Confissão #20

Em 2006 faz 60 anos do lançamento de Sagarana e 60 anos do de Corpo de Baile, hoje dividido em Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do sertão. Um dos meus projetos para esse ano é terminar um livro de contos que homenageiam personagens desses livros. Também faz 50 anos do lançamento de Grande Sertão: Veredas, mas esse era impossível incluir...

Confesso que adoro tentar imitar o estilo de alguns escritores, e Guimarães Rosa é um grande desafio. O texto que vai abaixo foi o primeiro que escrevi pensando no livro e, com o desenvolver das estórias, ele acabou sobrando. Morro de medo de fazer isso e ficar aqui falando sozinha, mas queria lançar um desafio para vocês também: qual é o conto/novela e a personagem em que me inspirei?

Tá bem, vou apelar: o primeiro que deixar a resposta certa na caixa de comentários ganha um livro de presente.

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Mas o mundo não é consumição de Deus? Pois então, Ele é que obra a estória da gente. Com o perdão da heresia: assistiu Ele com condolência? Qual o quê! Eu vivia e gemia, conjuntamente, caladamente, nas duradouras vontades. No breve, só mesmo o diário, como o galo chamar o dia e o sapo se ocupar da noite. Faço anos vesperando, quando quero. Nem fosse possível diferente, em querendo. Vale chorar? O senhor ouça, depois o senhor pense e fale. Mas as cidades estão lá, para amparar o que digo. Nem peço mérito do que não fiz de pensamento firme, orientado. Pergunte aos antigos, que não nomeio por costume, por segredo. Ofícios. Sempre primei, podia ser homem de alguém. Mas de iguais para igual eles se acusam, prazerosos, o senhor assunteie.

De meu mesmo, no antes, dote, tinha eram suspiros e duas mudas do de vestir. Afirmo, reafirmo e confirmo que o senhor nunca ouviu falar: Caminho de Fora. Sei se existe mais não, que no meu viver já era perdido no que tinha sido. Em menino, o pai rememorava placa, vozerio, movimento, serventia daquele lugar de meudeus. Depois foi só pasto de aluguel, o pai vigiava boiada alheia de noite, descansando a comitiva. Mais tarde, ficou só esperando boiada que esbarrou de aparecer, mudados caminhos, mudadas veredas. A vida pelos entremeios. Buscou a mãe, teve os irmãos, teve eu. Nunca que apareceu mais ninguém, a gente vivia das providências, do de fazer. Dos irmão, três já tinham se ido antes de mim, que homem tem as vantagens de escolher destino.

Um Damião apareceu de perdido, pegou as rotas com o pai e se foi, mais três junto dele. Antes, colocou olhos em mim, eu menina, interessada no diferente. A mãe passou café, nem pôs muito caso de eu servir, temia pelos meus fins, mais que eu. Nem sabia do mundo ter tantos caminhos. Nos entendemos os dois, eu e Damião, eu sem saber do que queria nele, pois que a gente acerta também nas ignorâncias, ele sabendo muito bem o que querer em mim. Combinou de se perder na volta e perguntou se eu seguia com ele. Encabecei no afirmativo, sem pensar, sem tomar conhecimento do que podia e não podia. A mãe viu tudo, eu amarrar a trouxa, mas nem se disse ali, para não ter que entrar em perguntação, bem-querente de mim.

Três noites com seus dias vagamos, eu engarupada, muito em mim mesma, ignorante de destino e pouseio. Damião. Aquele propunha prendas e rendas, só com as pupilas; jaboticabais. Eu, mel, serenava, mesmo a palmo e de transverso, na lombeira. Sem saber como o quê, o amor só me pegando, à revelia. Para quem é feio de sorte, a vida se acerta é no revés?

O Damião seguiu viagem depois de me tutelar à Maria dos Ventos: de renome, e o coração tão grande quanto. Fez promessa, disse que voltava brevemente, com dias de poder ficar mais tempo, para consumar comigo. Eu, inocente e desassuntada, não usufruia das regras do lugar. Maria dos Ventos defendia de tudo, explicava, me punha a par das artes, nomeava o amor; o de vender. Eu, alheia, só fazia lavar, passar, varrer, cozer, misturar bebida. Nem servir eu podia, para não atentar juízos. Tivesse o senhor sabido da minha beleza, entendia. Ouviu falar não? Eu, dita XXXXX? Vezesmente ainda pego meu nome em rabos de conversa.

Nunca que eu tendesse, mas, Damião demorando, a vida pedindo urgências, o coração nunca que aquietava. Eu nem sabia, mas tinha minha mulheridade. Fui aprendendo lição de ter juízo, regendo de alisar a vida por fora, querendo não querendo, misturadamente. Era casa de meio se escutar e dobro se entender. Fazia quase ano desde o Damião, e sem recado mandado. Desfiz compromisso de espera, por minha conta e satisfação, mesmo com eias e pois. A Maria dos Ventos gostando, combinou festa pra mim, a freguesia apalavrada da minha inocência, uma dinheirama. Mas ela nunca que querendo forçar, tomar decisão da minha vida. Eu pensava, repensava, e a Maria dos Ventos negociando, prestimosa. Todo dia era véspera. Aconteceu que relanceei um, fui eu mesma: "O senhor se agrada?". Agradei eu e empacotei o coração, que daquelas coisas ele não deve saber.

Era fila que formava, e eu só lá, anfitrioa, negociável, apreciativa, pernas pra lá e dinheiro pra cá, tendo do senhor o perdão de eu nomear o gesto. Sem ofensa, é pra o que eu digo. Mas digo pra que o senhor ponha comparação, pra contar que eu gostava, aprimorava, sabente de mim, do meu valor. O Damião que ficasse somando o que tinha perdido, fosse o caso. Mas não só. Verdadeiro? No fio da faca? Riscadinho mesmo? Eu dedicava gosto. E de novo, sem a ofensa dos propósitos, que o senhor releve o termo mas não o sentido, ai de mim se eu não fosse eu.

Deu-se então o impensável, que de inveja até já perdeu o trono um anjo. Morro Alto de Cima era o nome do lugar, e ainda o é, copiado em tudo pelos de Morro Alto de Baixo. Fio que o senhor já ouviu falar dos Louzeiro? É fama que corre as gerais e os sertões, bem pra lá de léguas do São Francisco. Apois! O Almino era dos de Cima, o Alcebíades, dos de Baixo, pomposos, mandantes, reinóis. Louzeiros, dos de Trás-os-Ventos, se não sabe. Importantes, de colherem ontem o que plantaram hoje. No dito e no feito. No mandado e no pedido. No visto e no escondido. Governa cada um nem quinhentas almas, mas capacidades têm pra mais, separadamente, competindo, brigados que estão. Estiveram, estarão: tem igreja para os decimenses, tem catedral para os debaixanos. E no inverso, rua calçada em uma, chama duas calçadas na outra uma. Aumentou ou diminuiu alma vivente pra governo de um, por cargas do destino, também acontece o mesmo pro outro, os Louzeiros. Só no querer, só no jogo ganho. Nunca tem fim de conta, o senhor saiba.

Mereci preferência dos das tropas, dos passantes, dos curiosos, dos homens que sabiam de mim, nas gerais todas. Não alheie o senhor de saber que o Alcebíades não deixou por menos - soube depois, o Damião, só no olheiro, só no recrutador, de um e de outro, no meio da competição. Não fui a primeira nem a última, e só hoje tenho sarado o dó da lembrança. Mas Deus não governa é no remexer do mundo? De correr o tempo, levando a Maria-dos-Ventos, governo também eu, testamentada, a merecer confiança do Almino.

Tem menina nova servindo os debaixanos, beldade, como poucas. Pudesse eu, soubesse voltar o tempo, fazia par. Mas não se aprende dessas artes, e por isso, vim. Venho de longe, o senhor tranquilize o pensar. O roto protege o rasgado, dou palavra, como dou fé de que longe se fala nessa menina, essa da sua custódia. Vitimada, tenho a certeza do pensar. Alivio a consciência do senhor levando escondida comigo, tenho os meios. Veja bem, o senhor, quem é que te rege a vida, se não a vontade? A mulher nem tinha que tomar satisfação, que soubesse de encantos para prender o homem dela. Ir tirar satisfação com a menina? Deu reparação pro mal destino. Não pensa assim, o senhor, em leis, mais instruído do que a infeliz? A menina só partiu pro defenseio. Fatalidade. O cabo da faca não conhece o dono. Séria lá, centrada, conduzida, no bem fazer de sua profissão. A outra se deu ao ousio. Responseio dela, da menina, caso o senhor feche vistas. Problemas assim, a barbante frouxo é que se ata, pois. Pois?

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Update: dedico esse post à Anna Barbara, amiga querida por quem tenho enorme admiração e carinho e que, como se não bastasse ser professora de latim, está festejando um ano de estadia em Budapeste, para onde foi aprender as delícias do húngaro. Egészségetekre, Anna!
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Confissão #19

Sou fascinada pela cultura e pelos costumes orientais

- - - - - Gong Xi Fa Cai* - - - - -

















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Link para informações gerais sobre o Ano Novo Chinês, que é regido pelo Cachorro, ou Festa da Primavera: Aqui.

Esta notícia é interessantíssima: Do you want a job? Be a dog!
*Algo como "muita fortuna para você no ano novo"
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Confissão #18

Há algum tempo colaborei com uma revista portuguesa e algumas vezes me meti a escrever sobre futebol. Esse é um dos textos de que mais gostei:

O futebol e o fim das tampas de relógio

Na Copa do Mundo de 1998, Chico Buarque estava em Paris e escrevia crônicas para dois jornais brasileiros. Chico, como grande poeta e jogador amador que é, me fez gostar de ler sobre futebol. Em uma dessas crônicas ele dizia que, ao contrário de nós, simples mortais, os craques do passado são ainda melhores hoje porque, mesmo tendo pendurado as chuteiras, na permanente edição da nossa memória continuam produzindo lances memoráveis. Tenho pena de não ter nascido a tempo de adquirir esta memória, e tento compô-la através da sensibilidade e da paixão de grandes cronistas. Tenho até escalada uma seleção brasileira de todos os tempos, e não me importa a posição nem a época, porque acho que, como verdadeiros craques, eles jogariam bem em qualquer uma delas: Gilmar, Ademir da Guia, Nilton Santos, Leônidas, Tostão, Falcão, Garrincha, Pelé, Domingos da Guia, Zico e Djalma Santos. Mas meu preferido é Garrincha.

Garrincha que jogou três mundiais, que fez os zagueiros suecos dançarem em 1958, que, com a leveza de uma ave voava para fora da marcação simultânea de oito jogadores, que fazia malabarismos com a bola. Garrincha que fez a torcida gritar “olé” pela primeira vez em um jogo de futebol, e nem era a torcida de seu time, o Botafogo, mas mexicanos que assistiam a uma partida de exibição contra o argentino River Plate. Garrincha que, com suas pernas tortas, escrevia no campo jogadas e dribles desconcertantes que foram traduzidos por Nelson Rodrigues, João Cabral de Melo Neto e Vinícius de Morais, entre outros. E que foi assim apresentado por Drummond: Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.

O jornalista e escritor Armando Nogueira também me dá pistas sobre meu time dos sonhos, em frases como Lá vai Pelé com a bola que Deus lhe deu, ou A tabelinha de Pelé e Tostão confirma a existência de Deus, ou então Domingos da Guia pisava a grama de leve, pra não magoar a semente de sua arte. O que eu acho que estes jogadores tinham em comum era a capacidade de criar, de reinventar o futebol a cada jogada, de se esquecerem que estavam dentro de um estádio e se lembrarem dos amigos das peladas de várzea. Sim, porque é impossível vê-los jogando e não perceber que para eles aquilo não passava de uma brincadeira. Homens viravam meninos e por isso eram insuperáveis, por isso ficavam mais perto da bola, desconheciam a lei da gravidade e voltavam a acreditar em magia. Eram apenas os meninos do Brasil, como tantos outros por este país onde, segundo outro cronista, basta juntar mais de um, uma bola de meia, um coco, uma laranja ou qualquer coisa minimamente redonda, e a diversão está garantida. Meninos a quem não importava se estavam jogando em um campo gramado, ou de areia, ou de terra batida e irregular, ou na lama, e que sabiam segurar e principalmente roubar uma bola. Porque foi assim, com bola roubada, que o brasileiro aprendeu a jogar futebol, esporte que chegou aqui elitista e racista, proibido para pretos, mulatos e brancos pobres.

Os ingleses eram os donos do campo, da bola, das chuteiras e dos uniforme, e armavam torneios de ingleses contra ingleses. Aos brasileiros ficava a honra de buscar e devolver a bola quando algum jogador exagerava na força do chute. De acordo com uma das crônicas do Chico Buarque, um jornal de São Paulo noticiou que, em 1895, confrontavam-se Railway Team e Gas Team, quando huma pellota imprensada entre dous athletas subiu aos céos e foi cahir às mãos de hum assistente. D'improviso, o cidadão seqüestrou a pellota. Metteu-a sob o braço e escafedeu-se no matagal, perseguido por dezenas de crioulos. Foi alcançado ao cabo de meia hora, às margens do rio Ypiranga. E celebrou-se alli, em terreno pedroso e cascalhudo, o primeiro jogo de bola entre brasileiros, com cincoenta actuantes e nenhum goalkeeper.

Novamente e pela última vez recorro a Chico para dizer onde é que as tampas de relógio entram nesta crônica, contando a história de como ele conheceu Formiga, antigo centromédio do Santos. Ele conta que estava caminhando pela praia com um amigo quando foi apresentado ao Formiga, e o que aconteceu em seguida foi a situação mais idiota pela qual já passou. Depois de um breve diálogo não tinham mais assunto, mas Chico não conseguia parar de olhar para o ex-jogador, o silêncio começando a incomodar. Foi quando, sem pensar, colocou a mão sobre o ombro de Formiga e, com o polegar, começou a pressionar-lhe de leve a clavícula. Chico diz que só quando Formiga começou a ficar vermelho e visivelmente incomodado, foi que percebeu o que estava acontecendo: era seu primeiro encontro com um botão. Formiga tinha sido um de seus melhores botões.

Assim que acabei de ler esta história telefonei para meu pai e perguntei pelos botões dele. Sim, ele ainda tinha, dois times completos cuidadosamente guardados dentro de uma caixa de charutos antiga. Hoje eles estão comigo e os guardo com carinho redobrado porque sei que, além do amor pelos jogadores, meu pai ainda levou anos economizando dinheiro para comprar relógios, pegar as tampas de vidro, lixar, desenhar ou colar os símbolos dos clubes e colocar os números dos jogadores. Os times? Santos e Botafogo. Pelé x Garrincha. Perguntei a meu pai por quem ele os substituiria, nos dias atuais. Ele pensou e não soube responder. Pois é, já não se fazem mais botões como antigamente...

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Ilustração: do livro Futebol - The Brazilian way of life, de Alex Bellos, que fala sobre futebol de botão. No Brasil foi editado pela Jorge Zahar, com o título de Futebol - O Brasil em campo

Curiosidade sobre o futebol de botão: "Foi inventado pelo carioca Geraldo Décourt, em 1930. Ele começou usando botões de cueca para jogar (sim, naquela época, as cuecas tinham botões). Depois, passou a usar os botões da calça do uniforme escolar, o que fez o jogo ser proibido na sua escola, porque os alunos estavam acabando com seus botões!" - Link

Foto do Chico, daqui.
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Confissão #17

Achei interessante a promoção do Portal Literal, que dá um livro de presente, autografado, para o leitor que melhor continuar o texto do autor escolhido. Devem ser enviados para o e-mail redacao@literal.com.br.
Boa sorte! Os textos são de:

Luis Fernando Verissimo
Esta é uma história exemplar, só não está muito claro qual é o exemplo. De qualqer jeito, mantenha-a longe das crianças. Também não tem nada a ver com a crise brasileira, o apartheid, a situação na América Central ou no Oriente Médio ou a grande aventura do homem sobre a Terra. Situa-se no terreno mais baixo das pequenas aflições da classe média. Enfim. Aconteceu com um amigo meu. Fictício, claro.

Lygia Fagundes Telles
Abro meu guarda-roupa e pego a boina e as luvas cor-de-caramelo que a tia fez. Mas essa boina não ficaria melhor sem essa pena de ganso? Mas se tiro a pena pode ficar um buraco no crochê, paciência, eu digo, e enterro a boina até as orelhas. Dou uma eriçada na franja que de tão comprida está entrando pelos meus olhos, tenho que aparar essa franja. Calço as luvas. E aparar as unhas. Olho Matilde que continua taque-taque, roendo as próprias.

Rubem Fonseca
3 - Eu ainda estou na cama e isto tudo foi a memória funcionando. Ou será que não foi? Eu sou hoje um homem tão cheio de dúvidas. Não sei mesmo se fechei as portas e com isso não consigo dormir, chego até a sentir um peso no meu coração. Eu preciso dormir. Vejamos: na porta da varanda, ao checar o trinco eu fiz ploc-ploc com a língua contra os lábios.

Ferreira Gullar
Como se o tempo
durante a noite
ficasse parado junto
com a escuridão e o cisco
debaixo dos móveis e
nos cantos da casa


Zuenir Ventura
Aos que pretendem empreender essa viagem, o autor pede que levem consigo, para o caso de se perderem, três distinções básicas: ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é não querer que o outro tenha. E que prestem atenção: a inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes. O ódio espuma. A preguiça se derrama. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde.

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E tem muito mais coisas boas lá no Portal Literal. Como o concurso permanente de contos Exercícios Urbanos, que dá de prêmio R$ 300,00 em compras na Livraria Cultura.
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Confissão #16

Confesso que ter voltado a blogar já terá valido a pena se meu blog tiver força para ajudar a divulgar uma notícia que, a meu ver, é das mais importantes para os/as blogueiros/as com qualquer tipo de interesse em literatura: um concurso do Ministério da Educação que premiará a melhor obra literária escrita na linguagem de blogs, e-mails, comunidades virtuais e grupos de discussão. Essas são palavras do edital. Não sei se existe uma “linguagem de blogs”, mas com certeza existe boa literatura escrita através de blogs, e é isso que provavelmente já chamou a atenção do Ministério da Educação. E não apenas isso, mas também porque já entendeu a influência que as TICs têm sobre a formação de novos leitores. E como se não bastasse, porque também percebeu a importância de se levar novos autores, ou pelo menos autores mais contemporâneos, até os leitores em formação.

Há mais de cinco anos circulo pela blogosfera e ouço reclamações sobre a falta de oportunidade para escritores iniciantes, a falta de concursos, a falta de incentivo e de reconhecimento da qualidade dos textos publicados por aqui. Não concordo muito com tais reclamações, pois acredito que quem procura acaba achando, mas esse concurso com certeza pode ser uma oportunidade para parar de reclamar e colocar a mão na massa. É muito importante que ele seja um sucesso, que receba muitas inscrições, que seja abraçado e amplamente divulgado por e para toda a blogosfera. E ainda contempla a crônica, um gênero tão difundido e bem trabalhado nos blogs. Há um prêmio em dinheiro, 10.000,00 para cada categoria, e a impressão e distribuição de 300.000 exemplares (que escritor brasileiro, mesmo consagradíssimo, sabe o que é isso?).

Divulgue no seu blog, participe, incentive pessoas que você conhece a participar, para que o projeto tenha continuidade:

O Ministério da Educação vai estimular a produção de livros que utilizem a linguagem das tecnologias de informação e comunicação (TICs) destinados aos recém-alfabetizados dos seus programas de educação de jovens e adultos. A iniciativa premiará, no concurso Literatura Para Todos, a melhor obra literária escrita na linguagem de blogs, e-mails, comunidades virtuais e grupos de discussão.
O concurso Literatura Para Todos, cujas inscrições vão até 16 de março, inclui outras categorias de textos: roteiros de vídeo, cinema, quadrinhos, esquetes, scripts, peças teatrais; biografia ou relato de viagem; ensaio ou reportagem; textos da tradição oral; conto ou novela; crônica; poesia. Será selecionada uma obra de cada modalidade. Os oito textos premiados receberão dez mil reais cada e serão publicados com uma tiragem inicial de 300 mil exemplares, em livros que vão ser distribuídos aos alunos do programa Brasil Alfabetizado.
A inclusão das TICs no Literatura Para Todos “não se refere à produção de textos 'didáticos' ou 'explicativos' sobre estas ferramentas”, explica Tancredo Maia Filho, coordenador do concurso no MEC. “A proposta é geração de textos de natureza literária (ficcional) utilizando formatos específicos das TICs como, por exemplo, trocas de e-mails ou estruturação de um blog.”
Outra possibilidade para os concorrentes, diz Maia, “é desenvolver textos de natureza literária (ficcional) envolvendo temas pertinentes às TICs”. Segundo ele, “o objetivo é aproximar destas ferramentas os leitores recém-alfabetizados, tendo em vista os temas e linguagens contemporâneas e os processos futuros de inclusão digital”.
O secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, Ricardo Henriques, acredita que os autores selecionados serão capazes de atrair os jovens e adultos em processo de alfabetização, pois “o que há disponível, hoje, para os novos leitores são livros clássicos, com linguagem adaptada para iniciantes, ou livros infantis”.
O edital do concurso pode ser visto na página eletrônica da Secad. (Assessoria de Imprensa da Secad)


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Links:
- Recebi a notícia via Publishnews
- A notícia no Portal do MEC (vale uma visita) está aqui: Concurso premia livro baseado nas tecnologias de informação
- Aqui o edital e o regulamento em .pdf, na página da SECAD: Edital e Regulamento
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Confissão #15

Outro conto requentado.

*** Bruninho ***

Quando tudo parece difícil, fecho os olhos e volto a ter seis anos. A idade que tive por um segundo. Todos os segundos posteriores foram economizados e são gastos aos poucos, apenas quando muito necessários. Aconteceu que naquele segundo Bruninho segurou minha mão e ordenou:

- Agora! Vamos!

Teria sido uma tarde como outra qualquer se ela não tivesse engolido todo o tempo ao redor, concentrado-se inteirinha naquele instante em que, de olhos fechados, acreditei em Bruninho. Não me recordo de mais nada dos meus seis anos de idade, a não ser aquele momento. Bruninho era meu namorado, muito antes de sabermos o que isso significa. Íamos nos casar quando crescêssemos, e só.

Tínhamos muitos segredos. Brincávamos sozinhos no fundo do quintal, no nosso esconderijo, longe de olhos que não entendiam o egoísmo infantil de nos bastarmos. Bruninho era o homem das minhas brincadeiras de casinha, o pai das minhas bonecas e, no instante seguinte, vestia o cocar de penas de galinha e se transformava no chefe apache dos indiozinhos de plástico. E eu, representando o perigoso inimigo, com um lenço amarrado no rosto que deixava de fora somente os olhos fingidamente maus, liderava o ataque com minha quadrilha de invasores bárbaros montados a cavalo. Nunca discutíamos de quem era a vez de liderar a brincadeira e passávamos de uma para outra instantaneamente. Como se as chaves dos inúmeros universos paralelos entre os quais saltitávamos fossem apenas frases ditas ao acaso, que tanto poderiam ser A Julieta está chorando lá no bercinho ou então Estou preparado para o ataque, cara-pálida. E lá íamos nós trocando de brincadeira, nos divertindo sem percebermos que às vezes Bruninho embalava minha boneca Julieta munido de cocar, arco e flecha; e eu liderava uma invasão ao forte apache armada de perigosas e minúsculas panelas de plástico, nas quais fazia comida de barro misturado a plantinhas.

Dessas brincadeiras ninguém nunca soube. Éramos cúmplices e nos recusávamos quando alguém as propunha: Eu não, isto é coisa de menino, ou Eu não, menino não brinca de boneca. Acontecia que somente juntos, e apenas nós dois, não éramos menino ou menina. Fazíamos parte de uma outra classificação de seres em que qualquer um de nós era nós dois, ao mesmo tempo. Era isso que estávamos tentando provar naquela tarde, a do tempo que me acompanha. Mas muito antes dela eu já tinha aceitado me casar com Bruninho.

Um dia, em uma dessas brincadeiras de menino, ele foi atingido por uma estilingada de bolinha de mamona bem no olho direito. Eu vi tudo de longe e senti a dor de Bruninho tentando bancar o forte, com rosto virado na minha direção. Um esforço enorme para segurar as lágrimas que queriam rolar também do olho não atingido. Percebi que ele não estava mais aguentando, parado no meio da rua, sozinho. Todos os outros meninos tinham fugido correndo, com medo de levar bronca caso o incidente fosse grave. E foi só quando fechei os olhos por um instante e pedi Ai-Deus-do-céu-deixa-eu-sentir-o-que-ele-está-sentindo que ele se permitiu derramar a dor. Ninguém entendeu quando corri pra casa, chorando e cobrindo com as mãos o meu olho são, embora dolorido demais. Minha mãe soprou, procurou cisco, nada. Foi uma dor que só passou no dia seguinte, quando vi Bruninho sorrindo. Era estranho não ver o sorriso no olho direito também, coberto por um tampão. Em solidariedade, durante os dias seguintes e até que ele tirasse o dele, arrumei uns óculos velhos e cobri uma das lentes com esparadrapo. Usava no nosso esconderijo.

Foi logo depois disso que ele me pediu em casamento. Quando tirou o tampão havia uma manchinha marrom no olho, marcando-o para sempre. Bruninho se tornou ainda mais especial para mim, pois aquela outra bolinha dentro do olho fazia dele o que eu já sabia, diferente de todas as outras pessoas. Numa tarde saí do nosso esconderijo e fui buscar alguma coisa que não me lembro o que era. Também não importa, porque acho que se tivessem me perguntado no exato instante em que voltei, também não saberia mais, pois Bruninho me encarou sorridente:

- Tenho uma surpresa para você.

Ele tinha feito manchinhas marrons iguais às dele nos olhos de todas as minhas bonecas. Eu sorri de volta e disse:

- Aceito!

Estava resolvido. Quando crescêssemos, íriamos nos casar e ter muitos filhos, todos com manchinhas nos olhos. Naquela tarde nem brincamos mais. Ficamos os dois deitados na grama, juntinhos, os braços estirados ao lado do corpo, os dedos casualmente se tocando. O coração feliz, em estado de graça. Olhávamos o céu e nem precisávamos falar. Apenas apontávamos uma nuvem e já sabíamos o que o outro estava vendo. Nas nuvens víamos passar nosso filme grandioso, ora em forma de casa, de barco, de avião, de cachorro, de flor, de criança, de cavalinhos... Tudo cabia no nosso futuro, mas só as coisas boas. Quando uma nuvem parecia formar uma figura de que não gostávamos, começávamos juntos a soprá-la, até que ela se dissipasse. E logo a nuvem virava de novo um sonho bom, que sonhamos até a noite nos encontrar ali, maravilhados, eternamente pertencentes um ao outro e àquele instante. Confiávamos na proteção do nosso amor.

Foi por causa dessa confiança que, naquela tarde, aos seis anos, subimos os dois no telhado da minha casa. Tínhamos muitas dúvidas sobre coisas que conversávamos, mas não ousávamos perguntar a ninguém. Queríamos descobrir juntos e não aceitávamos qualquer intrusão no nosso mundinho. Percebíamos que, assim como nós dois nos entendíamos, o entedimento também só era possível entre os iguais. Os cachorros se entendiam, os gatos, os passarinhos, os peixes, numa linguagem que era só deles. Tentamos nos lembrar do momento em que escolhemos ser pessoas e não conseguimos. Então, concluímos que alguém deveria ter feito esta escolha por nós e que poderíamos mudá-la quando bem quiséssemos. Por vários dias discutimos sobre o que queríamos nos transformar, até encontrarmos uma coisa que os dois queriam ser. Sozinho não valia, não teria graça. Tinha que ser os dois. E tinha que ser algo que pudesse ser menino e menina ao mesmo tempo, também como nós. Enfim concordamos: borboleta. Queríamos ser borboleta, talvez por pouco tempo, o suficiente para perguntar a elas se realmente eram como nós, menino e menina, quando quisessem.

Fizemos desenhos para explicar um ao outro o tipo de borboleta que queríamos ser. Eu sabia que Bruninho gostava de azul e me desenhei com enormes asas azuis, de todos os tons que existiam no céu; e para me agradar Bruninho alou-se de laranja e amarelo. E naquele instante que precedeu o mágico segundo, estávamos os dois sobre o telhado de minha casa. As asas enormes cintilando azuis e laranjas ao sol de final de tarde. Entrelaçamos as mãos e nos sentimos fortes e protegidos pelo casulo do amor do outro. Fechamos os olhos e fomos sentindo as asas, o vento, o céu claro, o cheiro infinito das flores. Tudo nos chamava. O que aconteceu a seguir é o meu tesouro, ao qual recorro quando tudo está difícil. Aquele segundo que antecede o sim. O segundo que possibilita a mágica. Aquele no qual, lá atrás, aos seis anos, eu não duvidei que pudesse ser o que quisesse. Só apertei a mão do Bruninho e estava pronta:

- 1, 2, 3 e.... Já!
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Confissão #14

Uma das minhas maiores dificuldades, e a mais gratificante de superar, é o desenvolvimento de uma personagem. Na sua montagem, há uma linha muito tênue sobre a qual se equilibrar, tendo de um lado o perigo de fazê-la fugidia demais, a ponto de não prender quem a lê, ou completa demais, afastando quem tenta se aproximar. Acho que o maior perigo reside na segunda hipótese, pois é preciso deixar o trabalho interpretativo para o leitor. É preciso permitir que ele participe da elaboração do pensamento da personagem, pois é aí que se dá o envolvimento e que o leitor passa a se importar com o destino da personagem, que então significa algo para ele. E isso tem muito a ver com o que o Cláudio Costa fala neste post, principalmente com a frase: Só existo enquanto significo algo para alguém.

Uma das personagens mais fascinantes da literatura brasileira é a tão falada Capitu, pois acredito que nenhuma outra despertou tanto interesse em relação ao que fez ou deixou de fazer. Mas há também muitas outras, como Macabéia, Capitão Rodrigo Cambará, Ana Terra, Macunaíma, Fabiano, Policarpo Quaresma, Gabriela, Teresa Batista, Augusto Matraga, Dona Flor, Iracema, Diadorim, Riobaldo, Emília (do Sítio...), Bras Cubas, João Grilo etc etc etc... E fico por aqui, correndo o risco de deixar gente boa de fora.

Bem, com esse meu fascínio por personagens, fico feliz ao saber da Pequena Enciclopédia de Personagens da Literatura Brasileira, de Clóvis Bulcão de Moraes, pela Editora Campus. Eis o release:
Por quantos autores você precisa passear para conhecer Capitu, Peri, Macabea, Macunaíma, Vadinho, Analista de Baga, Ana Terra? Por apenas uma. A pequena enciclopédia de personagens da Literatura Brasileira reúne, em um só livro, os personagens mais fortes, mais memoráveis e mais peculiares da nossa literatura.
Este livro narra as histórias e traça os perfis dos personagens mais famosos da literatura nacional, desde os clássicos, passando pelos modernos e chegando aos contemporâneos. A finalidade? Analisar através destas histórias o tempo e a cultura em que viveram. Os diversos brasis revelados pelo cotidiano, pelos costumes, pelas mentalidades de quem tanto já nos encantou em Machado de Assis, José de Alencar, Clarice Lispector, Mario de Andrade, Jorge Amado, Érico Veríssimo, entre outros.
A enciclopédia é uma verdadeira viagem ao Brasil dos dois últimos séculos: um mergulho na história e na literatura. É possível entender melhor como era o Brasil escravo, qual era a posição da mulher no século XIX, o papel dos estrangeiros na formação do Brasil, a questão dos homoeróticos. De norte a sul, a sociedade brasileira está bem retratada nos 55 livros que deram forma a este trabalho.
Uma leitura com certeza indispensável para todos que estudam ou se interessam por literatura. Mais que uma enciclopédia, o livro trata de revelar o panorama fiel do país, através dos personagens da literatura brasileira.


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E você: quais são suas personagens preferidas da literatura brasileira?
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Confissão #13

Adoro os clippings do Publishnews.. Aos finais de semana vou tentar fazer um apanhado das notícias que achei mais interessantes. As da semana que passou:

Em 16/01
O Rio em chuteiras
O Globo - 14/1/2006 - por Douglas McMillan
Perdoe todas as metáforas futebolísticas e considere este texto um juiz de negríssima camisa que, após o cara-ou-coroa, apita o início da partida: abrem hoje as inscrições para o concurso Contos do Rio, que o Prosa & Verso promove anualmente para revelar novos talentos das letras brasileiras. As regras são as de sempre: estão habilitados contos que tenham como cenário o Rio (imaginário ou real), que sejam inéditos e escritos por autores desconhecidos do grande público. E neste ano em que a rodriguiana pátria se apronta para a Copa do Mundo, os textos devem ter como tema a peleja, a pelada — o futebol. Valem todas as jogadas para levar à ficção o universo das chuteiras, tão presente na cidade do gigantesco e histórico Maracanã. Além do tema popular, a terceira edição do concurso traz outra boa notícia: pela primeira vez há um prêmio em dinheiro. O primeiro lugar, que já ganhava um troféu, também receberá R$ 3 mil. Os outros nove finalistas levam um diploma. Os contos devem ser enviados ao GLOBO até dia 28 de abril e os dez selecionados serão anunciados em 15 de julho, quando começa a publicação dos textos. O regulamento do concurso ficará disponível no Globo On Line.

O Batuque Book do maracatu
O Estado de S. Paulo - 14/1/2006 - por Aluízio Falcão
Batuque Book. O título é uma paródia de song book, mas basta a pronúncia onomatopaica e já se sabe o conteúdo: gêneros musicais de Pernambuco em que predominam tambores e outros instrumentos percussivos. A série foi planejada para 15 volumes. Começa registrando notações melódicas e rítmicas, além das letras das toadas de maracatu. Depois virão, cavalo marinho, côco e o que mais houver. Tomara que também haja patrocínio. Não quero humilhar ninguém, mas estou no Recife a passeio, diante do mar. Interrompo as muitas horas vagas e apuro que um dos autores do livro, Climério de Oliveira Santos, estará em São Paulo em fevereiro para lançar esta obra tão original quanto oportuna. O Batuque Book difunde informações valiosas para compreendermos o maracatu na atualidade. Os textos de Climério Santos e Tarcísio Resende devem ser lidos na íntegra, por serem verdadeiras aulas sobre o tema. O outro autor, Tarcísio Soares Resende, comenta a inspiração para escrever a música do maracatu. Carlos Sandroni, que fez a revisão musical e assina prefácio, chama a atenção para o fato de que os maracatus pernambucanos já inspiraram músicos do porte de Francisco Mignoni, Egberto Gismonti e Guerra-Peixe. Com este primeiro volume patrocinado pelo governo de Pernambuco, prefeitura do Recife, Chesf e outros parceiros tem seqüência, no século 21, a faina de Mário de Andrade nos anos 1930.


Em 17/01
Virgin se une a indianos para investir em HQ
Folha de S. Paulo - 16/1/2006 - por Marco Aurélio Canônico
No último dia 6 de janeiro, a Virgin, empresa gigante norte-americana que investe em ramos tão distintos quanto aviação e música, anunciou que estava se unindo à maior editora de quadrinhos da Índia, a Gotham Entertainment, para criar duas novas empresas, a Virgin Comics e a Virgin Animation. Visando o milionário mercado de animações e quadrinhos -que cresceu 44,7% nos EUA em 2005 e dobrou de tamanho no Reino Unido desde 2003-, as novas empresas também pretendem globalizar a cultura indiana: a Virgin Animation terá sede na Índia, e a Virgin Comics, apesar de sediada em Nova York, terá uma linha dedicada a heróis criados a partir da mitologia indiana. Os primeiros títulos, ainda sem distribuição negociada para o Brasil, devem sair até o meio deste ano e incluem adaptações do épico hindu "Ramayana" -que Devarajan define como "o "Senhor dos Anéis" do Oriente'"- , na HQ "Ramayan Reborn", e de figuras tradicionais indianas como o sadhu (religioso dedicado à meditação e à contemplação de Deus), que, no álbum "The Sadhu", será um soldado britânico treinado por um sábio para ser um "guerreiro espiritual".


Em 18/01
Prêmio contemplará autoras durante Feira do Livro de Guadalajara
CBL Informa - 16/1/2006
Mulheres escritoras, de qualquer nacionalidade e que tenham publicado romances no período de 2004 a 2006 - com tiragem de no mínimo 3 mil exemplares - estão convidadas a participar do "Prêmio de Literatura Sor Juanna Inês de la Cruz 2006", evento promovido pela Feira Internacional do Livro de Guadalajara e pela Associação de Clubes do Livro de Guadalajara. As autoras deverão enviar até 31 de março seis exemplares da obra, com currículo anexado, foto e dados pessoais destinado a Feira do Livro de Guadalajara, no endereço: Av. Alemania,1320 - Guadalajara - Jalisco - México - CEP: 44190. A vencedora será contemplada com Us$ 10 mil.


Em 19/01
Inscrições para o Salão de Humor terminam segunda
O Globo - 19/1/2006
As inscrições para o XVII Salão Carioca de Humor, que será realizado em março na Casa de Cultura Laura Alvim, serão encerradas na próxima segunda-feira. O Concurso Nacional de Desenho de Humor continua sendo a grande vitrine para os novos talentos e o tema é livre. Para o primeiro lugar nas categorias caricatura, charge, cartum e quadrinhos serão distribuídos prêmios no valor de R$ 6 mil. O segundo lugar receberá R$ 4 mil e o terceiro, R$ 2 mil. O homenageado do Salão este ano será o cartunista Claudius, que comemora 50 anos de carreira. Maiores informações pelo telefone 21-2299-5583 ou no site da Funarj: www.funarj.rj.gov.br.

Parabéns, Snoopy!
PublishNews - 19/1/2006
Snoopy, Charlie Brown e sua turma completaram 55 anos e a Conrad Editora lança o décimo livro da coleção: Feliz Aniversário, Snoopy. Em capa dura, a obra vem com com um charmoso papel de presente da turma criada por Charlie Schulz. Em Feliz Aniversário, Snoopy (32 pp., R$ 25) todos os personagens vivem dias de aniversários especiais: o aniversário de Snoopy, de Beethoven, do Barão Vermelho e do avô de Charlie Brown. Cada aniversário traz uma situação diferente, idéias sobre presentes, além de reflexões sobre velhice e amizade. Como em todas as tiras, Snoopy nos ensina as lições do dia-a-dia com um delicioso sorriso que convence crianças e adultos, fãs de quadrinhos, professores universitários e até mesmo grandes personalidades como o italiano Umberto Eco.


Em 20/01
Polícia apreende em editora 1.680 cópias de obra com conteúdo anti-semita
Folha de S. Paulo - 19/1/2006
O Ministério Público e o Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) apreenderam anteontem 1.680 exemplares do livro Protocolos dos Sábios do Sião, na editora Centauro, na zona norte de São Paulo. O Departamento de Inquéritos Policiais da capital considerou que a obra tem conteúdo anti-semita. Protocolos dos Sábios do Sião é um texto apócrifo, divulgado no início do século 20, durante a Rússia czarista, que descreve um plano de dominação global pelo povo judeu. A obra é citada por diversos grupos anti-semitas. Vários historiadores declaram que Protocolos é uma fraude. Um dos donos da Centauro, Adalmir Caparros, classificou como "violência" o recolhimento forçado dos volumes e disse conhecer apenas superficialmente o texto. "Não se pode dizer que somos anti-semitas. Não fomos nós que fizemos o livro", defendeu-se. Um dos trechos do livro diz que "os judeus esmagarão e escravizarão pelo assassínio e o terrorismo cada um dos povos da Europa".

Livros: o melhor é ter acesso
Gazeta Mercantil - 20/1/2006 - por Hubert Alquéres *
20 de Janeiro de 2006 - No Brasil, o universo de leitores é pequeno: apenas 17 milhões dos 170 milhões de brasileiros lêem pelo menos um livro por ano. Essa escassez de leitores produz um círculo vicioso: o livro é caro porque o universo de leitores é pequeno, e esse universo é pequeno porque o livro é caro. Nesse contexto, uma boa opção para conquistar novos leitores é incentivar a produção dos chamados livros de bolso, ou pocket books, estratégia que há mais de 50 anos foi consolidada em países como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França. No Brasil, algumas iniciativas nesse sentido já provaram que a experiência pode dar certo, embora os livros de bolso no mercado nacional ainda sejam caros para o poder aquisitivo do brasileiro em geral. Foi pensando nisso e na experiência de editoras como a LPM, a Publifolha ou a coleção Primeiros Passos da editora Brasiliense que a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp) lançou a coleção Aplauso, hoje com mais de 70 títulos publicados, que resgatam a memória do cinema, teatro e TV no Brasil. Os livros, vendidos a um preço médio de R$ 9,00, têm a coordenação do crítico e comentarista Rubens Ewald Filho e são escritos por jornalistas especializados. A coleção, além de ser vendida a preços acessíveis, foi enviada gratuitamente para bibliotecas públicas e de escolas de comunicação de todo o Brasil. O êxito de iniciativas como estas demonstra que existe espaço no Brasil para a multiplicação de livros de bolso de qualidade, tanto no conteúdo quanto na forma, como um novo canal para difundir o hábito da leitura e democratizar o conhecimento do valioso patrimônio cultural de nosso país e da humanidade.
* Presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e da Associação Brasileira de Imprensas Oficiais

IV Prêmio Casa de Cultura Mario Quintana
PublishNews - 20/1/2006
No ano do Centenário do poeta Mario Quintana, a Casa de Cultura Mario Quintana promove o 4º Prêmio Casa de Cultura Mario Quintana – Edição 2006. Este concurso de abrangência nacional, cuja primeira edição ocorreu em 2003, terá uma edição especial. Em homenagem ao 100 anos de Mario Quintana, o concurso vai contemplar a categoria POESIA, com duas modalidades (Poesia para adultos e Poesia para Jovens). O concurso é aberto a qualquer escritor brasileiro, residente ou não no Brasil. As características de cada premiação: Poesia para adultos - Cada autor deve enviar originais em poesia com no máximo 150 páginas. O prêmio concedido ao vencedor será um contrato de edição da obra com mil exemplares com a Nova Prova Editora, prêmio de R$ 8 mil e lançamento na 52ª Feira do Livro de Porto Alegre. Poesia para jovens - Cada autor deve enviar originais em poesia com no máximo 80 páginas. O prêmio concedido ao vencedor é o mesmo dos adultos. Os originais devem ser encaminhados à Casa de Cultura Mario Quintana em três vias, com um pseudônimo do autor. Não serão aceitas poesias avulsas. A obra vencedora será escolhida por uma Comissão Julgadora nas duas modalidades, sendo que na Poesia para Jovens haverá um Júri Juvenil, formado por 11 estudantes (ensino fundamental e médio). As inscrições estão abertas até o dia 16 de maio de 2006. O regulamento completo do concurso está publicado no site da Casa de Cultura, no endereço www.ccmq.rs.gov.br. Interessados também podem obter informações pelos fones 51-3226-1181, 3221-7083 e 3211-5581

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Eles fazem um ótimo apanhado sobre tudo que saiu sobre o mercado literário nos principais jornais do país. E você pode receber diariamente por e-mail, assinando aqui.
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Confissão #12

Adoro mapas antigos e estas páginas da British Library foram um achado:

Online Galery - Turning Pages


Lá tem o primeiro mapa da Europa, mas também muitas outras coisas interessantes e curiosas, como o diário de Leonardo da Vinci, o diário musical de Mozart, o original de Alice no País das Maravilhas, os primeiros escritos de Jane Austen, as obras-primas da Renascença, missais antigos, o Diamond Sutra, que foi impresso na China em 868, e muito mais que ainda não tive tempo de explorar. Não vá se tiver pouco tempo, é de se perder entre aquelas página todas...
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Confissão #11

Eu já fui uma vítima da moda e já usei muitas coisas das quais hoje até me envergonho. Vestidos cheios de babados intercalados de tecido branco com bolinhas pretas e tecido preto com bolinhas brancas, ou mangas bufantes, ou aquelas detestáveis obreiras enormes para estruturar camisas e blazers, tecidos cítricos de várias cores na mesma roupa e muitas coisinhas mais. Hoje ainda gosto de andar bem vestida, mas já não me importo em seguir a moda. Após anos tendo que me “montar” todos os dias para ir trabalhar, agradeço aos céus que posso me levantar e escolher algo que seja simplesmente confortável. Mas continuo gostando de acompanhar o que acontece no mundo da moda, e esses dias de Rio Fahion Week e São Paulo Fashion Week têm trazido coisas boas.

Um dos momentos mais emocionantes que estas semanas já proporcionaram, com certeza, foi o desfile de Jum Nakao (siga o link e vá até o site dele, é fantástico!) , em junho de 2004, em São Paulo. Para quem não assistiu, ele colocou na passarela modelos usando perucas estilo “playmobil”, maquiagem preta e roupas de papel que foram rasgadas em pleno palco, no final do desfile. A confecção das roupas consumiu mais de setecentas horas de trabalho e foram feitas em papel vegetal cortado a laser, para dar um efeito de rendas e bordados. Já li em uma entrevista que ele não encara a moda como um fim, mas como um meio, e levou isso ao extremo, provando, com a destruição das roupas, o quanto o fim é mesmo efêmero. O que ele queria mostrar era apenas um conceito de moda, e conseguiu de uma maneira bem criativa, ousada e inteligente, que emocionou a platéia.




A partir desse desfile, surgiu a idéia do livro A costura do invisível (acompanha DVD), publicado pela editora SENAC, que é carinho mas vale cada centavo. Jum Nakao, brasileiro neto de japoneses, tem apenas 37 anos e é um dos mais respeitados estilistas da atualidade. Foi dele também o figurino de Hoje é dia de Maria, sem dúvida um marco na produção cultural brasileira e, na minha opinião, a melhor coisa já produzida pela Globo.

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Para a página de Hoje é dia de Maria 1 - Link
Para a página de Hoje é dia de Maria 2 - Link
Para as páginas de onde tirei as fotos acima: Link 1 e Link 2
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Confissão #10

Essa f(r)ase tem muito a ver comigo:

"Metade do que vivo é imaginação
A outra metade é conseqüência dela."
Fabrício Carpinejar
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Confissão #9

De vez em quando eu adoto algumas poesias como se fossem oráculos ou patuás. Faço todo um ritual, lendo em voz alta, copiando com letra caprichada, prestando muito atenção a cada palavra dita ou omitida, a cada possível significado, e depois guardo na carteira até que a poesia se cumpra ou que seja urgente substituí-la. Os/as poetas que mais me tocam são portugueses/as, e a primeira poesia que carreguei durante muito tempo foi do Eugénio de Andrade, falecido no ano passado. Um escritor português, ao ver o descaso que eu tinha com o que escrevia, não revisando ou reescrevendo nada, me disse "assim vais magoá-los", referindo-se aos textos e à importância na escolha das palavras certas, e me mandou:


AS PALAVRAS

Eugénio de Andrade

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Outro poema maravilhoso no qual ele fala sobre as palavras é O sal da língua. Não confesso quais poemas andam comigo hoje, mas estes aqui, também dele, entrariam na disputa:


Os amantes sem dinheiro
Tinham o rosto aberto a quem passava
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.
Tinha como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos,
mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

...................................

Urgentemente
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


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Mais poesias de Eugénio de Andrade Aqui. Vale a pena.
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Confissão #8

O texto abaixo também é antigo. Foi escrito depois de uma overdose de leitura de Clarice Lispector, portanto, pode até ter alguma idéia que não é minha, mas dela, já não me lembro mais. Mexendo nos arquivos do Udigrudi, encontrei muitas coisas de que ainda gosto, embora estejam mal escritas. Eu não revisava texto algum, e confesso que é ótimo saber que hoje já tomo muito mais cuidado com o que escrevo. Leio, releio, corto, acrescento, leio de novo, mudo, e vou aprendendo. E isso é bom.


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Sobre as Pessoas, as Coisas e os Bichos

Posso te fazer uma pergunta? É que tenho uma curiosidade latejante. Tudo que é Pessoa, Coisa ou Bicho me interessa. Acho que tudo que existe está aí. Às vezes trocando de papéis: uma Pessoa pode virar Coisa, um Bicho pode virar Pessoa, uma Coisa pode virar Bicho. É tudo feito da mesma essência, o que molda é a atitude. Só as palavras não são moldadas, e por isso concordo quando o Manoel de Barros (ou seria a Clarice Lispector?) diz que elas não surgiram para serem faladas, mas escritas, pois apenas a margem do papel ou da tela suportam sua fluidez. Faladas, elas evaporam no ar e deixam de existir no exato momento em que são proferidas, como quem morre sem ter plantado uma árvore (Coisa), tido um filho (Pessoa) ou escrito um livro (Bicho). Livro não é Bicho? É sim. Você precisa aprender sua linguagem antes de se comunicar com ele, senão ele fica daqui, você daí... Um olhando pro outro... Até um ou outro dar o bote ou sair correndo. Livro é um Bicho sim. Já viu como um poema é passarinho do mato? Cantor, arredio, arisco... E um romance, então!? É um gato, cheio de artimanhas. Ficção científica? Centopéia. Terror? Aranha. Crônica? Lebre. Ensaio? Coruja. Biografia? Cobra. Conto? Macaco. Fala outro que eu digo o Bicho que é. Mudei de idéia: poesia é água viva. Água Viva é Bicho? Sei lá, deve ser, transparente, fascinante, e como queima. Por dias a fio me arde um bom poema. Vou te contar um segredo: tenho um monte de Bichos dentro de mim. Queimando. Aliás, acho que sou mais Bicho que Pessoa. E quando encontro Pessoa que também virou Bicho, entro no cio. Copulo comigo mesma, como as plantas, e com o despudor dos Bichos (veja bem, aqui não cabem Pessoas, só Coisas e Bichos). E então vou parindo, parindo, parindo, parindo; até a exaustão. Depois eu como a placenta, que é para alimentar os outros Bichos que ainda ficaram lá dentro, se formando. Uma ou outra cria eu também como, das que não iam vingar mesmo. Bicho é assim, só cuida da cria que se parece com ele, que ele aprova. Sabe do que eu mais gosto em ser Bicho? É que sendo Bicho eu sou por instinto, não existe tempo-espaço entre o que penso, sinto e faço. O ato já é meu pensamento, não precisa de passado, presente ou futuro. E do que eu menos gosto é que existem cada vez menos Bichos. Sendo Bicho eu também não preciso me reinventar; tudo o que um Bicho faz ele já nasce sabendo, outro Bicho já fez. Se um Bicho faz algo diferente, muda de categoria, evolui, vira espécie. Gosto disso, principalmente por não ser uma atitude provocada. Bicho só muda por erro genético, por acidente, por descuido da natureza. Acho que você já sabe, mas vou te contar também o que eu queria ser mesmo, de verdade. Era não ser Bicho, nem Coisa, nem Pessoa, nem nada. Existir como o que não existe. Já imaginou? Não, não imagine. Porque assim que você imaginar passa a existir, e então já não posso mais ser isso aí e preciso desinventar outro pensamento. Será que existe o não-pensamento? Eu queria tanto ser algo que contivesse tudo o que não existe... Seria muito maior e mais bonito do que tudo que já existe. Eu ainda não te falei do acho sobre ser Coisa. Ser Coisa também deve ser bom, mas é claro que não melhor do que ser Bicho, mas infinitamente melhor do que ser Pessoa. Como o Bicho, a Coisa também já é, não precisa aprender, não se desvirtua e nem se distorce como a Pessoa. Mas também não evolui sozinha, como o Bicho. Não muda de espécie, a não ser que a Pessoa queira. Pensando bem não quero ser Coisa. A Pessoa já classificou as Coisas em todas as espécies existentes, pelo menos as que conheço, e que são muitas. Todas classificadas, rotuladas, arranjadas e divididas. Eu tenho um baú onde guardo Coisas. Coisas minhas, que ninguém conhece. Talvez um dia eu te mostre. Mas não as inventei, já digo antes para você não se decepcionar. Elas já estavam por aí. Vai ver você também as tem, escondidas como eu, sei lá. É que os Bichos têm a capacidade de ver as Coisas de uma maneira diferente. E isso ninguém me contou, eu vi, com estes olhos de Bicho que enxergam no escuro. Onde é que estávamos mesmo? Já nem sei mais, nem sei o motivo de ter te falado tudo isso. Acho que no fundo eu só queria te fazer uma pergunta. Tá vendo, infelizmente eu ainda tenho muito de Pessoa. Fico rodeando, farejando, ciscando o terreno. Bicho não agiria assim, já teria perguntado. Ou melhor, já teria reconhecido: você é Bicho também?

Ana Maria Gonçalves – São Paulo, 2001
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Confissão #7

O blog enlouqueceu. Não sei o que fazer, pois as postagens e embaralharam. Na tentativa de arrumar, deletei e publiquei novamente os posts, e a coisa piorou. Estou vendo o que fazer, mas, por ora, tirei do template as datas e os horários de postagens, para ver se melhora alguma coisa. Sinto muitíssimo por, ao ter que republicar o posts, ter perdido os comentários... Ainda os tenho pois recebo automaticamente no e-mail, e vou voltar a publicá-los assim que colocar a casa em ordem. Por enquanto, operamos por instrumentos, e já que os posts são numerados, dá para se perder só um pouquinho.

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17/01 - tudo certo agora, era só um problema de cookies e arquivos temporários no computador. Os posts já estão na ordem e logo logo colo de volta todos o comentários que já foram feitos até aqui.
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Confissão #6

É grande a tentação de republicar aqui muitos posts do meu velho blog, pois tenho quase certeza de que a maioria das pessoas que os lerão agora, não leram antigamente. Digo antigamente porque sei o quanto é efêmera a memória virtual. Aqui tudo envelhece muito mais rapidamente do que em qualquer outra mídia. E confesso que às vezes vou cair em tentação, como agora, com esse conto pelo qual tenho especial carinho.

Nina

Nina se sentou ao chão, na minha frente, esfregou os olhinhos afastando a franja encaracolada e estreitou a boneca junto ao peito. Depois de alguns segundos a olhar meu silêncio, perguntou:

- É verdade então, mamãe? Fala...

O rostinho sério, a voz carregada de pena, como a de quando encontrava algum bichinho ferido em suas incursões pelo quintal. Era assim que Nina falava comigo, como quem fala a um pásssaro de asa quebrada, me deiando a esperar que também corresse delicadamente os dedinhos sobre a minha cabeça.

- Pode dizer, mamãe. É verdade então?

Nina tinha com cinco anos. Havia muito tempo que eu queria contar a história, antes que ela deixasse de entender. Por mim, nunca deixaria. Mas o mundo nem sempre tem a complacência de uma mãe.

- Quer mesmo saber, filha?

Sempre tive muito cuidado com tudo que dizia a Nina. Desde pequena, era somente a ela que eu tinha para me ouvir os desabafos. Sempre foi uma criança especial, os olhos pareciam compreender o que eu dizia. E me olhavam neutros. Nada respondia, nem quando, com pouco mais de um ano de idade, começou a falar. Não pronunciando uma palavra e outra, como toda criança. Seu silêncio de até então, que me preocupava como uma doença, foi quebrado com uma frase inteira. Com todos os sujeitos, verbos, substantivos e adjetivos a que tinha direito. Eu mesma não estranhei muito, pois de certa forma sempre estabelecemos um tipo de diálogo. Nina me bastava como amiga. Ouvia tudo em silêncio, às vezes fingindo displicência, enquanto brincava. Tinha um modo especial de parecer presente e ausente ao mesmo tempo, precisa em me brindar as pausas do monólogo com sorrisos deliciosos e reconfortantes. Como naquele momento.

- Eu o conheci em uma festa, Nina. Nunca fui atrás de crendices, simpatias ou feitiços, mas, naquela noite... Foi numa festa de Santo Antônio, a cidade inteira estava na praça, tinha aquelas barraquinhas de quentão, pipoca, algodão doce...

- Tinha cachorro quente?

- Tinha, Nina. Cachorro quente, maçã do amor e a barraquinha do santo. Diziam que a moça que quisesse se casar deveria comprar uma imagem de Santo Antônio e pendurar, de cabeça para baixo, de castigo, até o santo atender o pedido.

Nina sorriu, talvez pelo jeito engraçado de deixar o santo de castigo. Ela também tinha os dela. Mas não se imaginava pendurada de cabeça para baixo, como experimentou fazer com a boneca agora.

- E você queria se casar, mamãe?

- Não sei, filha, mas minhas minhas amigas estavam fazendo e eu fiz também.

- Eu queria que você...

Ela não completou a frase. Não precisava, sempre me perguntava se eu não iria me casar. E sabia que a pergunta me deixava um pouco triste. Devia estar pensando em alguma outra coisa para dizer.

- ...que você .. que você... é...

- Que eu te contasse a história toda, né? - resolvi ajudá-la.

Então o silêncio foi de Nina. Ela nunca mentia. As verdades mais duras, para mim ou para ela, eram ditas no mais completo silêncio.

- Eu tinha acabado de amarrar o santo de cabeça para baixo e estava ouvindo minhas amigas fazerem a oração de Santo Antônio. Não sei como, o barbante do meu santo desamarrou e ele caiu. Quando me abaixei para pegar, um moço se agachou do meu lado e perguntou se eu queria ajuda.

- Você não deve ter amarrado direito, né mãe?

- É, deve ser.

- E ele, como ele era? Era bonito? O moço?

- Bonito, filha, muito bonito. E tinha uma voz linda. Usava terno, sapato brilhando de lustrado e um chapéu na cabeça.

- E o que ele te falou?

Eu nunca consegui apagar aquela imagem da cabeça. Ele ao meu lado, os dedos longos e macios fazendo carinho nos meus, e o rosto próximo, muito próximo. Tinha uma voz rouca e macia:

- A princesa precisa de ajuda?

Eu não consegui responder. Senti o dorso da mão queimando no contato com a dele. Só tive vontade de ser beijada, e acho que até cheguei a fechar os olhos. Talvez tenha oferecido os lábios, que ele, elegantemente, deve ter prometido deixar para mais tarde. Sorri e corei em resposta.

- A moça acredita em promessas para Santo Antônio? Tanta beleza assim, nem precisa. Por que não deixa o santo aí e me acompanha numa dança?

Eu não sabia o que esquentava mais. A fogueira crepitando no meio da praça, em volta da qual eu rodopiava nos braços dele, ou o contato com seu corpo, suas mão nas minhas costas, puxando para mais perto.

- Mãe, tá me ouvindo? O que mais ele falou?

A voz de Nina parecia distante, embaralhada aos sons da festa, como naquela noite. Eu nada ouvia além da respiração dele, junto ao meu ouvido. O coração batendo nas têmporas, a festa ao longe.

- Bem, Nina, ele me convidou para dançar.

- E ele dançava bem?

- Dançava, muito bem. Dançamos a noite inteira.

- E qual era o nome dele?

- Não sei, Nina. Antônio, talvez...

- Qual é o nome da moça?

- Luana.

- Nome bonito, quase tão bonito quanto a dona – ele disse, enquanto com uma das mãos levantou carinhosamente o meu queixo, mirando bem dentro dos meus olhos, como se tivesse perdido alguma coisa ali. Ele tinha lindos olhos que, debaixo da aba do chapéu e iluminados pela fogueira pareciam soltar faísca. Faíscas muito azuis que quando iam chegando perto de mim ficavam amarelas, alaranjadas e, por fim, vermelho fogo.

- E o seu? – perguntei.

- Que nome a moça acha mais bonito?

Pensei em vários nomes bonitos, mas nenhum tão bonito quanto ele. Nenhum parecia combinar com ele, que mais parecia um santo...

- Antônio...

- O nome do santo?

- É, o moço parece um santo de tão...

Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Quase terminei a frase. Morri de vergonha. Com certeza ele deve ter imaginado o que eu estava pensando.

- O moço é daqui mesmo? – disfarcei.

- Sou daqui, dali... Corro mundo, moça. Só paro quando vejo uma princesa assim linda como você.

- Você não lembra o nome dele, mãe?

- Lembro, era Antônio mesmo, Nina. Mas isso não importa, importa que dançamos e conversamos a noite inteira. Ele me contou muitas histórias, tinha viajado muito, conhecia um mundo.

- Histórias como essas que você conta pra mim?

-Sim, filha, muitas das histórias que conto para você foi ele quem me contou.

Eu fiquei encantada com as histórias dele. Enquanto dançávamos, contava de mundos distantes, de pessoas e coisas das quais em nunca tinha ouvido falar. Das festas que já tinha freqüentado. E sempre me fazendo um carinho, dizendo que gostaria de ter estado sempre comigo e que, se eu quisesse, um dia me levaria. Chamava-me de princesa, de minha linda; de meu amor quando já estávamos sentados em um banquinho sob a árvore, na beira do rio. Ele havia tirado do bolso um lenço vermelho e forrado o banco para eu me sentar. Enquanto abria o lenço, um cheiro muito bom se soltou dele. Fiquei tonta, louca para me sentar antes que desse vexame, esperando que ele alisasse o lenço com cuidados que nunca ninguém teve comigo.

- Ele era um contador de histórias, mãe?

- Não de verdade. Mas ele sabia muitas, todas muito bonitas.

- O que ele fazia então?

- O que o moço faz, para viajar tanto assim?

Eu já me sentia totalmente à vontade para fazer perguntas. Aliás, eu já me sentia à vontade perto dele. Como se já o conhecesse havia muito tempo. Como se sempre existíssemos, nós dois, e só nós dois, sentados ali naquele tosco tronco em serventia de banco, sob a copa da árvore varada de lua. Havia uma lua linda, que ele disse ter encomendado. E tinha mandado dar nome, para combinar com o meu. E o barulho do rio, como se fosse uma canção de ninar, para combinar com o seu.

Ele não respondeu à pergunta. Talvez tivesse preferido responder à que fiz em silêncio.

- Eu beijo. Quer um?

Passei lentamente a língua sobre os lábios, para refrescá-los, como se soubesse o calor que os dele provocariam. Não sei se ele entendeu como uma resposta. Só sei que me beijou. Abri os olhos para ver se ainda estávamos ali, sobre o banco, sob a árvore. Vi apenas os olhos dele, abertos também, brilhantes, como escamas ao sol.

- Não sei direito, filha. Mas era longe, muito longe.

- Por que você acha que era tão longe?

- Por que ele nunca mais voltou. Deve ter ido para muito longe, não acha?

- Ele falou que ia voltar?

- Falou, quer dizer, acho que falou.

Nina, àquela altura, foi se aninhar no meu colo. Acho que às vezes ela fazia isto para eu não me esquecer quem ali ainda era a mãe. E quando ela vinha assim, brincar de filha, ficava em silêncio, enrolando e desenrolando entre os dedinhos os cachos do meu cabelo. Eu sempre a deixava, até se fartar.

Com a outra mãozinha ergueu a boneca até a altura dos olhos, antes de dizer:

- A Julieta acha que um dia ele ainda vai voltar. Não é, Julieta? – e balançou a cabeça da boneca, em uma resposta afirmativa - Mesmo se estiver muito longe. Vai ver ele está aprendendo mais histórias.

- Moça, deste jeito eu nunca mais vou te deixar.

Sentia meu corpo leve, flutuando, em uma correnteza de palavras formando um rio morno e calmo.

- Ah, princesa, vem comigo, diz que sempre vai vir comigo. Faz amor comigo que eu vou te levar para lugares que você nunca imaginou conhecer.

Não tive mais coragem de abrir os olhos. Ele me livrou da roupa molhada e comecei a queimar, a precisar cada vez mais do contato refrescante com o corpo dele. O rosto, os seios, as pernas, tudo quente demais. E eu o puxava para mais perto, querendo fundir meu corpo ao dele, até me apagar.

- Eu quero ir.

Palpitávamos inteiros no ponto onde éramos um só. Uma luz, uma cegueira que me impedia de abrir os olhos e que me permitia ver e ouvir tudo ao mesmo tempo. Folhas, gotas, frutas, sinos, pássaros, peixes, carne, fogo, ar, ar, ar...

- Mãe, quantos anos ele tinha?

- Não sei, filha. Mas era novo.

- Então ainda deve estar novo e bonito, né?

- Acho que eles não envelhecem.

- Por que boto não envelhece?

- Porque eles nascem de novo, cada vez que saem do rio.

- Então, mesmo quando eu estiver velhinha, meu pai vai estar moço ainda?

- Vai.

- Mãe, será que ele vem me conhecer antes de eu ficar velhinha?

Acordei na margem do rio, com o sol alto. O corpo nu, cansado e feliz, impregnado de ervas em infusão com meu suor. Entre as pernas, o cheiro dele e o lenço escarlate tingido com minha mulherice. Tínhamos selado um pacto. Aqui nunca mais entrou homem algum. Eu não suportaria perder para sempre este cheiro dele. Embora, às vezes, eu arda de novo em desejo. E nesses dias de puro desespero apenas o rio me refresca. É onde eu fico, até sentir os ossos gelados e a pele enrugada.

- Talvez, filha, talvez. E quem sabe eu também não esteja tão velhinha...


Ana Maria Gonçalves – são Paulo, junho de 2001
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Confissão #5

Confesso que não ou nada triscaidecafóbica. Muito pelo contrário: adoro sexta-feira 13, tanto que ecolhi uma para nascer. Há várias explicações para a superstição, mas a principal delas diz respeito à sexta-feira 13 de outubro de 1307, com a declaração da ilegalidade da Ordem dos Templários. Neste mesmo dia seus membros foram presos e torturados por toda a Europa, e depois executados como hereges.
E hoje ainda tem lua cheia...
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Confissão #4

Passei o dia fazendo planos, colocando alguns projetos no papel, incrementando outros e estabelecendo prazos. Confesso que preciso planejar, pois sou uma das pessoas mais desorganizadas que conheço. Sempre deixo tudo para a última hora e fico saltitando entre um trabalho e outro, querendo fazer tudo ao mesmo tempo ou tendo "idéias inadiáveis" para o próximo da fila. É difícil conseguir me concentrar em uma única coisa quando existem tantas outras interessantes que quero fazer. Tenho uma longa lista delas para fazer em 2006. E uma inacreditável certeza de que todas vão dar certo.

Tentando estabelecer certas prioridades, fiquei pensando em tudo que ainda quero fazer, e em como algumas realizações ainda parecem distantes. Mas ando mais otimista do que nunca, e cada dia a mais é um dia a menos na contagem de tempo. E me lembrei de tudo que já quis e consegui e, consequentemente, de um joguinho da Marina que agitou os primórdios da blogosfera: o Jogo do Currículo. Ela explicou:
(...)Era assim: De repente ele dizia “Já fui pra cama com uma francesa”. Ponto pra ele. “Nunca dormi ao relento”. Se eu rebatia dizendo "eu já”, era ponto pra mim. Ele então dizia: "Já tive uma banda". Como eu nunca tive, ponto pra ele. E assim vai. É bastante divertido e não impede que você pare o que está fazendo.(...)
Na época, 2002, fiz o meu e publiquei no blog antigo. Hoje, não resisti e fiz uma atualização. E percebi que todos os meu planos, na verdade, são para me levar a viver momentos mágico iguais a estes:

Jogo do Currículo

- Já me pediram a identidade para ver se eu tinha mais de 18, aos 25.
- Tive uma plantação de morangos no meu quintal.
- Já fizeram poesias e contos para mim; já fiz poesias e contos para alguéns.
- Vi um fenômeno da natureza chamado "camarinha" lá em Visconde de Mauá. Parecem fogos de artifício caindo do céu.
- Dancei muita valsa em bailes de debutante.
- Já fui muitas vezes dama de honra em casamentos.
- Tive um cemitério onde enterrava os passarinhos que encontrava mortos no quintal, com cruzes e nomes pintados nelas.
- Já fiz serenatas.
- Abandonei casa, empresa, profissão e cidade e fui começar de novo em uma ilha.
- Morei em república com mais três amigas e tínhamos uma empregada que trabalhava meio período na nossa casa e meio período em uma boate gay, e me deixava ir lá xeretar e experimentar as roupas dos shows.
- Da cenas mais lindas que já vi foi dois meninos lavando lavando cavalos no mar.
- Já apostei muita corrida de barquinho de papel em enxurrada de ladeira.
- Minha carta de motorista é profissional; posso dirigir ônibus e caminhões, e motos de até 1000cc.
- Já tive cabelo abaixo da cintura e cortei “joãozinho”.
- Sei patinar muito bem.
- Já pulei muitos muros para roubar frutas em quintais alheios.
- Quando criança, queria ser miss.
- Já sofri acidente de carro.
- Já andei de elevador com o Antônio Fagundes.
- Já roubei cartaz de filme em porta de cinema.
- Já dormi em um convento de Ouro Preto.
- Já me vesti muitas vezes de anjo em procissões e já coroei Nossa Senhora.
- Na adolescência, tive três namorados de uma só vez, tendo minha avó como cúmplice.
- Era amiga do Juvenal, o garçom do bar Riviera, confidente da Rê Bordosa.
- Já mergulhei em Fernando de Noronha.
- Tive uma coleção de cigarras.
- Já fumei cachimbo.
- Fui a um show do Buena Vista.
- Aprendi a fazer crochê aos 6 anos de idade e adoro até hoje.
- Já vi muitas vezes o sol se pôr ou nascer no mar.
- Já fui apaixonada pelo Sting e pelo Charles, dos Menudos, ao mesmo tempo.
- Já operei a garganta, o ouvido e o nariz.
- Adoro cozinhar e já inventei muitas receitas.
- Já assisti missa em latim e com canto gregoriano no Mosteiro de São Bento.
- Já ganhei bons prêmios no mercado publicitário.
- Já tomei uísques com água de côco na casa do Calasans Neto, frequentada por Jorge Amado e Zélia, Toquinho, Vinícius, Saramago etc...
- Já dei aulas de português, em inglês, para japoneses.
- Já sobrevoei a Cordilheira dos Andes.
- Já fui uma zagueira razoável.
- Já assisti a um jogo de futebol no Estádio Nacional do Chile, onde, na época de Pinochet, aconteceram jogos enquanto havia presos políticos no subsolo.
- Já vi baleias bem de perto e já nadei com golfinhos.
- Sou co-autora de um roteiro de documentário.
- Já vi espíritos.
- Já viajei muito sozinha, a lazer.
- Conheço o estúdio do Millôr.
- Já fui jogadora de vôlei federada.
- Já segui procissão do Senhor do Bonfim.
- Já participei de festas de Iemanjá, no Rio Vermelho.
- Já publiquei um livro e estou quase publicando o segundo.
- Já nadei nua no mar, sozinha, em noite de lua cheia.
- Já dormi dezessete horas seguidas.
- Já escrevi mais de quarenta e oito horas seguidas.
- Morei em nove cidades.
- Conheço as três casas de Neruda.
- Quase me afoguei aos dois anos de idade quando fiquei fascinada com o Rio Misericórdia – Ibiá - e me joguei.
- Já tomei muitos drinks no Gravata’s Bar
- Já dirigi mais de dez horas, sem parar.
- Já compuseram uma música para mim e cantaram, via celular, diretamente de uma praia na Ilha do Fogo, em Cabo Verde.
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E você fizer o seu, confesse na caixa de comentários ou me manda por e-mail. Uma das minha próximas confissões será em relação à curiosidade.
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Confissão #3

Nos últimos meses estudei bastante sobre o suicídio, para compor uma personagem de um livro ainda pela metade. Depois, impressionei-me com o suicídio do noivo da Gabriela Mistral, que afetou profundamente o resto de sua vida. Ultimamente, acompanho com interesse o caso do general brasileiro morto no Haiti. O suicídio, como tema e como ato, tem uma relação muito próxima com as artes, principalmente com a literatura.
Há grandes personagens suicidas e grandes escritores que, num ato extremado, com um ponto final, eliminaram de si o mundo inteiro. Confesso que ainda quero voltar ao tema, mas hoje deixo um conto meu publicado em Portugal, no livro “As segundas palavras da Tribo”.


Um dia antes do outro

Lucila subiu a escada que levava ao segundo andar, divertindo-se ao ouvir o eco dos próprios passos. Lá em cima, resolveu repetir pela última vez uma das suas diversões preferidas, e desceu escorregando pelo corrimão. Antes, olhou pela janela e viu o pai lá fora, acabando de ajeitar as malas no carro. Ao lado dele, o irmão tentava ser útil. Olhou ao redor e nem sinal da mãe, a senhora de passos silenciosos e furtivos. Prendeu a respiração para escutar melhor, e nada, nenhum sinal de vida a não ser dentro dela mesma. Passou uma das pernas sobre a madeira e abandou o corpo à delícia de deslizar. Daquela vez, com maior delícia ainda, porque era a última, e porque sabia que lá embaixo não estaria mais o tapete que dificultava o equilíbrio quando os pés atingiam o chão. Desceu uma segunda vez para despedir bem despedido, e até mesmo to9mando um pouco menos de cuidado para não fazer barulho. Até gritou. Não a plenos pulmões, mas um gritinho de satisfação, que, assim como os passos, ecoaram na sala vazia. Estavam de mudança e levariam a maior parte das coisas; ficavam apenas o sofá “velho demais, nem compensa levar” e a mesa de dez lugares “ grande demais, não vai caber na casa nova. Melhor ficar também”, tinha ouvido a mãe dizer. Subiu novamente a escada, com calma, contando os passos e os degraus, confirmando os números que já sabia de cor.

No andar de cima chamou pela mãe, e como ninguém respondeu, empurrou devagar a porta do quarto. Viu que ela dormia na “cama que precisamos trocar também, não acha?”. Ainda na soleira, voltou a chamá-la, achando que deveria estar cansada por causa da quantidade de trabalho nos últimos dias. Um cansaço de dobrar, embrulhar, encaixotar, etiquetar, jogar fora o que não servia mais e se preocupar com o “cuidado que é louça de família”, para os homens que buscaram a mudança. Lucila então entrou no quarto e se aproximou da cama, com dó de interromper o descanso da mãe, tão linda dormindo, quietinha. Chegou mais perto, sempre chamando, e já quase gritava, com muito medo de que a mãe não quisesse mais acordar. Desceu as escadas correndo para avisar o pai. Mais rápido do que pelo corrimão.


******


Marisa pensou em deixar algo por escrito, pedindo que nunca separassem os filhos. Pelo que conhecia do marido, ele não teria condições de continuar criando-os sozinho, e menina de oito e o menino de seis. Não que dessem trabalho, até já sabiam cuidar um pouco de si mesmos, mas sabia que o marido ficaria abalado e provavelmente se deixaria levar pela conversa de uma das avós. Queria pedir que mantivessem os dois juntos, pois sabia que a mãe tinha preferência por Otavinho, e a sogra por Lucila. Mas não podia deixar recomendações, pedidos de providências, nada. Não sabia como aquela história terminava, e o melhor seria deixar que corresse por si mesma.

Tinha pouco tempo, o mesmo que o marido precisava para abastecer o carro, calibrar pneus, trocar óleo, coisas que se faz antes de viajar. Marisa pediu que ele levasse as crianças, “assim fico mais tranqüila para ajeitar as coisas por aqui”. Já não havia mais o que ajeitar, e tão logo os três saíram, ela tratou de levar a bagagem para a frente da casa. Sabia que o marido, assim que voltasse, primeiro ia ajeitá-la no carro antes de procurar por ela. Talvez precisasse de mais este tempo, e a não ser pela preocupação com as crianças, estava estranhamente tranqüila para alguém que ia lidar com a própria morte. A sensação de que ia fazer o que deve ser feito, e pronto.

Olhou-se pela última vez no espelho do banheiro e viu uma mulher bonita, muito bonita. Jovem ainda. Sempre diziam que ela parecia ter bem menos que os reais trinta e três anos. Como estaria a outra Marisa, a verdadeira? Tinha escolhido um vestido alegre, de fundo azul-escuro com minúsculas florzinhas também azuis, mas de um tom mais claro. De seda, o tecido amoldando-se ao corpo que não denunciava ter gerado dois filhos. Muito menos os seios, salientes, redondos e firmes querendo saltar para fora do decote. Retocou o batom e se olhou longamente, como quem quer guardar uma boa lembrança de alguém que está de partida.

Tinha separado um jogo novo de lençóis, que estendeu cuidadosamente sobre a cama, esticando e alisando o tecido até que não restasse mais uma única ruga. Também azul, para combinar com o vestido. Na bolsa, procurou o diário e o revólver. Este, deixou esperando sobre a cama e foi até o quintal, embebeu o diário em álcool e riscou o fósforo. Esperou que as folhas não passassem de cinzas que o vento ia tratando de levar embora e subiu novamente as escadas. Parou lá em cima e se permitiu experimentar o único momento que não estava planejado: descer as escadas pelo corrimão. Sentou-se à maneira das damas antigas ao cavalo, com as duas pernas para o lado de dentro da escada, e abandonou o corpo. A princípio, com um pouco de medo, com as mãos agarradas à madeira, causando atrito e dando a medida da coragem. Gostou e resolveu se dar mais uma vez este último desejo, sem as mãos a ditar a velocidade. Uma alegria quase infantil apoderou-se dela com um grito de satisfação que ficou em seus ouvidos por alguns segundos, enquanto ecoava pela sala quase vazia.

Marisa entrou no quarto e pegou novamente a bolsa, querendo a carteira. Olhou com ternura a foto dos filhos e do marido, beijando-os pela última vez. Não sabia se tinha sido assim com a outra; a outra Marisa. Pensando nela, apanhou a pequena arma comprada havia algum tempo na loja de antiguidades, “a empunhadura é de madrepérola, e talvez com uma boa limpeza ainda funcione”, e a encostou ao ouvido direito. Sim, ainda funcionava, tinha mandado testar. Sentiu a orelha nua e se lembrou dos brincos sobre a bancada do banheiro. Levantou-se para pegá-los e foi direto para a cama, permanecendo sentada até conseguir encaixa-los no furo. Deitada, alisou novamente o lençol, abriu a roda do vestido e espalhou os longos cabelos sobre o travesseiro. Repuxou levemente os lábios, para que conservassem uma alegria comedida, e certificou-se de estar com os olhos abertos. Achava horrível morrer de olhos abertos, como se a pessoa ainda tentasse conservar imagens deste mundo. Encostou o cano da arma no ouvido e girou-o para a direita e para a esquerda, empurrando-o levemente, até que estivesse bem encaixado. E puxou o gatilho.


*****


Quando menina, achou que o nome não combinava muito bem com ela. Nome de adulta: Marisa. De onde será que a minha havia tirado a idéia de dar um nome assim a uma criança? Teve certeza do desatino no dia em que foi até a casa de Lucila. Tão diferente da dela, tão bonita, decorada com tanto bom gosto... Tão feliz a amiga, a começar pela felicidade de ter a mãe que tinha. “Lucila, já disse para a sua amiguinha que meu nome também é Marisa?”. Passou a freqüentar a casa de Lucila todos os dias, mais para observar a mãe da amiga, a quem aquele nome caía tão bem. Sentia-se intrusa dentro do seu, e queria aprender a ser como a verdadeira dona. Sempre linda, bem vestida e maquiada, com longos cabelos muito bem tratados e um corpo que não parecia ter gerado dois filhos: Lucila, sua mais nova amiga de escola, e Otavinho, dois anos mais novo.

Quando Lucila avisou que se mudariam, uns dois anos depois, sentiu como se lhe fossem interromper um ensinamento importante, vital. Era como se fosse morrer, ou pelo menos não saber mais como viver, o que dava na mesma. “Estamos sempre mudando por causa do trabalho do meu paio. Ele é engenheiro, sabe? Quando acaba uma obra, agente muda”. Sentiu-se perdida por não poder mais continuar aprendendo a se tornar Marisa. Até que se lembrou de vê-la sempre fazendo anotações em um caderno, e passou a insistir com a amiga para que fossem sempre brincar no quarto da mãe, onde mexia em seus vestidos e sapatos, também procurando pelo tal caderno. A procura era dela, claro, a amiga nem desconfiava; e quando conseguiu encontra-lo, aproveitando que todos estavam ocupados com os preparativos da mudança párea o dia seguinte, nem dormiu. E nem por muitas outras noites e seguir, pois era quase impossível abandonar, mesmo durante as horas de sono, tudo que estava escrito. Uma espécie de diário, uma biografia, um Manual de Marisa.

Quando cresceu, procurou namorados nas portas das faculdades de engenharia, também se casou aos vinte anos, também teve Lucila e Otavinho, com dois anos de diferença entre os dois. Também incentivava o marido a se mudar sempre que aparecia trabalho em outra cidade. Também obedecia à mesma rotina, tinha os mesmos gostos, vestia-se do mesmo modo. Até aprendera a tocar piano, mas sem grande dedicação, para ser tão “medíocre, foi isso que meu marido disse ao me ouvir tocar”, leu. Aliás, também fazia um enorme esforço para também apenas “suportar aquele insensível”. Resolveu que também sumiria aos trinta e três anos, no dia de uma mudança, depois da qual nunca mais teve notícias da outra. Desde a véspera já não sabia mais o que fazer, pois as anotações no diário tinham terminado. Não havia mais indicação nenhuma a seguir. Dever cumprido. A sensação era de estar sobrando dentro de si mesma, e não conseguia mais decidir o que fazer com ávida, por conta própria. Saiu e comprou um revólver.

Ana Maria Gonçalves – Salvador, 2002

*****
Foto: Ana Cristina César
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Confissão #2

Confesso que preciso conhecer mais poesia, e por isso escolhi Cora Coralina para madrinha desse blog. O nome dela era Ana Lins do Guimarães Peixoto Brêtas, mais conhecida como Aninha da Ponte da Lapa, doceira de mão cheia, poetisa bissexta de rara sabedoria e delicadeza. São dela alguns dos poemas de que mais gosto, como este do qual muitas vezes me aproprio, como se tivesse sido escrito para mim:


Aninha e suas pedras
Não te deixes destruir
ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre,sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.


O termo meias confissões de Aninha é tirado de seu livro Vintém de Cobre - Meias confissões de Aninha, sobre o qual deixo as palavras de Drummond:

"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia (...)."
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Confissão #1

Confesso que sou prolixa, e por isso, mas não só, tenho grande dificuldade em escrever contos. Tentar muito e com muitos é um projeto para 2006. E é com um conto que inicio esse blog que já nasce com o propósito de ser abandonado após cem confissões – modelo copiado dos blogs que a Índigo vem fazendo. Prefiro assim, para não nos cansarmos um do outro e termos um objetivo, embora sem tempo definido. As confissões obedecerão ao tempo determinado por elas, podendo ser diárias, ou semanais, ou mensais, ou a qualquer tempo que lhes der na veneta, livres da tirania de Chronos.
Antes que a prolixidade me domine mais uma vez, vamos ao conto. E por favor, apontem falhas, dêem sugestões, comentem, reescrevam. Tenho muita vontade de fazer deste espaço um boteco para conversar muito sobre literatura e assuntos correlatos ou confessáveis.
E que venha um excelente 2006 para todos nós, puxando muitas coisas boas, nem que sejam amarradas a laço...

**********

Virar uma esquina, cruzar uma linha


Para Idelber Avelar



Devia ser quatro horas da tarde, mas posso estar enganada.

- Eu já te falei que não tem nada lá. – ele repetiu a frase tantas vezes dita desde que nos conhecemos e pedi que me levasse à esquina da Paraisópolis com a Divinópolis.

Eu sei da importância efêmera de alguns lugares, mas também da capacidade que eles têm de atrair acontecimentos. A vida na Belo Horizonte que ele chama de cidade-véu, muito mais do que por trás das fachadas que escondem o que deve ser recebido como revelação, e não como mero presente, esconde-se por trás do acaso. E há dias mais propícios ao acaso, como há horas mais propícias à loucura. Horas que alongam tanto os minutos que eles perdem contato com a superfície relativa do tempo e se arrastam, sibilantes e mortais, rumo a regiões inabitadas pela razão, e de lá às vezes nunca voltam. Quando frente a frente com tais horas, busco em meio a uma sucessão inolvidável de palavras, as que li num diário de uma viajante do século XIX:

É quando chega àquela região chamada pelos marinheiros de brumas opacas, situada quase sobre a Linha do Equador, que a fisionomia de bordo toma um aspecto estranho. Imagine, leitor, um calor opressivo, pesado, enervante e excitante a uma só vez; ali, nem um sopro vem inflar as velas, a água do mar parece óleo; só se consegue dormir um pouco deixando as vigias abertas (...) Aquela temperatura enervante enlouquece a tal ponto que, à noite, muitas vezes acreditei estar sob o poder do haxixe, tanto meu espírito oscilava entre a vigília e o sonho.

Há loucos dias em que as brumas opacas equilibram os pés sobre a Linha do Equador e impulsionam os corpos intangíveis nas direções em que se abre a rosa dos ventos. Em meio à água e ao ar de que são feitas, as brumas não se deixam agarrar, como às âncoras tentam fazer os barcos antes da deriva; e envoltos por elas nos aproximamos perigosa e deliciosamente da linha a ser ultrapassada para atingirmos o lado de lá da loucura.

Expandindo-se a partir da Linha do Equador, as brumas opacas borram mares, descem sobre litorais, avançam em terra firme, deslizam sobre planícies e ignoram as acidentais montanhas solitárias e cordilheiras, para então se confundirem com a poluição das grandes cidades, onde, com sua abrangência tentacular, se concentram em pontos alcançados a esmo ou são atraídas pelas auras daqueles que enlouquecem ou se apaixonam, o que é quase a mesma coisa: propícias à fusão. Ver isso acontecer é um dos dons mantidos apesar do distanciamento da infância, uma recompensa pelo muito que me foi tirado desde então.

Por volta dos dez anos parei de ouvir vozes, mas continuei vendo o que não conseguia descrever. Pouco tempo depois, parei de questionar a ineitável atração que com que tais visões me puxam pela mão e me jogam aos pés de um desses enlouquecidos por destino ou por opção. Eu vejo como as brumas opacas se aproximam dele e, antes de passarem a acompanhá-lo, abrem espaço ao redor de sua existência solitária, por meio de cuidadosa abordagem centrípeta e cadenciada pelo nível do alheamento demonstrado. Cautelosas, para não correrem o risco de ser dissipadas pelo bafo denso e gélido, que eventualmente pudesse escapar de janela aberta em algum recôndito ainda ocupado pela lucidez.

Afastado o perigo, as brumas então o abraçam, e com prazer redobrado se encontram um corpo coberto por diversas camadas de roupas. Cheias de volúpia e gozo, vão se agarrando a cada uma delas, correndo os dedos monadais sobre o pó acumulado nas dobras dos panos, esticando os olhos através das fendas deixadas pela agulha que pregou botões já perdidos, raspando com as unhas velhas nódoas, como se quisessem se esgueirar por entre elas e a trama do tecido, buscando e ao mesmo tempo retardando o encontro com a margem do pano, com o limite do pudor que habita a puidez das golas, dos punhos, dos decotes e das barras. É por ali que as brumas se insinuam, salivando a pele e sedimentando com sal a interação que, como no caso da chama com o objeto incandescente, as torna indissociáveis do corpo possuído. Tenho dúvida se são as brumas que tornam esses corpos etéreos, perdidos para sempre em territórios ocupados por medéias e antígonas, ou se são eles que, inclinados à partida, oferecem-se com a irresistível beleza de certas plantas carnívoras. Eu sinto esses corpos como a um cheiro, um aviso inquestionável da presença das brumas, um apelo desesperado e irônico para que eu me afaste, sob o risco de deixar que minha consciência vagueie sem, contudo, conseguir atravessar o campo magnético que delimita o mundo que eu teria que deixar e o que não lograria alcançar.

O mais perto que cheguei desses protegidos das brumas foi quando tinha por volta de quinze anos e uma vontade quase insuportável de, sem culpas, desaparecer. Naquela época não havia muito o que deixar para trás; o que eu tinha de absolutamente meu eram apenas o vislumbre de sonhos e um daimon que se fazia audível apenas para me cobrar a existência de metas e que convivia comigo feito um parasita, um predador afiando suas garras na superfície sensível e moldável da mulher na qual eu deveria me transformar. Por causa das pontas dessas garras eu ganhava sulcos, que lambia, e sobre os quais deixava escorrer o fel das incertezas que rogava contra o futuro. Quando os segundos cortes cicatrizaram sobre os primeiros e os terceiros sobre os segundos, e percebi que poderia ficar viciada naquela auto-imolação a ponto de não mais querer desenraizar os pés de terras com curtos horizontes, eu soube que era hora de partir. Estava muito perto do mendigo, quase podendo tocá-lo, quase perdendo a vergonha de querer levá-lo para casa e cuidar dele. Havia algo nele que me impelia a querer cortar e pentear seus cabelos, correr uma lâmina no seu rosto sujo de longos pêlos, aparar as sobras de suas unhas, esfregar a pele com esponja macia e espuma cheirosa, prolongar uma carícia feita com toalha de brancura impecável. Ele haveria de ser o “meu mendigo”, e eu tomaria posse do seu corpo para me vingar da tentação de transformar em minha a liberdade dele, que era maior ainda por ele não saber que a possuía. Precisei falar:

- Há quanto tempo vive por aí?

Não tive coragem de repetir a pergunta, sem perceber se ele a tinha escutado ou simplesmente ignorado. Fiquei no meio da rua, sentindo a curiosidade como uma mordida afiada sobre uma dobra mínima de pele; dentes fortes que, a qualquer movimento meu, poderiam romper a frágil membrana que os separava. Se isso acontecesse, cega de dor, eu provavelmente me jogaria sobre o mendigo, agarrando-o por um dos três colarinhos com que ele desafiava um sol sob o qual eu não tinha ousado sair com nada além de um vestido fino e a langerie de malha. Cheguei a antecipar a sensação provocada pelo contato com as roupas ásperas dele, que, de tão sujas, já eram invólucros, casulos, mas fui sacudida pelo arremesso gutural de sua voz:

- A senhora me desculpe, mas estou ocupado.

Espantei-me mais pelo “senhora” do que pelo “ocupado”, e acredito ter vencido a resistência dele ao não perguntar que tipo de ocupação poderia ter um mendigo sentado sozinho por horas a fio sob a marquise de uma loja fechada.

- Estou ocupado, muito ocupado. - ele repetiu, querendo me fisgar com a isca amarrada na ponta daquele anzol que eu teria mordido se não estivesse tão concentrada em também me ocupar do silêncio.

- Já não falei que estou ocupado? – ele se entregou, fazendo gestos impacientes e abrangentes com a mão esquerda enquanto abria a mão direita e me mostrava o carretel de linha vazio: - Tenho que tomar conta de tudo isso...

Vencido, ele precisou me provar que tinha muito a fazer e começou a girar o carretel preso entre o indicador e o polegar, e a desenrolar fiadas invisíveis que lançava sobre tudo que via. Começou devagar, como quem se certifica de que é realmente capaz de fazer o que se propõe, mas, aos poucos, já atirava quase a esmo laçadas certeiras sobre as casas e sobre os carros e as pessoas que passavam. Laçou também gatos, cachorros e pássaros, e se irritou por perder muito tempo com uma mosca irriquieta.

- Preciso guardar tudo isso antes de escurecer, senão some. Já perdi tanta coisa...

E continuou seu trabalho de laçar tijolos aparentes como cicatrizes em pinturas e rebocos de casas; folhas de árvores e flores que um vento súbito tirava para dançar; o relógio e o sino de uma torre de igreja vista por cima dos telhados das casas; lâmpadas ainda apagadas e seus postes; tampas de bueiros e de mundos subterrâneos; lixo espalhado pela rua; um avião que estendeu seu rastro de nuvem a nuvem e ainda nuvens que não conseguiam se decidir por nenhum formato definitivo; manequins de vitrines e suas roupas; um alfinete caído na sarjeta e que se fez notar por uma das últimas lambidas de um sol pálido, com aparentes sinais de cansaço.

Parei de olhar para as coisas que ele laçava e me deixei hipnotizar pelos dedos ágeis que fabricavam a linha e os laços certeiros, e que pareciam não contar apenas com a habilidade adquirida pela experiência, mas também com a previsibilidade das coisas e dos processos estabelecidos pelo toque de um deus, que, olhando para o trabalho do mendigo, eu não teria como negar. Meus olhos só se soltaram de suas mãos quando os senti laçados também, e, como pipas entregues a ventos dóceis, colocados frente a frente com os olhos dele. O que encarei foi um olhar de extremo desespero de quem é obrigado a se ocupar do trabalho de um sísifo sem platéia, sem reconhecimento e sem culpa a expiar. Covarde, diferentemente dele, percebi que não conseguiria sustentar aqueles olhos e muito menos suas consequências. Antes de fugir, ainda o vi preparando mais laçadas para continuar carregando para dentro das brumas opacas tudo o que, exposto à noite, se perderia na rudeza do mundo.

- Não te avisei que não tem nada aqui? – ele tentou confirmar.

Casas. Apenas casas e um bar ocupam a confluência da Paraisópolis com a Divinópolis. Posso estar enganada, mas acho que já era bem mais do que cinco horas. Meus alheamentos costumeiros talvez tenham disfarçado a ausência durante o tempo em que ele se ocupava da leitura de contos e crônicas de Machado de Assis. Estávamos dentro do carro estacionado a cerca de dez metros da esquina.

- Como você se sente quando se apaixona? – perguntei, sabendo que a resposta poderia ser dada apenas com o passar do tempo.

- Sabe quando o corpo se levanta de um mergulho no mar, depois da passagem de uma onda, e sente cócegas?

Eu quis dizer que as cócegas eram provocadas pelas brumas, mas apenas apertei a mão dele, pois acabava de sentir: o cheiro misturado de algas, pó de conchas, areia, sal, sargaço, madeira podre de velhas embarcações naufragadas, carcaças de peixes. E logo depois o deslocamento de ar provocado pela laçada, larga o suficiente para caber nós dois.

- Como não tem nada aqui? Estamos nós e o mendigo...

- Como você sabe? – ele perguntou, depois do tempo que deve ter levado para confirmar a presença imposta às minhas memórias.

- Esqueceu-se de que sou cega?


Ana Maria Gonçalves - BH, 06/01/2005
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