novo policial de P.D. James e de romances recém-lançados.

Novas Fronteiras
O Globo - 4/2/2006 - por Manya Millen e Rachel Berthol
A No Prelo informa que, depois de tempos sem investir em novos nomes de autores brasileiros contemporâneos, a Nova Fronteira dá sinais de mudanças no horizonte com uma contratação algo surpreendente para quem detém um catálogo de perfil mais tradicional: Santiago Nazarian, jovem paulistano de ar e literatura underground, acaba de entregar um romance à editora carioca. O livro, ainda sem título, é o quarto romance de Nazarian e deverá ser publicado no segundo semestre, provavelmente a tempo de pegar a Festa Literária Internacional de Paraty, que começa dia 9 de agosto.

Sexo on-line
O Globo - 5/2/2006 - por Joaquim Ferreira dos Santos
Joaquim Ferreira dos Santos informa que o efeito Bruna Surfistinha, o fenômeno literário da temporada, continua dando frutos. O jornalista Pedro Dória, que foi o primeiro a falar da moça na mídia através do site Nominimo, lança depois do carnaval o livro Eu gosto de uma coisa errada, pela Ediouro. Pedro, conta o colunista, dá uma geral no sexo que rola, e como rola, na internet.


07/02
Editoras vão à internet para fisgar os mirins
Gazeta Mercantil - 6/2/2006 - por Regina Neves
Esta é a estratégia para que o público infanto-juvenil tenha mais interesse em ler. Dentro da velha e boa teoria de que para os negócios irem para frente o importante é ir atrás do cliente onde ele estiver, as editoras brasileiras de literatura infanto-juvenil descobriram na internet uma excelente ferramenta de marketing para atrair seu público-alvo que, reconhecidamente, passa mais tempo diante do computador do que lendo um livro. A solução foi criar sites para abrigar personagens de livros de sucesso como o campeão de vendas Harry Potter, editado no Brasil pela Rocco ou o Smilingüido, uma formiguinha evangélica responsável, hoje, por 90% do faturamento da editora curitibana Luz e Vida, que foi de R$ 11 milhões no ano passado e deve chegar a mais de R$12 milhões este ano. Garantem as editoras que a estratégia tem dado certo e os sites estão atraindo o jovem também para as livrarias.


08/02
JT Leroy não é homem nem mulher. Ele não existe.
O Globo - 8/2/2006
JT Leroy é um escritor pop, cuja obra retrata com detalhes os mundos cruéis da prostituição infantil e das drogas, e que gosta de andar pela rua vestido de mulher - como se viu na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) do ano passado. Quer dizer, na verdade aquela figura que se viu na cidade colonial era de fato uma mulher, chamada Savannah Knoop (seria este seu nome verdadeiro?), e não um ex-prostituto traumatizado da zona rural de West Virginia que se escondia do mundo sob uma peruca. No fim das contas, também não é bem assim: segundo o jornal "The New York Times" de ontem, o que restava de mistério sobre o escritor foi desfeito com as declarações de Geoffrey Knoop, meio-irmão de Savannah. Ele confirmou que JT Leroy é, na verdade, o pseudônimo usado por sua ex-mulher, Laura Albert, ao escrever livros. Em vez de usar um nome fictício, Laura de fato criou um personagem: ela até dava entrevistas por telefone como se fosse Leroy, imitando a voz de um jovem e o sotaque de West Virginia. Para as ocasiões em que "o escritor" tinha de aparecer publicamente, o casal teve a idéia de usar a jovem Savannah, de peruca e óculos escuros. Assim, Laura e Knoop enganaram dezenas de pessoas, inclusive os editores dos livros e pessoas que se achavam amigas de Leroy, e que o apoiaram quando ele declarou que seria soropositivo. "Peço desculpas às pessoas que magoamos", disse Knoop na entrevista. "Estou revelando a verdade por consideração a meu filho e a todos os envolvidos." Depois de 16 anos de casamento e quase dez de pantomima, Laura e Knoop estão separados (a briga se deu em grande parte porque os dois não agüentavam mais sustentar a mentira, segundo ele), e envolvidos em uma batalha jurídica pela guarda do filho. Ele disse que passou os últimos anos tentando convencer a mulher a assumir que era a verdadeira autora dos livros, ou pelo menos a deixar que Leroy caísse no esquecimento, mas ela se recusou. As declarações de Knoop vão desmascarar uma das maiores fraudes da história da literatura. "Para Laura, isso não é uma farsa", disse ele. "É algo pessoal, é parte dela." Leia mais.

Sob nova direção
O Globo - 8/2/2006 - por Ancelmo Góis
Ancelmo Góis sentencia: está no corredor da morte a "Revista de História", xodó da antiga administração de Pedro Corrêa do Lago na Biblioteca Nacional. A continuação do projeto, segundo o colunista, enfrenta chuvas e trovoadas de várias procedência.

Grande Sertão, 50
O Globo - 8/2/2006 - por Joaquim Ferreira dos Santos
Joaquim Ferreira dos Santos relata aos leitores que o 50 anos do lançamento de Grande Sertão - Veredas serão comemorados em grande estilo pela Nova Fronteira. A editora vai lançar na Bienal uma edição especial com a última revisão feita por Guimarães Rosa antes de a reforma ortográfica corrigir erros que o escritor havia cometido propositalmente. Rosa, por exemplo, escrevia "dansar" porque achava que a cedilha do C funcionava como um anzol prendendo a palavra à linha. O colunista conta ainda que o livro terá capa de Bia Lessa e um CD com Maria Bethânia lendo as 14 páginas finais do livro, onde o autor conta a morte de Diadorim.


09/02
Google faz palestras para atrair editoras brasileiras
Valor Econômico - 9/2/2006 - por Tainã Bispo
O "Programa Google para pesquisa de Livros", lançado no início de 2005, está buscando novos parceiros no mercado brasileiro. Durante esta semana, Marco Marinucci, gerente de desenvolvimento de parceiros estratégicos, está no país, promovendo palestras sobre o projeto em São Paulo e no Rio de Janeiro. Sua missão é convencer os empresários do setor de que o projeto é uma ferramenta de busca confiável e que pode auxiliá-los na divulgação de seus catálogos. Os editores brasileiros estão cautelosos. Até agora, apenas as editoras Callis e Senac participam do programa, que ainda não tem uma versão em português. Para fazer parte do projeto, as editoras precisam, apenas, enviar as obras para o Google. Depois disso, a empresa americana irá digitalizar os livros e colocá-los na internet. O usuário poderá acessar até quatro páginas de uma obra. Segundo o executivo, mais de 10 mil editoras já fazem parte do projeto, e "centenas de milhares" de livros já foram digitalizados. Eduardo Blücher, coordenador CBL Tech - grupo que estuda novas plataformas para vender conteúdo -, diz que "a ferramenta é boa, porém há limitações na forma como os livros são tratados". O programa (www.books.google.com) é composto pelas obras enviadas pelas editoras parceiras e também do acervo de algumas bibliotecas, como das universidades de Harvard e de Michigan. Em 2005, o Google foi alvo de críticos, que temiam que a empresa não fosse respeitar os direitos autorais das obras catalogadas das bibliotecas. "Os usuários têm acesso completo somente aos livros de domínio público. O restante, nós mostramos, no máximo, duas linhas da obra", diz Marinucci

Fundação Telefônica lança primeiros Livroclips do Brasil
PublishNews - 9/2/2006
O portal de educação da Fundação Telefônica, o EducaRede, www.educarede.org.br, passa a disponibilizar ao internauta, a partir desta semana, um livroclip da obra-prima de Machado de Assis, Dom Casmurro. O título será o primeiro de uma série de livroclips - espécie de trailer de um livro - de obras mundialmente consagradas que passam a fazer parte da área de Biblioteca do portal. A iniciativa é resultado de uma parceria entre o EducaRede e o site Canal do Livro, que é criador da animação. O objetivo é estimular a leitura, sobretudo entre os jovens, de livros imprescindíveis para sua formação escolar. A cada mês será lançado um novo livroclip, para figurar ao lado das resenhas literárias, biografias de autores e livros para download, já disponíveis na Biblioteca do portal. Os livroclips funcionam como uma espécie de convite à leitura. Foram utilizados recursos de imagens e sons que fazem parte do universo do jovem e que revigoram os clássicos da literatura. O acesso é simples e gratuito. Dentro da área da Biblioteca, o internauta poderá clicar no link do livroclip, que abrirá em forma de pop-up. A animação foi desenvolvida em Flash, para que o arquivo possa ser facilmente acessado mesmo que numa conexão discada. Depois de Dom Casmurro, serão lançados Crime e Castigo, Dom Quixote, Divina Comédia - O Inferno, e Os Lusíadas, entre outros.


10/02
Livros na internet
O Globo - 10/2/2006 - por Ancelmo Góis
Ancelmo Góis conta que dois diretores do Google foram ontem à Biblioteca Nacional e propuseram digitalizar as obras de domínio público do acervo. Segundo o colunista, a biblioteca vai levantar o número exato de livros para que o site faça uma proposta final.

Inteligência Ltda.
Portal Literal - 9/2/2006
Divulgar livros de forma simples e barata, do autor ao leitor. Essa é a saída proposta pelo site Inteligência Ltda. para escritores independentes exporem suas obras e entrarem em contato direto com os leitores. O serviço de divulgação é gratuito e as vendas realizadas pelo autor não são comissionadas. Caso ele prefira não operar a venda, o site cobrará uma taxa de distribuição inferior à do mercado. Inteligência Ltda. divulga o trabalho de escritores independentes, expondo suas obras e colocando autores e leitores em contato. Lá, o autor encontrará informações que o ajudarão a transformar seus originais em livro, e meios de vendê-los aos leitores - sem intermediários -, recebendo o máximo pelo seu trabalho. Mais detalhes podem ser encontrados na seção divulgue seu livro. O site não pode se responsabilizar pelas ações de participantes e colaboradores, mas tentará impedir abusos que forem relatados e comprovados, para garantir o máximo de segurança a seus usuários.

Seleção
ABEU - 8/2/2006
A Editora da Universidade Federal Fluminense e a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação começam a selecionar os próximos títulos a serem lançados através do Edital Biblioteca EdUFF. Os originais escolhidos, nos formatos Livro didático, Ensaio, Pesquisa e Coletânea, terão tiragem inicial de 500 exemplares. As inscrições deverão ser feitas até o dia 30 de junho, pelo correio, endereçadas à Secretaria da EdUFF, Rua Miguel de Frias, 9, anexo, sobreloja, CEP 24.220-000, Niterói, RJ. O edital está disponível do site www.propp.uff.br/eduff.

Pós-graduação em jornalismo literário
Texto Vivo - 10/2/2006
Com grande satisfação, o TextoVivo, a Academia Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL) e o Centro de Educação Superior de Blumenau (Cesblu) abrem o processo seletivo e de matrículas para o curso de pós-graduação lato sensu (nível de especialização) em Jornalismo Literário. Estender essa pós para várias cidades brasileiras é mais um passo rumo ao sonho de difundir novos modos de ver e de praticar o Jornalismo e a narrativa da realidade. Este programa de pós é coordenado pelos professores Edvaldo Pereira Lima, Sergio Vilas Boas, Celso Falaschi e Rodrigo Stucchi, criadores do TextoVivo e da ABJL. Os quatro são professores de vários módulos do curso e estarão presentes em todas as cidades. Complementam o corpo docente profissionais (supervisionados pelo TextoVivo) que pesquisam e/ou praticam narrativas de não-ficção. As aulas começam em março próximo. Concluindo o curso, você recebe certificado emitido por instituição reconhecida e credenciada pelo MEC. Para fazer sua inscrição, acesse www.textovivo.com.br/inscricao.aspx.
Link para este post